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Sem passageiros: o quase secreto voo inaugural do Brasil para as Malvinas

Jorge de Souza

25/11/2019 13h24

Na manhã da última quarta (20), decolou, do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, o primeiro voo regular entre o Brasil e as Ilhas Falkland – aqui muito mais conhecidas como Ilhas Malvinas, aquelas da guerra entre Argentina e Inglaterra, 37 anos atrás, e que convém não confundir com as paradisíacas Ilhas Maldivas.

Mas poucos ficaram sabendo da novidade, que, a partir de agora, se repetirá uma vez por semana, em voos da Latam, ligando a maior metrópole do país àquele desconhecido (não fosse pela guerra) arquipélago, a cerca de 500 quilômetros da costa argentina, onde não vivem mais de 3 200 pessoas – sua rua, provavelmente, tem bem mais moradores.

Um voo direto de São Paulo para as Falkland/Malvinas – quem diria que isso pudesse existir?

Sem dizer para onde ia

Na Argentina, onde o improvável voo fez uma escala ainda mais esquisita, na cidade de Córdoba (uma vez por mês, o avião parará lá, tanto na ida quanto na volta), o fato foi tratado de maneira ainda mais sigilosa.

Ali, o exótico voo ganhou contorno de quase segredo de Estado – nenhum passageiro embarcou e o avião sequer parou no portão de embarque, ficando estacionado num canto ermo do aeroporto, como se fosse possível tentar esconder um gigantesco Boeing 767, um dos maiores aviões da frota da Latam, com capacidade para 221 passageiros.

Mas, por que isso, se era o voo inaugural de uma nova linha aérea, algo sempre comemorado com muita festa?

Uma questão delicada

O motivo estava no delicado destino do avião, sobretudo para a Argentina, que por conta das Ilhas Malvinas foi à guerra contra a Inglaterra, em 1982, numa das mais desastradas campanhas bélicas da História.

Para o governo argentino, que jamais reconheceu a soberania inglesa nas ilhas que eles sempre alegaram pertencer ao território argentino, o ideal seria que ninguém ficasse sabendo do tal voo, embora ele tenha sido fruto de um acordo entre a própria Argentina e a Inglaterra, a fim de criar uma segunda opção de acesso às ilhas, até então servidas apenas por um avião, também semanal, que parte do Chile.

A Latam brasileira entrou na licitação feita pelo governo inglês meses atrás e ganhou o direito de explorar a linha.

Atendendo a um pedido feito pelo governo da Argentina ao Itamaraty, também não saiu alardeando a nova rota aos quatro ventos, nem no Brasil, cujo governo, discretamente, sempre apoiou o direito de soberania argentino sobre as "Malvinas" – a começar por chamar as ilhas com este nome, em vez da denominação oficial "Falkland".

Com isso, a Latam fez um dos voos inaugurais mais discretos que se tem notícia.

Nem mesmo todos os funcionários da empresa no aeroporto de São Paulo, no dia do primeiro voo, sabiam da sua existência.

– Qual o seu destino? – quis saber o encarregado de organizar a fila no primeiro check-in da nova rota.

– Mount Pleasant – respondi, seguindo o estranho nome que aparecia no painel do aeroporto (como uma saída diplomática, o destino do voo foi identificado com o nome do aeroporto e não do lugar, como se, em vez de Porto Alegre, aparecesse "Salgado Filho").

Mas, ao perceber que o funcionário da Latam continuava sem saber que voo era aquele, emendei com um "Ilhas Falkland".

Não adiantou.

– E onde fica isso?

– Perto da Argentina – respondi

– Ah…, Ilhas Malvinas!

Se eu fosse inglês, teria ficado tão irritado com aquele deslize quanto ficam os brasileiros quando ouvem, de um estrangeiro, a pergunta se a capital do Brasil é Buenos Aires?

Saia justa a bordo

A discrição total continuou mesmo dentro do avião.

O comandante limitou-se a fazer um curtíssimo comentário sobre a nova rota, sem, no entanto, mencionar para onde ela iria. Em seguida, decolou, na base do "não conta pra ninguém, mas este avião está indo para as Malvinas…"

Foi, no entanto, uma atitude prudente, já que o avião estava repleto de argentinos, que seguiam para a escala em Córdoba, no primeiro trecho da viagem.

Lá, todos os passageiros argentinos desembarcaram e só ficaram no avião alguns jornalistas e a comitiva de quase 30 pessoas do governo das Falkland, que veio a São Paulo apenas para participar do voo inaugural da nova rota, um velho desejo dos moradores da ilha.

Na escala em solo argentino, embarcaram apenas quatro pessoas, todos jornalistas e quase que escondidos – suas malas foram levadas até o avião pelos próprios funcionários da Latam, já que a ordem era não recorrer aos empregados do aeroporto, que poderiam protestar caso soubessem para onde ele aquele avião estava indo. Foi uma saia justa danada.

Havia até o receio de que o novo voo pudesse desencadear uma crise política entre Brasil e Argentina, já que, durante a guerra, o governo brasileiro endossou a soberania argentina (tanto que, até hoje, sempre chamou as ilhas de "Malvinas"), mas sem chegar ao ponto de ajudar o país vizinho. Na ocasião, o Brasil ficou meio em cima do muro, pisando em ovos, como, agora, ficou, também, a Latam.

A tripulação brasileira só respirou aliviada quando o avião decolou, de maneira tão discreta quanto quando chegou. E mais vazio que estômago de faquir, no trecho entre a Argentina e as ilhas.

Um grande avião vazio

Mas, por que um avião tão grande para um destino tão improvável quanto, por exemplo, Anta Gorda, no Rio Grande do Sul – que, por sinal, tem duas vezes mais habitantes que as Falkland?

A resposta estava na real razão daquele estranho voo, que, de agora em diante, ligará, em voo direto, a maior metrópole da América do Sul a uma ilha que quase ninguém já ouviu falar – pelo menos com o nome "Falkland": o transporte de suprimentos para a própria ilha.

É o transporte de carga, e não propriamente de pessoas, o principal objetivo da mais nova rota aérea brasileira, embora o governo das Falkland também buscasse criar uma alternativa mais fácil de ligação com a Inglaterra, através do aeroporto de São Paulo, para facilitar a vida dos ilhéus – e, também (por que, não?), sonhar com o aumento de turistas na ilha.

Daí a necessidade de um avião tão grande.

A esperança dos ingleses é que o novo voo aumente a oferta de produtos na ilha e ajude a baratear o custo de, por exemplo, frutas e verduras, num lugar onde uma única banana (e não a dúzia!) custa o equivalente a R$ 3,00, e um quilo de tomate pode bater fácil na casa dos R$ 50,00.

Chegada histórica na ilha

Criar um segundo voo para as ilhas (desde 1999, existe outro, via Chile) a partir da capital argentina, Buenos Aires, sempre esteve fora de cogitação – seria humilhante demais para os argentinos. São Paulo, então, foi a melhor opção.

O novo voo é parcialmente subsidiado pelo governo inglês, embora os detalhes não sejam divulgados. Mas, segundo os ingleses, de agora em diante, existirá para sempre.

"Quando criamos o primeiro voo para as Falkland, todo mundo também disse que não daria certo, mas ele hoje vive lotado", explicou, animado, o chefe da comitiva inglesa que veio a São Paulo, para o voo inaugural.

Se, tanto no Brasil quanto na Argentina, o novo voo passou despercebido (não aconteceram manifestações nas ruas de Buenos Aires nem panelaços diante da Casa Rosada, embora o mal-estar estivesse, literalmente, no ar), na ilha, a chegada do avião procedente de São Paulo virou o acontecimento do ano, com direito a duas recepções oficiais, com a presença do governador, que ali representa a própria Rainha Elizabeth.

Ocupou, também, toda a primeira página do único jornal local, o folclórico Penguim News, que também mandou um enviado especial a São Paulo, para acompanhar o voo inaugural, que marcou "um dia histórico para a nossa ilha", como resumiu o longo editorial.

Na chegada, ao pousar na base aérea inglesa que serve de aeroporto na ilha, houve alguns aplausos da comitiva, dentro do avião. E só não teve banda de música na pista, porque um vendaval de erguer vacas no ar (como é comum por lá) impediu qualquer tentativa nesse sentido.

A rigor, o único temor dos políticos locais é que o futuro novo presidente da Argentina, Alberto Fernández, eleito semanas atrás (e que logo no primeiro discurso voltou a tocar na questão das Malvinas, ao afirmar que "não renunciaria ao desejo de governar também as ilhas"), volte a praticar a mesma política de explícita má vontade nas relações nunca fáceis entre Argentina e Inglaterra, como, no passado, fez a ex-presidente Cristina Kirchner, agora sua vice na chapa vencedora das últimas eleições argentinas.

Uma ilha com dois nomes

As Falkland/Malvinas são as mesmas ilhas, mas com dois nomes "oficiais" – dependendo apenas de quem os diz.

Para os ingleses, que estão ali desde o século 18, elas chamam-se Falkland e foram reconquistadas após a "invasão" argentina de 1982 – eles preferem usar a palavra "invasão" do que "guerra", pois consideram que foi isso que os argentinos fizeram.

Já, para os argentinos, as ilhas são – e sempre serão – as "Malvinas", como é ensinado até hoje nas escolas.

Trata-se de uma questão delicada e um tema muito sensível aos argentinos. E que o novo voo brasileiro trouxe de volta à tona.

Por que ir para lá?

Embora sejam ilhas esparsamente habitadas e praticamente na porta de entrada da Antártica – portanto, geladas e sempre sob fortes ventanias -, as Falkland/Malvinas possuem alguns atrativos turísticos.

Um dos atrativos da ilha é a fauna, para nós exótica, com milhares de pinguins e outros seres marinhos, em bonitas e surpreendentes praias de areia bem branca.

Outra é o mar com cor de Caribe, embora impraticável para banhos, por conta da temperatura de gelo derretido.

Há, também, o atrativo histórico da guerra, ainda fresca na memória de qualquer pessoa com mais de 50 anos de idade e com vestígios dela por todos as partes nas ilhas.

Sem falar na atmosfera cem por cento britânica que impera nas Falkland.

A única cidade, Stanley, onde pousa o novo voo brasileiro (por enquanto, ainda vendido a preços salgados, que beiram os R$ 5 000,00 o bilhete de ida e volta, embora em voos diretos de pouco mais de cinco horas de duração), lembra uma pequena comunidade do interior da Inglaterra em pleno Hemisfério Sul, com típicas cabines vermelhas de telefones públicos nas ruas, carros com volante do lado direito e o inglês carregado de sotaque como único idioma.

É, também, um dos lugares mais seguros do mundo (ninguém tranca as portas das casas, por exemplo) e com uma das maiores rendas per capita do planeta, por conta do baixíssimo número de moradores.

A brasileira que vive na ilha

Um dos habitantes das Falkland é a brasileira Flavia Souza, de 28 anos, que vive há quatro em Stanley, onde, daqui a alguns meses, nascerá seu primeiro filho. "É muito bom viver na ilha", diz a brasileira, que se casou com um ilhéu. "Aqui há uma segurança e uma tranquilidade de vida que eu jamais teria no Brasil", garante.

Para os demais brasileiros, as Falkland/Malvinas são, também, uma experiência diferente – um destino que poucos já visitaram e, que, agora, apesar de praticamente desconhecido, já tem até voo direto a partir de São Paulo.

Nesta próxima quarta-feira, o segundo voo partirá para lá, dando sequência ao tenso voo inaugural.

Mas, de novo, sem muito alarde.

Fotos: Jorge de Souza e Divulgação

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

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Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.