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Abandonado, navio histórico ameaça afundar no próprio porto de Santos

Jorge de Souza

08/07/2020 04h00

A novela na qual se transformou o destino do histórico navio Professor W. Besnard, considerado um ícone da oceanografia brasileira e pioneiro da presença do Brasil na Antártica ganhou mais um capítulo na última sexta-feira, dia 3.

Agentes do Ibama e da Autoridade Portuária de Santos fizeram uma vistoria no navio, que está parado no porto há 12 anos sem condições de navegar, e concluíram que algo precisa ser feito com urgência para ele não afundar ali mesmo.

Os fiscais constataram que o casco do navio, hoje coberto de limo, musgo e ferrugem, está cheio de água e com algumas escotilhas quebradas bem perto da linha d'água, ou seja, da superfície do mar.

Foto: Ibama

"Se o navio descer um pouco mais, por conta do peso da água, o mar invadirá o casco pelas escotilhas quebradas e ele afundará ou tombará, gerando um problema também ambiental", disse a chefe do Ibama em Santos, Ana Angélica Alabarce, que participou da vistoria do navio.

                                          Foto: Ibama

O que diz o dono do navio?

"O que aconteceu foi que choveu demais duas semanas atrás e a água da chuva escorreu para o fundo do casco", miniminiza o advogado Fernando Liberalli, do Instituto do Mar, responsável pelo navio desde que ele foi tombado pelo Patrimônio Histórico e impedido de ser afundado ou transformado em sucata.

"Além disso, vândalos invadiram o navio e quebraram os vidros de algumas escotilhas, permitindo que a água do mar entre no casco, com as ondulações geradas pelos navios que passam pelo porto", acrescenta o advogado, que foi oficialmente notificado ontem sobre a necessidade de fazer algo com urgência.

"Com a ajuda da Autoridade Portuária de Santos, já providenciamos o bombeamento da água que está dentro do navio, e isso será feito ainda esta semana", garante Liberalli, que, para muitos, não teve a exata dimensão do problema que é recuperar e manter um velho navio, quando decidiu preservá-lo. "Mas não há risco dele afundar totalmente, até porque o local onde está é tão raso que isso seria impossível", explica.

"O navio ficou doente"

Liberalli também alega que a pandemia do coronavirus e a burocracia atrapalharam o início dos trabalhos de recuperação do navio, que, segundo ele, começarão em breve.

"O navio ficou também doente com a pandemia", diz Liberalli, de 64 anos, que por fazer parte do grupo de risco, pela idade, alega ainda que teve que ficar temporariamente afastado do navio".

Ele estima que só o trabalho de remoção da água que há dentro do casco custará cerca de R$ 300 mil.

"A Santos Port Authority irá fazer o trabalho e nós acertaremos isso depois, tão logo sejam liberados os recursos de um fundo retido que temos para recuperar o navio, e transformá-lo em um museu flutuante, o que sempre foi o nosso projeto".

Foto: Ibama

Mas a vistoria da semana passada avaliou que o casco do navio está começando a adernar e há risco de tombar, criando, além de um problema ambiental, também um obstáculo a navegação no porto.

Embora também creditando às fortes chuvas parte da água empoçada dentro do navio, a equipe de vistoria não descartou a hipótese de haver, também, alguma avaria no casco. "Não há nenhum laudo atual que comprove a integridade do casco", diz a chefe do Ibama na cidade.

"Monumento histórico"

Com quase 50 metros de comprimento, o navio Professor W. Besnard foi construído em 1966 e desativado 50 anos depois. Mas, desde então, virou protagonista de uma novela que parece não ter fim.

"O Professor W. Besnard não é um simples navio", diz Liberalli. "É um monumento histórico, tanto que foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio do Estado de São Paulo. E é isso que estou tentando preservar", defende o advogado, que explica que a ONG que preside não tem fins lucrativos.

O sonho de Liberalli é transformar o navio, que navegou durante 23 anos fazendo pesquisas marinhas e foi o pioneiro das incursões brasileiras na Antártica, em um museu flutuante, permanentemente atracado em Santos.

"Nunca naveguei no Professor W. Besnard, mas tenho a maior admiração por este navio, que é lendário entre os cientistas brasileiros e histórico sob todos os aspectos", diz o advogado.

"O Brasil é um país sem memória, que não faz nenhuma questão de preservar o seu passado. Não quero que isso aconteça também com o Professor W. Besnard, que ainda pode ser salvo", acrescenta.

Salvo, de novo, do naufrágio?

Até ser praticamente esquecido no porto de Santos, o destino do navio pioneiro nas pesquisas marinhas brasileiras era igualmente sombrio: ou viraria sucata e seria vendido como ferro-velho, ou propositalmente afundado em Ilhabela, no litoral de São Paulo, para servir de atração submarina para mergulhadores.

Mas Liberalli interveio e, com o tombamento do navio, conseguiu que as duas hipóteses fossem descartadas.

Desde então, o navio apodrece a céu aberto no porto de Santos, onde, agora, corre o risco de afundar de vez.

Não é, porém, a primeira vez que o Professor W. Besnard corre risco de naufrágio.

No passado, quase 30 anos atrás, ele quase naufragou de verdade na volta de uma de suas expedições à Antártica, após perder o motor e ficar à deriva, com 37 pessoas a bordo, num tenso episódio que virou notícia em todo o pais (clique aqui e conheça essa história).

Agora, o que se pretende é que isso, novamente, não aconteça.

"Mas é preciso agir rápido", concordam os dois lados.

POSICIONAMENTO DA SANTOS PORT AUTHORITY SOBRE ESTE CASO

"Em vistoria conjunta realizada em 2/07/2020 pela Santos Port Authority (SPA) e pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) na embarcação Professor W. Besnard, atracada no cais do Valongo do Porto de Santos, verificou-se situação de adernamento.

 Foi constatada a presença de grande quantidade de água na casa de máquinas, em volume ainda não estimado. Não foi possível determinar se isso decorre de penetração de água do estuário, por algum furo/fissura, de água pluvial ou ambas.

Pelo risco iminente de agravo, a situação demanda ações urgentes. No mesmo dia, a SPA autuou o Instituto do Mar (Imar), proprietário da embarcação, determinando a adoção de providências imediatas para garantia de condições seguras de flutuabilidade da embarcação, bem como inspeção e fortalecimento da amarração.

 Dois dias após, o Imar alegou não possuir recursos financeiros para adoção das providências necessárias. Diante da situação emergencial e visando salvaguardar o meio ambiente estuarino e a segurança à navegação do Porto de Santos, a SPA mobilizou seus recursos de atendimento a emergências.  

Neste sentido, estão sendo desenvolvidas ações, com o apoio do Ibama e Marinha do Brasil, para viabilizar a remoção da água contida no interior do navio, com vistas a evitar e/ou minimizar os riscos de danos ambientais imediatos. Os custos decorrentes e de outras medidas de proteção que se fizerem necessárias deverão ser ressarcidos prontamente pelo proprietário da embarcação.

A SPA envidará todos os esforços para evitar a perda deste importante patrimônio nacional que não deveria estar nas mãos de um instituto sem condições financeiras".

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.