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Pesquisador de tesouro diz ter desvendado assassinato de 125 anos atrás

Jorge de Souza

30/01/2021 04h00

Há 17 anos, o curitibano Marcos Juliano Ofenbock, de 43 anos, vasculha obstinadamente uma velha história: a de um suposto tesouro que estaria enterrado até hoje na Ilha de Trindade — o ponto mais distante do território brasileiro, a cerca de 1 000 quilômetros do litoral do Espírito Santo, quase no meio Atlântico.

O roteiro para encontrá-lo teria sido entregue a um comerciante inglês radicado no Brasil, chamado Edward Young, por um pirata de verdade , no final do século 19. Trata-se do auto-apelidado "Zulmiro" (que, mais tarde, acabaria sendo registrado aqui com o nome adaptado de João Francisco "Inglez", numa referência a sua nacionalidade, também britânica), que vivia recluso nos arredores da então vila de Curitiba, após ter fugido do navio no qual atuava  para não ser morto por um crime que cometera, durante uma passagem pela baía de Paranaguá.

Facilitados pelo idioma comum a ambos, Zulmiro e Edward Young ficaram amigos, após se conheceram acidentalmente.

Tempos depois, o velho pirata, já idoso e sem condições de deixar a cidade, teria confiado ao inglês que vivia no Rio de Janeiro, uma série de documentos sobre a localização de um tesouro que ele e seus comparsas teriam escondido naquela longínqua ilha da costa brasileira, décadas antes.

O tal tesouro seria fruto de um saque feito a um barco espanhol que transportava preciosidades extraídas do Peru, pouco antes da independência daquele país, em 1821, o que ficou conhecido como o "Tesouro de Lima".

Fantasioso demais para ser verdade?

Não é o que pensa o curitibano Marcos Juliano, que acabou se transformando em um obstinado pesquisador de uma das mais famosas lendas urbanas da capital paranaense: a da existência do pirata Zulmiro.

Que ele já provou ser verdade.

O enterro do pirata

Um ano e meio atrás, após mais de uma década fuçando velhos arquivos municipais, Marcos Juliano finalmente conseguiu provar que o sepultamento de Zulmiro, então com 90 anos de idade, aconteceu de fato, em 1889.

Os registros de um cemitério de Curitiba revelam, porém, que foi enterrado sob o nome abrasileirado que aqui lhe foi dado, embora ele sustente que o nome verdadeiro do ex-pirata era John Francis (daí o "João Francisco"…) Holder.

"O registro do sepultamento, na data que batia com a morte dele, não deixou a menor dúvida de que o Zulmiro existiu mesmo, o que, depois, também foi confirmado por herdeiros dele, todos com o sobrenome Inglez, que eu encontrei vivendo no interior do Paraná", diz Marcos, que admite que, não fosse isso, também duvidaria da existência do tal pirata de Curitiba. "Nem eu acreditaria".

"Já o amigo dele, o Edward Young, foi assassinado sete anos depois da morte do Zulmiro, sob circunstâncias que nunca foram esclarecidas. Mas ele também deixou descendentes no Brasil, inclusive a atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu recentemente", explica o pesquisador paranense, que já publicou um livro a respeito do tal tesouro, e, por isso, se acostumou a ser olhado com desconfiança pelas pessoas.

Uma nova descoberta

"Já nem ligo mais de ser chamado de maluco, porque falar sobre tesouros é como defender discos voadores. Mas a comprovação de que o pirata Zulmiro existiu de verdade começou a mudar isso também", diz Marcos, que, por conta da determinação nas pesquisas, passou a ser chamado de Indiana Jones de Curitiba.

Ele, agora, diz que descobriu algo ainda mais relevante: quem matou o guardião dos segredos do tesouro, o amigo do pirata Edward Young, que foi assassinado 125 anos atrás.

Um assassinato na história

Edward Young foi morto na noite de 30 de julho de 1896, na sua casa, no Rio de Janeiro, após ouvir um barulho e sair da cama para averiguar.

O autor do disparo jamais foi identificado. Muito menos o motivo do assassinato.

Na ocasião, o crime foi apenas superficialmente investigado pela polícia, que não chegou a conclusão alguma – e não mereceu mais que uma notinha no então jornal Gazeta de Notícias.

No entanto, na família do inglês, na época casado e com quatro filhos pequenos, o assassinato causou um enorme impacto.

Tanto que, até hoje, três gerações depois, o assunto ainda é um tabu entre os seus descendentes, que já somam mais de 200 pessoas, espalhadas pelas cidades de São Paulo, Santos, Curitiba e Iguape, no litoral paulista.

Assunto proibido

"Cresci ouvindo minha mãe falar sobre piratas, mas jamais tocávamos na questão da morte do meu bisavô, em respeito ao meu avô, que era filho dele e só tinha dois anos de idade quando ocorreu o assassinado, e, também, à memória da minha bisavó, que ficou arrasada com a morte do marido", conta Serli Young, hoje com 57 anos, bisneta do inglês a quem o pirata confidenciara documentos sobre o suposto tesouro escondido na Ilha de Trindade.

"A morte do Edwards sempre foi um assunto proibido na família. E se a minha bisavó desconfiou de alguém como sendo o autor do crime, jamais disse isso para ninguém", diz Serli, que, tal qual o restante da família, cresceu sem saber o motivo do assassinato. Ainda assim, intimamente, todos especulassem que teria a ver com o tal tesouro – que ela, assim como Marcos Juliano, também acredita piamente que ainda exista. Ou que tenha existido…

"O que acreditávamos é que os próprios ingleses podiam ter a ver com a morte dele, porque, logo depois que o crime aconteceu, ocorreram expedições inglesas, e também brasileiras, à ilha, em busca do tesouro. Mas, agora, as pesquisas do Marcos Juliano revelaram um fato novo, que me deixou arrepiada: ao que tudo indica, o assassino do meu bisavô foi um sujeito que se fazia passar por amigo dele, com o intuito de roubar os documentos sobre o tesouro", surpreende-se Serli.

"Nunca tínhamos ouvido falar sobre isso na família", diz a bisneta, surpresa com a nova descoberta feita pelo incansável pesquisador de Curitiba.

Mais que suspeito

O suspeito em questão seria o português José Vieira Bastos, um vigarista famoso na cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século passado, onde vivia aplicando golpes do "Conto do Vigário" – motivo pelo qual foi preso diversas vezes pela polícia, mas sempre solto em seguida.

Dono de uma lábia envolvente e convincente, Viera teria se aproximado intencionalmente de Edward Young e se oferecido para intermediar a divulgação, nos jornais da época, de uma série de cartas que o inglês escrevera sob pseudônimo. Nelas, ele contava sobre o tesouro, mas sem revelar muitos detalhes, na esperança de isso atraísse investidores que financiassem a sua busca na Ilha de Trindade.

Na medida em que foi se aprofundando nos detalhes da história, através de conversas com Edward, Viera teria decidido roubar o roteiro que o inglês guardava em sua casa, mas, surpreendido pela vítima, teria disparado e matado Edward.

Como ele concluiu isso

O pesquisador Marcos Juliano chegou a esta conclusão após vasculhar os jornais da época e encontrar uma notícia que dizia que a polícia "suspeitava de Vieira", pois "como amigo da vítima, e íntimo da família, ele deveria ter sido o primeiro a procurar a viúva" – o que não fez, nem tampouco apareceu para depor.

O texto também citava uma suposta questão envolvendo "18 contos" ("de réis", um bom dinheiro na época), que a polícia suspeitava que pudesse ter sido o motivo, mas não fazia nenhuma menção aos documentos do tesouro.

"A polícia não sabia sobre o tesouro. Se soubesse, teria prendido o Vieira por assassinato, porque aquele era o verdadeiro motivo do crime", garante Marcos Juliano, que vibra com a descoberta acidental de algo mais relevante até do que o próprio tesouro.

"Eu pesquisava um tesouro e acabei descobrindo algo bem mais valioso: o desvendamento de um assassinato, mais de um século depois", vibra o pesquisador paranense.

Montando o quebra-cabeças

"Não posso afirmar que o inglês Edward tenha sido morto pelo português Viera, porque não há provas concretas disso. Mas todas as evidências apontam nesse sentido. Como ele já morreu há muito tempo, obviamente não pode mais ser punido. Mas fico feliz por ter contribuído para montar o quebra-cabeças sobre a morte do Edward, o que sempre me intrigou", diz Marcos, que está produzindo um documentário sobre a improvável história do pirata inglês que se exilou em Curitiba após enterrar um tesouro nunca descoberto numa esquecida ilha da costa brasileira – e que sonha em liderar uma expedição à Ilha de Trindade, em busca de novas evidências do tesouro soterrado.

Mas não será nada fácil, como ele mesmo reconhece.

Achar o tesouro será bem mais difícil

"Décadas atrás, uma parte da encosta da ilha desabou, e, ao que tudo indica, justamente sobre o local onde o Zulmiro teria escondido o tesouro. Só por isso ele ainda não foi encontrado", diz Marcos, que garante que, se achá-lo, "irá para um museu, porque é assim que determina a Lei".

"Para mim, o verdadeiro tesouro é a comprovação final dessa história, que já me fez passar por lunático um milhão de vezes. Mas já provei que o pirata existiu, e, agora, tenho certeza que desvendei um assassinato de 125 anos atrás", diz o pesquisador.

O paranaense segue buscando informações com os descendentes dos envolvidos. E, para isso, pede que eles façam contato.

Seria outra ilha?

A história do esconderijo secreto do chamado "Tesouro de Lima", supostamente escondido em uma ilha da costa brasileira, já atiçou a imaginação – e a ação – de alguns aventureiros, no passado.

O mais perseverante deles foi o belga radicado no Brasil Paul Thiry, que passou 40 anos vasculhando uma área primitiva de Ilhabela, no litoral do São Paulo, em busca do tal tesouro.

Paul Thiry não encontrou o tesouro, mas achou intrigantes marcos entalhados nas pedras de uma parte remota da ilha – clique aqui para conhecer essa história.

"O Thiry estava certo sobre o tesouro, mas procurou na ilha errada", garante Marcos Juliano, "Ele não acreditou na existência do pirata Zulmiro, e isso comprometeu as suas buscas. Já eu tenho esperanças de continuar colhendo novas evidências sobre a veracidade do tesouro", diz ele, confiante.

"É bem possível que ele consiga", endossa a herdeira do inglês assassinado, Serli Young.

"Tenho certeza que ainda há documentos que não foram revelados", diz a bisneta do herdeiro do tesouro, atiçando ainda mais a gana do resiliente pesquisador paranaense.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.