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Resgate do rádio do Titanic revolta famílias de vítimas e arqueólogos

Jorge de Souza

20/06/2020 04h00

Em recente decisão, uma juíza americana permitiu, pela primeira vez, que a empresa dona dos direitos de resgate de objetos do Titanic remova o aparelho de rádio do lendário transatlântico. O fato acaba de desencadear uma nova e intensa polêmica.

Inconformados com a sentença de Rebecca Smith, arqueólogos, parentes das vítimas do naufrágio mais famoso da História, entidades preservacionistas e o próprio governo dos Estados Unidos se uniram contra a medida.

"Os escombros do Titanic são protegidos como bens culturais por convenções internacionais e não podem ser violados", diz o advogado Kent Porter, que defende o governo americano e é autor de um recurso que acaba de ser feito contra a decisão da juíza. "Isso só poderia ser feito com a aprovação do Secretário de Comércio dos Estados Unidos", alega.

Motivação comercial

Já os arqueólogos defendem outros pontos bem mais relevantes do que meros procedimentos jurídicos para condenar a operação de retirada do aparelho de rádio do navio, afundado na madrugada de 15 de abril de 1912 depois de colidir com um iceberg no Atlântico Norte.

"O mundo já sabe tudo o que precisa saber sobre aquele tipo de rádio, bem como o conteúdo das mensagens com os pedidos de socorro que foram enviados durante o naufrágio. Então, a única motivação para o resgate do aparelho seria o interesse comercial, para exibir o rádio como atração turística, e, mais tarde, vendê-lo para algum colecionador de raridades", diz um especialista em arqueologia submarina. "E isso pode encorajar outras pessoas a extrair ainda mais coisas do interior do Titanic".

"Violação de sepultura"

Os descendentes das vítimas do naufrágio, por sua vez, são contra a remoção do aparelho porque veem nisso a violação de algo que deve ser encarado como sagrado.

Para eles, os restos do Titanic são como um cemitério – e, portanto, não pode ser violado.

 "É preciso tratar com respeito o local onde mais de 1 500 almas descansam", diz o parente de uma das vítimas do naufrágio. "Não é certo abrir uma sepultura para remover algo de dentro dela".

A mensagem final

O que torna o rádio do Titanic tão icônico – e valioso, sob todos os aspectos – é que foi graças a ele que o mundo ficou sabendo do naufrágio do navio e as circunstâncias que o levaram para o fundo do mar, causando a morte de 1 517 pessoas.

Foi daquele aparelho que partiram os desesperados pedidos de socorro do transatlântico naquela trágica noite, cuja última mensagem foi um dramático pedido feito aos outros navios pelo operador do rádio que, agora, está no centro de intensa polêmica: "Venham rápido!".

Em seguida, a casa de máquinas do Titanic inundou, o navio ficou sem energia, o rádio emudeceu e os infelizes ocupantes do luxuoso transatlântico condenado perderam o único contato que tinham com o restante do mundo.

A última voz do Titanic

Esta é a razão da relevância daquele rádio (hoje batizado de "A última voz do Titanic") que, agora, uma empresa particular garante que irá resgatar do fundo do mar, embora até o governo dos Estados Unidos seja contra isso.

"Estamos dependendo da questão da pandemia, mas é bem provável que o resgate do rádio aconteça já no final de agosto ou início de setembro", diz Bretton Hunchak, diretor da empresa que detém os direitos sobre itens do naufrágio, mas que, até hoje, só tinha tido autorização para coletar o que estava espalhado ao redor do navio afundado – mesmo assim, mais de 5 000 objetos, que passaram a fazer parte de exposições itinerantes promovidas mundo afora.

"Vamos usar alguns buracos que já existem no casco deteriorado pelo tempo para penetrar no navio com um mini-robô equipado com ferramentas especiais. E chegar à sala de rádio, onde extrairemos o aparelho numa operação cirúrgica, sem danos às demais partes do Titanic. Já temos tudo simulado em imagens de 3D" explica o empresário, que recorreu à justiça americana alegando que o estado de deterioração do navio já estava colocando em risco o famoso aparelho.

Está desmoronando

O resgate do rádio do Titanic só se tornou tecnicamente possível depois que uma parte da estrutura do navio, que ficava imediatamente acima da sala de rádio, desabou, de maneira natural, 15 anos atrás.

Com isso, abriram-se buracos que permitiriam a entrada de um mini-submarino na sala de rádio a fim de recolher o equipamento, que, segundo Hunchak, corre sério risco de ser destruído pelo desmantelamento do próprio navio.

"Se o aparelho não for removido rapidamente, talvez não haja uma segunda chance de fazer isso, porque a sala de rádio é a que corre maior risco de desabamento", explicou o empresário ao fazer o pedido de resgate à Corte.

A juíza, então, aceitou o pedido, baseada nos argumentos de que "o rádio do Titanic possui valor histórico, científico e cultural suficiente para justificar o seu resgate", e que "leis internacionais permitem a recuperação de artefatos históricos que estejam em risco de desaparecimento".

Resgate pode afetar navio

Mas até a questão do real estado de conservação dos restos dos Titanic agora está sendo questionada.

Alguns especialistas dizem que, a despeito de estar mais de um século debaixo d´água, a deterioração do navio é mais ou menos estável, porque ele se encontra em grande profundidade, onde não há muitas alterações no ambiente marinho.

Mas alertam que a interferência humana pode acelerar barbaramente esse processo, numa referência direta aos planos da RMS Titanic Inc. de resgatar o rádio do navio.

Uma peça histórica

"O rádio do Titanic é uma peça histórica e merece ser preservada", defende-se Hunchak. "Se não fosse por ele, bem mais pessoas teriam morrido naquele naufrágio, porque nenhum navio receberia o pedido de socorro nem viria resgatar os sobreviventes. Nem mesmo a localização dos restos do Titanic seriam conhecidos até hoje, porque ninguém saberia exatamente onde ele afundou".

"Queremos resgatar o aparelho para exibi-lo às pessoas porque, do contrário, só os afortunados que podem pagar milhões para visitar os restos do navio com um submarino no fundo do mar poderão fazer isso", argumenta o empresário.

E completa: "Muitos historiadores também sempre sonharam em ver este rádio de perto".

Mas não é o que pensam as outras partes.

3 800 metros de profundidade

"Um aparelho desse tamanho não é o tipo de coisa que se possa remover de um naufrágio, a 3 800 metros de profundidade, sem causar estragos nos destroços, ainda mais um século depois", argumenta a entidade governamental americana NOAA, sigla, em inglês, do departamento de Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera, que, com base em um acordo firmado meses atrás entre Estados Unidos, Inglaterra, França e Canadá, de restringir as visitações ao naufrágio e não permitir que nenhum país o explore, é radicalmente contra qualquer interferência nos escombros do famoso navio.

"Se permitirmos isso, imagine o que pode acontecer com outros sítios arqueológicos submersos bem menos famosos que o Titanic?", questionam também os arqueólogos, que consideram os bens culturais submersos bem mais vulneráveis que os terrestres "porque, como ele não estão visíveis, podem ser saqueados sem a fiscalização das pessoas e autoridades".

"Segunda tragédia do navio"

"O resgate do rádio do Titanic pode ser a segunda tragédia do navio", dizem os arqueólogos envolvidos no caso.

"A operação de retirada do rádio do Titanic pode até ser legal, mas jamais será ética", defendem os arqueólogos.

Outra tragédia pior ainda

Embora seja o naufrágio mais famoso da História, o afundamento do Titanic não foi a pior tragédia que já aconteceu nos mares.

Das 2 223 pessoas que havia no navio, apenas 706 sobreviveram.

Mesmo assim, em número de mortes, já aconteceram desastres bem piores.

O recordista em vítimas fatais foi o afundamento do navio alemão Wilhelm Gustloff, que matou seis vezes mais que o Titanic (inacreditáveis 9 300 pessoas morreram naquele naufrágio – clique aqui para conhecer esta trágica história) ao ser torpedeado por um submarino russo, nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial.

Mas, ao contrário do Titanic, quase ninguém ficou sabendo disso.

Já o Titanic ainda dá o que falar, mesmo após 108 anos no fundo do mar.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.