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Austrália pode ter sido descoberta por portugueses e teoria intriga o país

Jorge de Souza

16/01/2021 04h00

Reza a lenda que, num certo dia de janeiro de 1836, dois homens encontraram os restos de um antigo barco semi-soterrados nas dunas da praia da então deserta Baía de Armstrong — entre as cidades de Port Fairy and Warrnambool, na costa sul da Austrália. O tom escuro da madeira do casco os deixou intrigados.

Desde então, o assunto também intriga todos os australianos até hoje.

Por um bom motivo: se aquele barco existiu de verdade — já que a última vez em que foi supostamente visto foi quase um século e meio antes de quando foi encontrado já soterrado –, toda a história da Austrália teria que ser reescrita.

Lenda ou verdade?

O motivo seria a origem daquele barco misterioso, sobre o qual pairam muitas dúvidas e nenhuma certeza — nem mesmo se ele teria existido, ou se tudo não passa de uma simples lenda.

Batizado de "Barco de Mogno" (numa alusão a cor escura da madeira do seu casco), a história ganhou contornos de um quase escândalo histórico, pois aventou-se a possibilidade de que aqueles restos fossem de uma embarcação que teria tocado o solo australiano antes do desembarque oficial do primeiro europeu no país — feito pelo navegador holandês Willem Janszoon em 1606 e bem antes que o capitão inglês James Cook tomasse posse do território australiano em nome da Coroa Inglesa, em 1770.

De acordo com a tese, aqueles escombros seriam de um galeão espanhol — ou, hipótese que acabaria ganhando o status de "teoria mais aceita", de uma caravela portuguesa, embarcação que existiu apenas no século 16 –, portanto, bem antes do que se conhece como sendo a história da Austrália, e que ligaria, de maneira surpreendente, o passado daquele país à Portugal, com todas as implicações históricas que isso traria.

A tese de que uma caravela portuguesa tenha sido o primeiro barco a chegar à Austrália intriga os australianos até hoje. Seria como descobrir os restos de um junco chinês na costa do Brasil, bem antes de Cabral – um baque histórico.

Sumiu em 1880

"Tudo leva a crer que aqueles escombros eram de uma caravela portuguesa", diz o australiano Pat Connelly, presidente do Comitê do Barco de Mogno, entidade australiana criada pelos que acreditam que a história daquele país não foi bem como os livros indicam.

E, assim como outros tantos australianos, Connelly está firmemente disposto a provar isso — embora a maior prova que ele poderia ter, que seriam os restos da suposta caravela, ninguém que ainda esteja vivo já tenha visto.

Reprodução Expedia

A última vez que os tais restos do misterioso barco supostamente encontrado naquela praia australiana teriam sido avistados foi em 1880, quando a carta de um morador da região narrou a retirada de alguns "pedaços de madeira para usar na construção de sua casa", que, no entanto, tampouco foi identificada — e, com certeza, se um dia existiu, hoje não existe mais.

Isso ajudaria na identificação do tipo de madeira usado naquela suposta embarcação, detalhe fundamental para traçar a sua origem, já que, apesar do nome "Barco de Mogno" ("Mahogany Ship", como ficaria imortalizado na Austrália), nem isso pôde ser garantido pelos efêmeros relatos do passado.

Warrnambool Art Gallery

De lá para cá, os escombros do pressuposto barco, que, de tempos em tempos, brotavam no vaivém da areia da praia, como relataram antigos habitantes da região, nunca mais afloraram, o que só fez alimentar ainda mais a dúvida: teria aquele barco existido de fato ou não passaria de uma lenda?

Por que ninguém soube?

De acordo com a tese da descoberta da Austrália por portugueses, defendida também pelo escritor e historiador australiano Kenneth McIntyre, autor do livro "A descoberta secreta da Austrália", a tal embarcação teria sido uma das três caravelas da frota do navegador Cristóvão de Mendonça, que, em 1522, partiu em busca das lendárias "Ilhas do Ouro" descritas por Marco Polo.

Uma das caravelas teria desgarrado e ido parar na costa sul da atual Austrália, onde naufragou. Seus eventuais sobreviventes — tecnicamente os primeiros europeus a tocarem o solo australiano — teriam sido mortos pelos aborígenes selvagens que habitavam o território.

Três motivos para o enigma

Mas o fato teria sido encoberto, por três motivos:

1 – Porque, naquela época, vigorava o Tratado de Tordesilhas, que dividia o planeta entre as coroas de Portugal e da Espanha — e a missão de Mendonça avançara ilegalmente sobre a parte espanhola.

2 – Porque eventuais documentos sobre a expedição foram perdidos no incêndio que se seguiu ao terremoto que atingiu Lisboa, em 1755.

3 – Porque, obviamente, não sobrou ninguém vivo daquele barco para relatar o "achado", tampouco relatos confiáveis dos ancestrais dos aborígenes da região, únicas "testemunhas" do suposto desembarque — embora, intrigantemente, algumas palavras dos antigos dialetos aborígenes tivessem alguma semelhança com o português ("tartaruga", por exemplo, era "tartaruga" mesmo).

"Além disso, convém não esquecer, que, naquela época, Portugal já mantinha uma colônia no Timor, que fica a pouco mais de 650 quilômetros da costa australiana", argumentou McIntyre, em seu livro.

Homenagens portuguesas

Por essas e outras, o escritor, que morreu em 2004, chegou a ser condecorado pelo governo português com a Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique, o "Navegador".

E a cidade australiana de Warrnambool, que se tornou conhecida em toda a Austrália graças ao mistério em torno daquela enigmática caravela portuguesa, ganhou um padrão (uma espécie de pilar, usado pelos portugueses do passado para marcar descobertas e reclamar direitos sobre a nova terra) e um busto do famoso impulsionador das viagens portuguesas de descobertas, que hoje decoram duas praças da cidade.

A cidade que vive do mistério

Em Warrnambool, que, não por acaso, fica numa região batizada de Costa dos Naufrágios por conta da quantidade de barcos que ali afundaram no passado, as referências à história (ou lenda…) da embarcação misteriosa estão por todas as partes.

O símbolo oficial da cidade é uma caravela, como uma espécie de Porto Seguro australiana. Uma vez a cada dois anos, acontece, nas ruas cidade, um festival de comidas portuguesas. E até o Mcdonalds local exibe uma réplica, em tamanho real, da embarcação que tornou a cidade famosa, embora ninguém ali possa garantir que ela existiu de verdade.

Mas isso já não importa. Em Warrnambool, o passatempo preferido dos moradores é garimpar as areias da praia com detectores de metal em busca da tal embarcação misteriosa (existe até um dia no calendário municipal dedicado a essa atividade coletiva) e a lenda do Barco de Mogno já se tornou mais relevante do que a própria História.

Outra caravela soterrada

Caso tenha existido de fato, o pressuposto barco português que teria tocado a Austrália 250 anos antes do início da sua colonização, não seria a única histórica caravela que acabou sendo engolida pelas areias.

Em 2008, uma caravela da mesma época, a Bom Jesus (esta real e historicamente comprovada), foi descoberta, acidentalmente, soterrada na beira de uma praia da Namíbia, por um grupo de geólogos, que buscavam jazidas de diamantes.

Dentro da embarcação, havia, inclusive, antigas moedas.

Mas, para os historiadores, o achado era ainda mais valioso, pelo próprio barco em si (clique aqui para conhecer esta história).

É isso, também, que os resilientes moradores de Warrnambool sonham encontrar, debaixo das areias da praia da Baía de Armstrong.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.