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Barco-robô surge misteriosamente e intriga moradores de ilha da Escócia

Jorge de Souza

17/10/2020 04h00

Imagem: MCA/UK

Duas semanas atrás, um estranho objeto flutuante foi dar nas pedras que rodeiam a ilha Tiree, no litoral da Escócia.

Parecia um pequeno barco, com pouco mais de três metros de comprimento, mas sem espaço para ninguém a bordo e totalmente revestido com placas captadoras de energia solar.

Intrigados, os moradores da ilha acionaram a Guarda Costeira do Reino Unido, que, por sua vez, também sem saber do que se tratava – muito menos a quem pertencia tão estranha embarcação -, recorreu às redes sociais para pedir ajuda à comunidade marítima mundial.

A identificação do objeto veio rápido: tratava-se de um planador de superfície, uma espécie de barco autônomo não tripulado já bastante usado em pesquisas marítimas e ações navais militares, sobretudo de espionagem – embora, nesses casos, nem sempre admitidas, já que a maioria delas são secretas.

Já o dono do engenho, que lembrava uma prancha de windsurfe equipada com grandes antenas (uma delas, quebrada), permanece um mistério até hoje, o que reforça a tese de que aquela estranha embarcação não tripulada era usada para espionar algo no mar.

Mas o quê? Por quem? E com qual objetivo?

Estas são algumas das perguntas que seguem sem respostas.

Três hipóteses

O que já se sabe é que o objeto, um "planador de ondas", que flutua sob qualquer condição de mar e se movimenta graças às ondulações marinhas, foi fabricado pela empresa Liquid Robotics, que faz parte do grupo norte-americano Boeing.

Mas, por uma questão de segurança e privacidade, a empresa não forneceu o nome de que o encomendara.

Uma das hipóteses é que o engenho, que navega sem barulho algum e é praticamente invisível no mar (porque fica rente à superfície e não consegue ser detectado nem por radares), estivesse sendo usado em exercícios de detecção de submarinos quando algo deu errado, deixando o planador à deriva.

Esta tese é reforçada pelo fato de que, bem perto da ilha Tiree, fica a base operacional da frota de submarinos nucleares do Reino Unido.

Imagem: MCA/UK

O planador poderia estar sendo usado pela própria Marinha Inglesa, ou pelo Ministério da Defesa, que sabidamente possui esse tipo de equipamento (embora negue que o tenha utilizado naquela ocasião), para avaliar a capacidade dos submarinos ingleses de se locomoverem sem serem notados, já que navegar escondido é o princípio básico de todo submarino.

Ou, então, para comprovar a capacidade de os submarinos partirem da base para alguma missão sigilosa sem serem detectados por equipamentos de rastreio.

Uso militar. Mas de quem?

Outra hipótese é que a bisbilhotagem estivesse sendo feito pelos próprios americanos, com objetivos tão secretos quanto os dos ingleses.

Tanto que nenhum dos lados reclamou a propriedade do equipamento, que, de acordo com a revista "Forbes", uma das primeiras a noticiar o fato, vale, no mínimo, dois milhões de reais – embora não passe de uma prancha de metal, repleta de antenas.

A hipótese de o equipamento pertencer a uma instituição de pesquisa marinha, como as que monitoram cardumes no Atlântico Norte, também foi descartada, já que as entidades seriam as maiores interessadas em recuperar rapidamente o objeto, o que não foi feito até hoje.

O mais provável é que a misteriosa embarcação estivesse sendo usada em alguma atividade militar sigilosa, o que explica o silêncio dos seus responsáveis até hoje.

Camuflado e danificado

Um dos detalhes que comprovam isso é a própria cor do barco-autônomo, um discreto e quase camuflado tom cinza escuro e não o colorido chamativo usado nos equipamentos semelhantes de pesquisas científicas, justamente para facilitar a sua visualização no mar.

Além disso, ao contrário de qualquer tipo de embarcação, o planador escocês não tinha luzes de navegação nem refletores de radar, o que pode, inclusive, ter gerado o acidente que o deixou à deriva ao ser atropelado por outro barco.

Imagem: Divulgação Liquid Robotics

Ao ser encontrado, além de estar com uma das antenas de envio de dados via satélite quebrada (possivelmente pela colisão com outro barco), o equipamento também estava sem o engenhoso conjunto propulsor submerso. Este funciona a partir das simples ondulações oceânicas – um conjunto de "asas submarinas" movidas pelas correntes marítimas que garantem movimento eterno, sem depender do vento nem de nenhum tipo de combustível.

Sem ele, o planador ficou à deriva. E foi dar na ilha.

Barcos autônomos são tendência

Embarcações autônomas, que navegam sem ninguém a bordo, monitoradas à distância e com capacidade infinita para cruzar oceanos, usando apenas a energia das ondas, são uma tendência, sobretudo para fins militares, já que também são praticamente imperceptíveis.

Oito anos atrás, durante um experimento, um desses artefatos atravessou o Pacífico, o maior oceano do mundo, de São Francisco à Austrália, sem nenhum problema e sem ser detectado por barco algum, o que permite imaginar que o engenho que apareceu na ilha escocesa pode ter vindo de qualquer parte do mundo – inclusive da sempre sinistra Rússia, como chegou a ser cogitado, antes de o fabricante americano identificar o objeto como sendo de sua fabricação.

Mais recentemente, outro barco-autônomo do gênero foi avistado no mar da Florida, numa ação que, mais tarde, foi identificada como sendo o monitoramento de contrabando na região.

O mistério que revelou uma tragédia

Qualquer objeto trazido pelo mar inevitavelmente é envolto em certo mistério. De onde ele teria vindo e qual seria a sua história?

No início deste ano, outro pequeno barco à deriva foi dar em uma praia das Filipinas e deixou a polícia especialmente intrigada, porque, próximo dele, também surgiram os restos de um corpo humano, sem membros nem cabeça, que, mais tarde, foram identificados como sendo do remador chinês Ruihan Yu, que desaparecera meses antes, durante uma tentativa de cruzar o oceano Pacífico com um barco a remo – e cuja morte, jamais devidamente explicada, foi atribuída a absurda negligência de uma equipe americana de resgate – clique aqui para conhecer essa trágica história.

No caso do barco-robô escocês, não houve tragédia alguma. Até porque não havia nenhum ser humano a bordo. Mas, duas semanas depois, algumas perguntas continuam sem respostas. A começar pela mais básica de todas: a quem ele pertence?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.