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Aonde navios vão para morrer: como é o maior cemitério de barcos do mundo

Jorge de Souza

25/04/2020 04h00

Reprodução: Steve McCurry

A cada ano, cerca de 700 grandes navios, entre cargueiros, petroleiros, porta-conteinêres e até ex-luxuosos transatlânticos de passageiros, são desativados, desmanchados e transformados em sucata em todo o mundo.

No entanto, mais da metade deles acabam os seus dias num só lugar: uma pobre e lamacenta praia da Índia, chamada Alang, dona do maior desmanche naval do planeta – e que, por isso mesmo, é considerada o maior cemitério de navios do mundo.

Todos os dias, velhos navios chegam à localidade para serem desmantelados, reciclados e vendidos como ferro-velho – um serviço necessário e economicamente útil, não fosse a forma como ali isso é feito: manualmente, por milhares de trabalhadores quase escravizados, que ganham uma ninharia para desmontar navios inteiros apenas com as próprias mãos.

Foto: Divulgação NGO Shipbreaking Platform

O que os pobres trabalhadores dos estaleiros de Alang fazem beira o inacreditável.

Formigas humanas

Dependendo do tamanho do navio, o prazo para ele desaparecer por completo varia entre um mês e um ano, devorado pelas ágeis mãos dos trabalhadores de Alang, que atuam isoladamente, cada um deles pouco ou nada poderia fazer frente a hercúlea tarefa de desmontar um navio inteiro, mas, juntos, operam um autêntico fenômeno.

Eles trabalham como em um formigueiro e vão devorando o navio aos poucos, até que não sobra nada na praia.

O serviço começa com o encalhe proposital das enormes embarcações.

Imagem: Google Maps

Os estaleiros aproveitam as marés mais altas para arremessar os navios na direção da praia, até que eles encalhem no fundo raso e lamacento de Alang.

Quanto mais perto o navio ficar da praia mais fácil será o trabalho de desmanche, porque encurtará a distância que os trabalhadores terão que cumprir entre o barco e o depósito, trazendo, no braço, todas as partes desmontadas do navio.

Foto: Divulgação NGO Shipbreaking Platform

Quando a maré baixa, os navios ficam encalhados a centenas de metros dos depósitos e o caminho até eles vira um penoso lamaçal, que torna ainda mais difícil trazer suas pesadas placas de aço no braço.

Uma simples placa de aço de meia dúzia de metros quadrados pesa cerca de meia tonelada, mas, ainda assim, é carregada, nos ombros, por uma dezena de trabalhadores, chafurdando na lama, do navio até o depósito.

São como escravos. Um trabalho insano, pago com migalhas de rúpias indianas.

Foto: Divulgação NGO Shipbreaking Platform

Na média, um trabalhador de Alang recebe o equivalente a menos de R$ 15,00 por dia, para 14 horas seguidas de trabalho. Cerca de um terço deles são meninos, entre 15 e 17 anos de idade.

As frouxas leis trabalhistas nos estaleiros de Alang sempre geraram, e continuam gerando, reclamações e protestos no mundo inteiro.

"Alang é um bom exemplo do que de pior a globalização pode trazer para a humanidade", diz um defensor das questões trabalhistas do setor. "É para onde as nações desenvolvidas mandam o seu lixo, que, hipocritamente, julgam que irá ajudar os países mais pobres a se desenvolverem".

Cem vezes mais barato

Por conta da mão de obra baratíssima – e do fato de que praticamente tudo é feito, literalmente, a mão mesmo -, o desmanche de um navio em Alang chega a custar cem vezes menos do que na Europa, o que explica a quantidade de navios que para lá são enviados.

Um deles foi o lendário porta-aviões brasileiro Minas Gerais, durante décadas o maior e mais famoso navio do Brasil.

Em 2002, já fora de uso, ele foi vendido a uma empresa chinesa, que o levou para ser desmantelado em Alang, já que o custo era atraente e a experiência anterior da Marinha Brasileira em sucateamento de seus navios havia sido um tanto traumática.

Em 1951, o encouraçado brasileiro São Paulo desapareceu misteriosamente no Atlântico, quando era rebocado rumo a um desmanche, na Inglaterra. O navio jamais foi encontrado e oito pessoas desapareceram no episódio, um dos mais intrigantes da história da Marinha Brasileira (clique aqui para conhecê-lo).

Uma cidade feita de ferros velhos

 

(Crédito: Getty Images)

Tudo o que é retirado dos navios sucateados em Alang é vendido ali mesmo, o que torna as ruas uma interminável sucessão de ferros velhos, visitados por compradores do mundo inteiro.

É um negócio que fomenta muito dinheiro, mas apenas para os donos dos estaleiros – os mesmos que não costumam permitir fotografar nem filmar os trabalhadores, para que não fique documentado a forma precária como eles trabalham.

Poucos usam luvas e capacetes e quase todos vestem sandálias de borracha, em vez de botas adequadas.

Os operadores de maçaricos, instrumento básico na atividade, passam o dia desviando das faíscas que pulam das chapas de aço, sem, muitas vezes, sequer usarem óculos de proteção.

Em caso de acidente, algo tragicamente frequente em Alang, o hospital mais próximo fica a mais de 50 quilômetros de distância. E, quase sempre, não é possível socorrer o acidentado a tempo.

Foto: Divulgação NGO Shipbreaking Platform

"Da maneira como é feito em Alang, o desmanche manual de navios é uma das atividades potencialmente mais perigosas do mundo", diz um técnico da Ong NGO Shipbreaking Plataform, especializada em questões trabalhistas e ambientais nos desmanches de navios.

Mulheres garimpando na lama

O desmanche de navios em Alang começou em 1983, quando o governo indiano decidiu criar empregos para os trabalhadores pouco qualificados da região.

Mas, com a consequente exploração explícita dos trabalhadores pelos estaleiros, acabou se transformando em um problema social, que parece não ter solução.

Na praia, quando acabam os turnos dos trabalhadores, as poucas mulheres de Alang entram em ação e saem vasculhando a lama, em busca de sobras de peças e pedacinhos de aço soterrados.

Elas garimpam os entornos dos esqueletos dos navios, afundadas no lama até os joelhos, porque tudo vale centavos no mercado de sucatas da região.

Mas quase sempre acabam não levando nada para casa, porque a atividade é proibida e os guardas dos estaleiros confiscam tudo o que elas coletam.

A miséria e a exploração humana imperam em Alang.

Até o meio ambiente sofre

E não é só a questão social que incomoda.

Da forma precária e primitiva como os desmanches de navios são feitos em Alang, os impactos ambientais também preocupam.

Imagem: Youtube

Antes de serem desmanchados, os navios não são devidamente descontaminados.

O máximo de cuidado que os estaleiros tomam é mandar os trabalhadores esvaziarem os tanques de combustível, a fim de evitar explosões quando forem acionados os maçaricos.

Com isso, vazamentos de resíduos na praia são comuns e os trabalhadores ainda têm que lidar com materiais tóxicos, como o amianto, comprovadamente causador de câncer, presente nos navios mais antigos.

Mas os resignados trabalhadores braçais de Alang não reclamam.

Todos os dias, de domingo a domingo, eles precisam ganhar o bastante para ter o que comer no dia seguinte, quando um novo navio chegará à praia para ser devorado por eles, com a mais rudimentar das ferramentas: as suas próprias mãos.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.