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Covid rompe tradição de 75 anos e cancela uma das maiores regatas do mundo

Jorge de Souza

26/12/2020 04h00

Fotos: Rolex Sydney Hobart

Há 75 anos, uma velha tradição se repetia, anualmente, na Austrália.

No dia seguinte ao Natal — hoje, 26 de dezembro, feriado de Boxing Day em todos os países com raízes britânicas –, um grupo cada vez maior de donos de veleiros se reunia na principal cidade australiana para disputar uma corrida de barcos a vela até a distante ilha da Tasmânia: a regata Sydney Hobart, que acabou se transformando em uma das cinco maiores competições do gênero no mundo.

E um evento que, para os australianos, tem a mesma relevância do Carnaval para os brasileiros.

Ao longo de três quartos de século, desde 1945, a regata Sydney Hobart foi disputada ininterruptamente. Até que veio a covid-19…

28 casos que mudaram a História

Em 2020, pela primeira vez em 75 anos, a competição mais aguardada por todos os australianos, que deveria ter começado na manhã deste sábado (26) para terminar só às vésperas do Réveillon, foi cancelada.

Desde então, a decisão tem sido assunto em todos os jornais locais.

Para tentar manter parte da tradição, muitos barcos se reuniram na baía de Sydney, na manhã deste sábado, e fizeram uma largada simbólica, retornando em seguida ao mesmo ponto.

Foi, também, uma forma de protestar silenciosamente contra a decisão de cancelar a competição.

O motivo do cancelamento da regata foi o súbito aumento no número de casos de contaminação pela covid-19 na região da principal cidade da Austrália, Sydney, de onde partiriam os mais de 100 barcos inscritos para a prova, e onde residem pelo menos um terço dos participantes.

Contudo, os números que embasaram a inédita decisão chegam a ser risíveis para nós, brasileiros: apenas 28 casos de contaminação (e nenhuma morte) haviam sido contabilizados no entorno da maior cidade australiana — uma área 40% maior que a da Grande São Paulo e com uma população de mais de 5 milhões de pessoas — no dia em que os organizadores da regata tomaram a decisão de cancelá-la, no sábado passado (19).

E, de lá para cá, os números diminuíram ainda mais.

Comunicado oficial

"Lamentamos informar que tivemos que tomar a decisão de cancelar a regata", comunicaram os organizadores. Os participantes, mesmo decepcionados, não contestaram a medida com veemência — apesar de algumas equipes já terem investido o equivalente a quase meio milhão de reais na preparação dos barcos para a tradicional competição.

Mas lamentaram a quebra da tradição de não poderem ir para o mar no Boxing Day, data que remete também ao Natal, para participar da famosa competição — que também é considerada uma das corridas de barcos à vela mais difíceis do mundo.

Um brasileiro entre os participantes

"Para nós, brasileiros, 28 casos de contaminação entre mais de cinco milhões de pessoas não seriam motivo suficiente nem para cancelar festinha de aniversário, mas, aqui, os australianos ficaram assustados, porque, uma semana antes, havia apenas meia dúzia de casos. Daí, decidiram cancelar a regata", explicou o paulista Enrico Rezende, de 34 anos, que vive na Austrália e seria o único brasileiro a participar da prova.

"A Sydney Hobart é quase como o futebol para os brasileiros. Até quem não gosta de barcos, acompanha", diz Enrico, que havia sido contratado para atuar em um dos barcos, serviço pelo qual recebia o equivalente a R$ 5 mil – embora a Sydney Hobart não ofereça nenhum prêmio em dinheiro aos vencedores.

"Mais do que ganhar a prova, todo mundo quer tentar terminar a Sydney Hobart, o que não é fácil e explica o sucesso da prova entre os australianos, um povo que adora loucuras", explica o brasileiro.

Quarentena obrigatória

O principal motivo para a competição desse ano ter sido cancelada foi a decisão do governo da Tasmânia, onde os barcos chegariam após entre três e cinco dias de navegação, de impor uma quarentena obrigatória para todos que chegassem à ilha vindos da região de Sidney, o que inviabilizou a regata.

"Nem mesmo os organizadores da competição teriam como locomover para lá, a fim de acompanhar a chegada, porque eles também teriam que ficar em quarentena", explicou o comunicado que oficializou o cancelamento da prova. Para muitos, foi uma decisão tomada, também, por pressão dos outros esportes, cujas competições foram igualmente proibidas naquela região da Austrália.

Nem mesmo a testagem de todos os participantes antes da largada resolveria o problema, porque os exames não ficariam prontos antes que os barcos começassem a chegar a Hobart, capital da Tasmânia, onde sempre termina a lendária regata.

Ir e voltar seria suicídio

"A única opção seria obrigar os participantes a cumprirem a quarentena nos seus próprios barcos, o que 'esticaria` demais a prova, ou fazer um bate e volta até a ilha, de forma que ninguém desembarcasse. Mas isso seria massacrante para as equipes, porque a travessia de Austrália para a Tasmânia é um dos piores trechos de mar do planeta, e fazer isso duas vezes, sem parar para descansar, seria quase suicídio", diz o brasileiro Enrico.

"O mar entre a Austrália e a Tasmânia tem sempre mar grosso, ondas altas, pedras traiçoeiras e ventos violentos", atesta o brasileiro.

"É horrível, mas é justamente por isso que essa regata é tão famosa. É um desafio, bem mais do que uma simples corrida de barcos à vela", explica.

Uma tragédia histórica

Muito da fama da regata Sydney Hobart vem mesmo da sua extrema dificuldade, o que, no passado, já gerou até uma das maiores tragédias da História das competições à vela.

Na edição de 1998, uma falha na previsão do tempo fez os competidores serem surpreendidos por uma violentíssima tempestade no meio da travessia. Isso gerou o abandono de dezenas de barcos, cinco naufrágios e nada menos que seis mortes, além da maior operação de resgate no mar da história australiana (clique aqui para ver como tudo isso aconteceu).

A covid venceu

De lá para cá, muita coisa mudou na competição, que hoje exige até curso de sobrevivência no mar para os seus participantes.

Apenas oito entre cada dez barcos conseguem completar a prova, que tem mais de 1 100 quilômetros de extensão e exige uma tensa navegação, dia e noite, sem parar.

As equipes chegam esgotadas.

Mesmo assim, no ano seguinte, estão lá novamente para a disputa de mais uma edição da Sydney Hobart.

Menos este ano, cujo vencedor foi a covid-19.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.