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Filha de Amyr Klink parte sozinha para o mar. Para aflição do pai

Jorge de Souza

17/09/2020 04h00

Como que confirmando o ditado de que "filho de peixe, peixinho é", Tamara Klink, de 23 anos, filha do mais famoso navegador do Brasil, Amyr Klink (que, entre outras façanhas, atravessou o oceano Atlântico com um barco a remo, 36 anos atrás), está, neste momento, sozinha no meio do mar com um pequeno veleiro fazendo sua primeira travessia em solitário. Numa viagem entre a Noruega e a França, onde só deverá chegar no mês que vem.

A decisão de fazer uma longa travessia sem a ajuda de ninguém no barco (a primeira do gênero feita por ela) foi da própria Tamara que, ao chegar na Noruega, velejando com um grupo de amigos franceses, decidiu comprar um pequeno barco e com ele retornar sozinha à França, onde estuda arquitetura naval.

Nem seu pai, o mais célebre navegador do Brasil, sabia dos planos da filha.

Tamara Klink, com os pais, Amyr e Marina, antes de sair do Brasil. Foto: Leonardo Fancini

"Só fiquei sabendo quando ela ligou dizendo que tinha comprado um barco e que ia voltar com ele para a França sozinha, o que nunca fez na vida", diz Amyr Klink, que construiu sua fama justamente navegando em solitário.

"Lembro que, na hora, só consegui dizer ´ô loco!´. Só depois a ficha caiu e me ofereci para dar uns conselhos. Mas só vou relaxar quando ela terminar a viagem. Agora eu sei como a minha mãe se sentia quando eu partia", brinca Amyr, rindo, mas com certa apreensão.

A vida inteira no mar

"Eu precisava fazer isso", explica Tamara, que desde pequena frequenta o mar e já foi sete vezes com a família navegando até a Antártica, a primeira delas quando tinha apenas oito anos de idade.

"Navegar sozinha é uma etapa necessária do meu aprendizado. E só vou aprender a fazer isso navegando sem a ajuda de mais ninguém no barco. Eu escolhi não ter escolha nessa viagem. Se surgir algum problema, eu é que terei que achar uma solução pra ele", diz a jovem navegadora que, na medida do possível, tenta conversar com a mãe todos os dias durante a travessia, quando o mar e a internet permitem.

"Ele não fala muito, mas diz coisas que me ajudam bastante, como nunca forçar o barco porque a minha segurança depende dele, e não temer as tempestades se elas vierem no sentido do avanço do barco, embora o ideal seja evitá-las ao máximo", diz Tamara.

Por essas razões, ela optou por um roteiro com diversas paradas ao longo do caminho. O objetivo é descansar e esperar qualquer eventual mau tempo passar – embora esteja navegando em uma região famosa pelo mar quase sempre agitado.

Neste momento, a filha de Amyr está a caminho da Holanda (clique aqui para ver a sua posição exata, em tempo real), onde pretende chegar ainda hoje e esperar um novo período de tempo bom para seguir viagem. Mas nem ela sabe quando chegará à França. "Talvez daqui a um mês", avalia.

"No Mar do Norte, onde estou agora, quando o mar fica ruim, fica ruim mesmo", atesta Tamara, que, até partir da Noruega rumo à França no primeiro dia deste mês (com paradas previstas na Dinamarca, Holanda, Bélgica e Inglaterra), nunca havia navegado sozinha no mar aberto.

Sensação esquisita

"Foi uma sensação meio esquisita olhar ao redor do barco e não ver nenhuma terra firme por perto", diz Tamara. "Mas, ao mesmo tempo, me senti mais segura porque no alto mar não existem pedras como na costa da Noruega, e tem espaço de sobra para eu errar nas manobras sem colocar o barco em risco", analisa. "Como o meu pai sempre diz, o maior risco de quem está no mar é a terra firme".

"Além de aprender a navegar sozinha e depender apenas dela mesma, a Tamara também está aprendendo a ter paciência e a dosar a vontade de partir com a prudência de ter que esperar o melhor momento para fazer isso. Está aprendendo a negociar com a natureza, o que é muito bom para a segurança dela e, também, para a nossa tranquilidade", analisa a mãe, a fotógrafa e palestrante Marina Bandeira Klink.

Marina confessa que ficou um pouco apreensiva com a escolha feita pela filha, mas nem assim cogitou tentar convencê-la a não fazer a sua primeira travessia em solitário.

"Que moral e direito eu teria de impedi-la se os pais são referência para os filhos? Além das travessias do Amyr, eu, com a idade dela, vivia saltando de asa-delta e me embrenhando na mata para ver bichos selvagens", diz a mãe de Tamara.

"Não é justo impor limites aos sonhos dos filhos. O único limite é o da segurança, que deve vir sempre em primeiro lugar. E isso a Tamara aprendeu comigo e com o Amyr desde criança".

"Ela sabe o que é enfrentar mar ruim, porque já viveu essa experiência nas travessias que fizemos com o Amyr. Mas, agora, está aprendendo a lidar com isso e com as suas inseguranças de outra maneira, bem mais intensa, o que será bom para ela no futuro. E também é bom que sinta um pouco de receio, porque o medo faz a gente não cometer imprudências", diz Marina.

No dia da partida da filha, a mãe escreveu na sua conta no Instagram: "Um dia a gente se dá conta de que os filhos cresceram e começam a voar seus próprios voos".

"A Tamara sempre gostou de navegar. É algo próprio dela. Mas claro que houve a influência direta da casa onde ela cresceu, ouvindo as histórias do pai, e sempre em meio aos barcos", diz a mãe da velejadora.

Marina também foi surpreendida pela decisão da filha de comprar um barco sem falar nada para ninguém e partir para a sua primeira travessia solo no mar: "Achei que fosse demorar um pouco mais para isso acontecer, mas sempre soube que, um dia, aconteceria".

Planos de construir um barco

O barco de Tamara, comprado com dinheiro emprestado por um amigo, é um pequeno veleiro de apenas oito metros de comprimento que ela batizou de "Sardinha" – "um peixinho que ninguém dá nada por ele, mas que vence grandes distâncias", explica, com eterno bom humor, a jovem velejadora que, agora, já sonha em ir mais longe.

"Quero construir um barco eu mesma e atravessar o Atlântico, talvez já no ano que vem. E um dia voltar à Antártica comandando o meu próprio veleiro", avisa.

Volta ao mundo aos 14 anos de idade

E convém não duvidar, porque, além do histórico familiar, Tamara Klink tem como referência outras jovens navegadoras que já realizaram feitos fantásticos viajando sozinhas a bordo de barcos que elas mesmo comandaram.

Como a holandesa Laura Drekker que, oito anos atrás, tornou-se a mais jovem velejadora da história a dar a volta ao mundo navegando em solitário. Porém, ela não teve o seu feito oficializado como recorde por conta de uma questão polêmica: ela tinha apenas 14 anos de idade quando foi para o mar, o que levou a Justiça do seu país a tentar impedi-la de todas as formas (clique aqui para ler esta história que deu o que falar na época).

No caso de Tamara Klink, esse risco não existe. Além de já ser maior de idade, ela não tem planos mais ambiciosos do que refazer algumas viagens que seu famoso pai fez no passado. Como a travessia do Atlântico e a visita o continente antártico.

Quer dizer, pelo menos por enquanto…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.