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O que há por trás do uísque que vale R$ 40 mil mas não pode ser bebido

Jorge de Souza

08/08/2020 04h00

Você pagaria mais de R$ 40 mil por uma garrafa de uísque?

E se esse uísque não pudesse nem ser ingerido, porque é impossível garantir a qualidade da bebida?

Pois é isso que alguém já ofereceu por uma garrafa do destilado que sequer tem rótulo (portanto, ninguém sabe de qual marca é a bebida que há dentro dela), que será leiloada nesta segunda-feira (10) onine, pela The Grand Whisky Auction.

A casa inglesa espera, inclusive, lances bem maiores, podendo chegar as almejadas 8 500 libras esterlinas, ou R$ 60 mil, pela garrafa.

Mas por que alguém pagaria tanto por uma bebida que nem poderá ser consumida? A resposta está na história que há por trás daquela garrafa, que é, sem dúvida, curiosa.

Gato e rato com a Polícia

Em fevereiro de 1941, em plena carência geral de suprimentos causada pela Segunda Guerra Mundial, o navio cargueiro SS Politician encalhou junto a ilha Eriskay, no litoral da Escócia. Nele estava um carregamento de 264 000 garrafas de uísque escocês, que estavam sendo levadas para os Estados Unidos.

Reprodução: Filme Whisky Galore 

Ao saberem da novidade, os pouco mais de 400 moradores da ilha, todos sedentos por um bom scotch, passaram a saquear o navio durante as madrugadas.

Tudo virou uma brincadeira de gato e rato com a polícia, já que eles escondiam as garrafas surrupiadas nos mais absurdos locais da ilha e de suas casas, em um divertido episódio que acabou entrando para a história do Reino Unido.

Achada no fundo do mar

Reprodução: Filme Whisky Galore

A garrafa que será leiloada é uma das que estavam no SS Politician, mas afundou junto com o navio depois que as autoridades – incapazes de controlar as artimanhas da população da ilha – decidiu pôr a pique o cargueiro.

Este era o único jeito de acabar de vez com os saques, mas não com a sanha dos aventureiros mais ousados, como o mergulhador inglês George Currie, que recuperou a garrafa que agora será leiloada mais de 50 anos depois .

O primeiro lance virtual desde que a histórica garrafa foi apresentada na internet foi de 1 025 libras esterlinas – pouco mais de R$ 7 mil. Mas, em seguida, subiu para 5 000 libras (cerca de R$ 35 mil) e, novamente, para 6 000 (por volta de R$ 42 mil), atual maior lance.

Sete anos atrás, um conjunto de duas garrafas de uísque com a mesma procedência chegou a atingir 12 000 libras esterlinas (quase R$ 85 mil) em um leilão promovido pela mesma empresa.

Agora, a expectativa é que o recorde seja quebrado com o leilão da nova garrafa, embora um aviso no próprio site alerte que o seu consumo, após tanto tempo no fundo do mar, "não é apropriado".

Não pode ser bebida

Embora o tempo de envelhecimento seja fundamental na qualidade de qualquer uísque, o fato de aquela garrafa ter mais de 80 anos não significa nada, porque o envelhecimento da bebida precisa ser feito em barris, e não após ser engarrafada.

Além disso, a pressão submarina e o ambiente marinho podem ter oxidado a bebida, embora a sua coloração, o nível inalterado do líquido na garrafa e a vedação aparentemente perfeita da tampa sugiram que o uísque possa ter mantido as mesmas características que tinha quando o encalhe do SS Politician e sua cobiçada carga colocou em polvorosa a população inteira da ilha, inclusive pacatas donas de casa, e gerou cenas hilárias.

A história completa

Uma dos fatos mais recorrentes eram bêbados que escondiam as garrafas e, depois, não se lembravam onde, como mostrou o bem-humorado filme "Whisky Galore" (algo como "Uísque em Abundância").

Baseada no livro homônimo, a história também virou peça musical de grande sucesso na Inglaterra (para conhecer a história completa de como os habitantes da ilha saquearam boa parte do uísque do navio dando seguidos dribles na polícia, clique aqui).

Ao que tudo indica, quem se dispuser a gastar uma pequena fortuna para arrematar a garrafa que agora irá a leilão só poderá mesmo exibi-la aos amigos, como uma espécie de testemunha de um fato divertido que fez história no Reino Unido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.