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Histórias do Mar

Polêmica e mistérios cercam o suposto sino da nau que descobriu a América

Jorge de Souza

28/11/2020 04h00

Reprodução Gestion de Activos y Subastas

No dia de Natal de 1492, a nau capitânia da frota de Cristóvão Colombo – a Santa Maria – encalhou e afundou na costa do atual Haiti quando retornava à Europa, após a descoberta da América pelo lendário navegador, dois meses antes.

Cinco séculos depois, em 1994, quando realizava trabalhos submarinos para a construção de emissor de resíduos na costa de Portugal, o mergulhador italiano Roberto Mazzara, após observar atentamente um homem que caminhava pela praia com um detector de metais, em busca de moedas antigas, achou a origem delas: vinham dos restos de um antigo barco naufragado, a pouca distância da praia.

Mas, bem mais relevante do que simples moedas, foi o que o italiano achou nos escombros daquele grande barco: um pequeno sino de bronze, que, como era costume no passado, equipava todas as embarcações.

Só que aquele sino, com pouco mais de 25 centímetros de altura e um grande buraco causado pela corrosão após tanto tempo debaixo d´água, era pequeno demais para um barco tão grande, o que deixou o italiano intrigado.

Além disso, o local onde ele estava parecia ter sido o porão do barco, não o mastro, o que não fazia sentido em se tratando de um sino.

O que ele descobriu?

Imagem: Arquivo Pessoal Roberto Mazzara

Mazzara decidiu investigar e, através de antigos documentos pesquisados nos arquivos históricos de Portugal, descobriu que aqueles restos eram da nau espanhola San Salvador, que afundara na região da Figueira da Foz, em 1555, quando voltava do Caribe, com diversas mercadorias – entre elas um sino, que, segundo o manifesto de carga da viagem, viera da Fortaleza Navidad, criada por Colombo com os restos da sua nau naufragada, e seria entregue a um neto do navegador, na Espanha.

E foram estes dois detalhes (o local do barco onde o sino estava e o documento que apontava a família do navegador como proprietária da peça) que levaram o italiano a ter certeza do que já havia intuído: aquele pequeno sino havia pertencido a nau de Colombo, e estava sendo transportado pela San Salvador para ser entregue a família do descobridor da América.

Começava aí uma história cheia de mistérios e reviravoltas, que dura até hoje.

Será autêntico?

Desde que foi achado pelo mergulhador italiano em águas portuguesas, o sino, que já virou até caso de polícia, quando o governo de Portugal mandou confiscá-lo às vésperas de um leilão que aconteceria na Espanha, tem sido alvo de todo tipo de especulação – inclusive quanto a sua autenticidade.

Nem todos os historiadores garantem que este pequeno sino, carcomido pelo tempo, seja o que supostamente foi tocado por Colombo para anunciar a descoberta do Novo Mundo, 528 anos atrás, nem mesmo se havia um sino na sua nau – que, por sinal, Mazzara garante que não se chamava Santa Maria, como consta nos livros de história, e sim Lagallega ("A Galega", em português, numa referência a região da Galícia, na Espanha, mas escrito de forma arcaica).

O italiano, porém, que segue tentando vender o sino através de meios nem sempre muito claros, não tem a menor dúvida sobre a autenticidade da peça.

"Este sino é a única relíquia que restou daquela histórica viagem de Colombo. Uma peça de valor incalculável", diz o italiano, se orgulha de possuir, segundo ele, o único objeto que esteve presente na descoberta da América.

Vale milhões?

E quanto vale o sino? "Difícil dizer, porque ele tem um valor histórico inestimável", diz o Mazzara, que, no entanto, sempre pensou em cifras na casa dos milhões.

Quando foi colocado, por ele, através de uma empresa espanhola, naquele frustrado leilão em Madri, em 2003, o lance mínimo era de um milhão de euros (cerca de R$ 6,5 milhões).

Quinze anos depois, quando o enigmático sino apareceu misteriosamente nos Estados Unidos, possivelmente após ter sido contrabandeado, e foi oferecido ao dono de uma obscura rádio da Florida para que ele promovesse outro leilão através de sua emissora, ou vendesse a peça, mediante comissão, o valor pedido já havia subido para cinco milhões de dólares (quase R$ 30 milhões).

Aparentemente, ninguém se interessou em comprar o sino, embora, ao que tudo indique, ele esteja no Estados Unidos até hoje.

Só não se sabe se nas mãos de algum colecionador particular, ou ainda sob a guarda do mergulhador italiano, que não costuma dar detalhes mais precisos sobre a atual localização do polêmico sino – cuja rocambolesca história pode ser conferida clicando aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

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