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Histórico

O que a caipirinha tem a ver com pandemia? A História explica

Jorge de Souza

12/09/2020 04h00

Só os jornais da época, os registros históricos e alguns descendentes das vítimas recordam.

Pouco mais de um século atrás, em 1918, o Brasil e o mundo enfrentaram outra terrível pandemia, também causada por um vírus respiratório. A chamada "gripe espanhola" matou cerca de 50 milhões de pessoas no planeta, sendo estimadas 35 000 delas no Brasil, incluindo até o então presidente eleito, Rodrigues Alves, que nem chegou a tomar posse.

Embora tão pavorosa quanto a atual covid-19, a pandemia da gripe espanhola deixou, ao menos, um legado positivo para o país: a consagração da caipirinha como a bebida mais típica do Brasil.

Mas o que a singela caipirinha teve a ver com uma pandemia de 102 anos atrás?

A resposta está no fato de a agradável bebida ter sido transformada pelo povo em "remédio": o mais popular e saboroso antídoto que os brasileiros encontraram para combater o vírus da gripe espanhola ainda que totalmente inútil na prática.

Feito uma espécie de, digamos, uma cloroquina doméstica, a caipirinha logo passou da condição de bebida de caipiras do interior paulista (o que explicaria a origem do seu curioso nome, embora haja controvérsias sobre isso) para se tornar um dos três grandes símbolos internacionais do Brasil, ao lado do Carnaval e do futebol.

A bebida que virou Patrimônio Brasileiro

A caipirinha virou, enfim, quase sinônimo do país mundo afora, o que, décadas depois, levaria o aperitivo a ser transformado em Patrimônio Cultural Brasileiro por meio de um decreto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2002, mais tarde complementado por outro decreto, do ex-presidente Lula, em 2009, que, inclusive, definiu e padronizou a bebida: "…cachaça, limão, açúcar e gelo, facultada a adição de água para a padronização da graduação alcoólica, que deve ser entre 15 e 36% em volume, a 20 graus Celsius…"

Com isso, a caipirinha virou, também, ciência exata, embora tivesse se mostrado totalmente ineficaz no episódio que alavancou a sua estrondosa popularidade: o inócuo combate à gripe espanhola que, tal qual o atual coronavírus, também não tinha nenhuma vacina naquela época.

O povo brasileiro adorou o "remédio" que ele mesmo inventara. A caipirinha não curava nada, mas era uma delícia de bebida.

O sucesso de um "remédio"

A origem do engodo foi a equivocada associação da gripe espanhola com outras gripes convencionais, contra as quais os habitantes de certas regiões canavieiras do interior de São Paulo estavam habituados a se automedicar com uma mistura caseira de limão, mel, alho e cachaça já que acreditavam que a adição de um pouco de álcool a qualquer remédio caseiro potencializava o seu efeito terapêutico.

Mais tarde, o mel deu lugar ao açúcar e o alho ao gelo, a fim de tornar a bebida mais adequada ao calor do clima brasileiro.

Mesmo assim, os supostos benefícios terapêuticos da saborosa mistura se mostraram um retumbante fiasco no combate ao poderoso vírus do início do século passado.

Mas isso já pouco importava. De simples remédio doméstico, a caipirinha tinha se transformado em algo muito maior: a bebida preferida dos brasileiros. E, mais tarde, também de todos os estrangeiros que visitam o país.

Foi a pandemia da gripe espanhola que tirou a caipirinha do limitado universo do interior paulista e a tornou famosa no mundo inteiro. Mas pairam dúvidas até hoje sobre a real origem da festejada bebida.

A origem mais provável

A teoria mais aceita pelos acadêmicos é que a irresistível mistura de limão com açúcar e cachaça teria sido criada na região canavieira do interior de São Paulo, embora seja impossível afirmar onde exatamente isso teria acontecido.

A cidade de Piracicaba pleiteia a criação, mas outros cinco municípios do interior paulista (Taquaritinga, Matão, Jaboticabal, Monte Alto e Pirangi) contestam esse pioneirismo.

Tampouco se sabe se a bebida teria nascido como algo chique, "servido pelos fazendeiros da região em suas grandes festas, como alternativa elegante ao vinho e ao uísque", como sempre defendeu o historiador Luís da Câmara Cascudo; ou se a sua origem seria bem mais humilde, como comprova o próprio nome, já que "caipira" designa "habitante do campo".

A caipirinha seria portuguesa?

Outra teoria, no entanto, atribui a origem do drinque mais consumido do Brasil a terras estrangeiras.

Segundo os habitantes da Ilha da Madeira, que pertence a Portugal, foram eles, no passado, que criaram a receita original da bebida, lá chamada de poncha, feita igualmente com a mistura de aguardente, açúcar e limão espremido com casca e tudo.

De acordo com os madeirenses, a fórmula da bebida veio para o Brasil como consequência da cultura da cana de açúcar no nosso país, algo que eles também tiveram direta influência, pois foi da Ilha da Madeira que vieram os conhecimentos para o cultivo da planta em solo brasileiro.

Receita de marinheiros

Uma terceira tese, não tão levada a sério, atribui aos velhos marinheiros que chegavam ao porto de Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, um tradicional reduto de produtores de aguardente até hoje, o princípio básico para a fórmula da caipirinha: a mistura de limão com cachaça.

Os marinheiros faziam isso em busca de dois benefícios: combater o escorbuto durante as longas navegações (graças à vitamina C presente no limão) e saciar a sede de álcool após tanto tempo no mar.

Mas, com exceção de alguns moradores da cidade, poucos acreditam nessa tese para a origem da caipirinha.

E tudo começou com um certo navio…

O que, no entanto, ninguém discute – e o próprio Instituto Brasileiro da Cachaça endossa é que a real consagração e popularização da caipirinha se deu graças a sua utilização como "remédio" contra a gripe espanhola uma pavorosa pandemia que chegou ao Brasil a bordo de um único navio, o transatlântico inglês Demerara, que atracou no porto de Recife em 14 de setembro de 1918 trazendo o vírus a bordo, como pode ser conferido clicando aqui.

A origem da caipirinha é discutível até hoje. Mas é unânime que a sua popularidade ocorreu graças a uma pandemia que chegou aqui chegou a bordo de um simples navio e deixou milhares de vítimas

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.