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O curioso yacht club inglês da cidade brasileira que nem mar tem

Jorge de Souza

02/02/2020 07h00

(Crédito: Divulgação SPYC)

Como todo mundo sabe, a cidade de São Paulo não tem mar.  Mas possui um iate clube. Ou melhor, um "yacht club", porque foi criado por ingleses, mais de 100 anos atrás.

O São Paulo Yacht Club (ou "Ispíque", fonetização da sigla "SPYC", como é chamado por todos no clube) fica numa área particularmente bonita – e surpreendente – da Represa de Guarapiranga, que, por sua vez, faz o papel de "mar" (ainda que de água doce) da capital paulista – daí a ideia de haver um clube dedicado aos barcos, mesmo a dezenas de quilômetros do litoral mais próximo.

Quando o clube foi formado, em 1917, por iniciativa de um grupo de ingleses que viviam em São Paulo, a própria represa havia acabado de ser criada pela então empresa de energia de São Paulo, a Light & Power, na época dona região, que, não por acaso, também era inglesa.

Assim sendo, os conterrâneos puderam escolher o melhor ponto da represa para fincar um clube onde poderiam praticar um esporte então pouco comum no Brasil: o iatismo.

Hoje, 103 anos depois, o mais antigo e carismático clube náutico da pouco visitada represa que banha a maior metrópole do país (que, com o tempo, virou um improvável polo náutico em plena cidade de São Paulo), mantém viva a tradição do esporte, bem como alguns hábitos tipicamente ingleses.

Foto: Divulgação SPYC

Neste domingo (2), mantendo a tradição, o São Paulo Yacht Club sediou a maior e mais famosa regata do interior do estado de São Paulo, a Regata da Abertura, que marca o início oficial da temporada de vela na represa paulistana, e colocou mais de 200 barcos na água, criando um curioso espetáculo de veleiros navegando com os prédios da capital paulistana ao fundo.

Foto: Divulgação SPYC

"Quem não costuma frequentar a represa, ou seja, a esmagadora maioria dos paulistanos, já que muito jamais a visitaram, custa a acreditar que seja possível velejar na cidade de São Paulo. E é isso que a nossa regata também ajuda a mostrar", conta um dos sócios do clube, que não é inglês só no nome.

Dentro da agradável sede do São Paulo Yacht Club, num grande gramado às margens da represa, há até um legítimo pub inglês, decorado com troféus que também fazem parte da tradição do clube.

São as "taças", bem mais que simples troféus, que registram, com plaquinhas, os vencedores das principais regatas promovidas pelo clube (o único a ter o seu próprio campeonato de vela na represa), algumas desde a década de 1930.

Os vencedores vão mudando a cada ano, mas as taças não podem deixar o clube. "São o nosso tesouro", brinca o atual Comodoro do São Paulo Yacht Club, Michael Downey.

No pub do clube costumam acontecer animadas happy hours, regadas, como manda tradição inglesa, com muito gin-tônica – mas a cerveja eles garantem que não é quente.

Nos banheiros, plaquinhas (bilíngues, como tudo no clube, onde o idioma inglês é ainda tão comum quanto o português) indicam "ladies" ("senhoras") e "gentlemen" ("cavalheiros"),

E no salão principal (que tem até lareira), grandes placas de madeira escritas a mão listam os vencedores das principais "taças" do clube, como uma permanente homenagem ao que mantém a tradição do iatismo no clube.

O São Paulo Yacht Club é um clube movido a vela até na atmosfera. Tanto que, até hoje, não aceita sócios que tenham jet skis. "Eles fazem muito barulho", explica o vice-comodoro Mark Stevens.

No passado, as premiações das regatas aconteciam durante legítimos chás da tarde, na sede do clube.

Hoje, foram substituídas por divertidas confraternizações entre os velejadores, como a que acontecerá no final da tarde desde domingo, depois que mais de 200 barcos com suas velas coloridas desfilarem nas águas da Represa Guarapiranga e provarem, mais uma vez, que – sim! – é possível navegar na capital paulista.

Que, como se sabe, nunca teve mar.

 

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.