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Galinha que deu a volta ao mundo navegando terá nova aventura em breve

Jorge de Souza

06/11/2019 10h21

Segundo pesquisadores, mais da metade da população mundial possui algum animal de estimação. O francês Guirec Soudée, de 25 anos, é um deles. Só que, ao contrário da esmagadora maioria dos habitantes do planeta, o bichinho não é um gato, nem um cachorro: é uma galinha – que Guirec batizou de Monique.

Não seria nada excepcional, não fosse o local onde Guirec (sempre com Monique ao seu lado) passa a maior parte do tempo: dentro de um barco, navegando mundo afora. Só ele e a galinha.

"Conheci Monique quando fiz uma escala com meu barco nas Ilhas Canárias, a caminho do Caribe, cinco anos atrás. Ela era jovem, saudável, bonita e conclui que seria ótima companhia na viagem, porque galinhas não enjoam, não reclamam e ainda põem ovos, para ajudar no almoço", diz Guirec, que jura que jamais pensou em transformar a própria companheira de viagem em item do cardápio.

"Todo mundo me falou que não ia dar certo, que ela ia ficar estressada com o balanço do veleiro e pararia de pôr ovos. Mas, logo na primeira noite da viagem, ela botou um ovo e, depois, não parou mais. Foram 25 ovos em 28 dias de travessia do Atlântico", recorda o francês. Neste momento, após cinco anos seguidos no mar, está preparando sua próxima viagem – segundo ele, ainda mais longa e dura que a primeira.

"Quero voltar para as regiões polares, mas ainda estou planejando o roteiro, que só deve começar no final do ano que vem. Mas uma coisa é certa: seja para onde for, Monique vai junto", garante Guirec, que pretende colocar sua galinha, novamente, numa fria. Literalmente.

Na primeira viagem, Guirec e Monique deram simplesmente a volta ao mundo, no sentido Norte/Sul, e visitaram os dois pontos mais gelados do planeta: os polos Sul e Norte. Ou seja, o Ártico e a Antártica.

Eles partiram do Caribe, subiram até o Ártico (onde, entre outras façanhas, passaram quatro meses trancados no mar congelado da Groenlândia, vivendo basicamente só de arroz e milho), atravessaram para o outro lado do continente americano e desceram até a Antártica, onde passaram uma nova temporada de meses seguidos no gelo, antes de retornarem à Europa. O que só aconteceu cinco anos depois do primeiro encontro entre o velejador francês e aquela galinha sortuda – possivelmente, a ave mais viajada do mundo.

No momento, os dois estão na casa de Guirec, numa pequena ilha na Bretanha, ele finalizando um documentário sobre a longa viagem que fizeram, ela cacarejando no jardim e catando minhocas, enquanto aguarda a hora de embarcar de novo.

"A Monique é muito aventureira", garante o francês. "Já andou de trenó na neve, navegou em prancha de stand-up e foi a primeira galinha que se tem notícia a atravessar a Passagem Noroeste, que une o Atlântico ao Pacífico pelo Ártico, e chegar viva do outro lado, escapando das panelas", brinca o francês.

"É, também, a única galinha do mundo que sabe velejar, ou, pelo menos, que não sai cacarejando histericamente quando o barco inclina. E adora sentir o vento balançando suas penas, além de gostar tanto de peixe quanto de milho", diz o curioso velejador.

O barco/casa de Guirec e Monique é um veleiro de 9,5 metros de comprimento, que ele comprou quando tinha apenas 20 anos de idade, mas planos já maduros de sair navegando pelo mundo – a princípio, sozinho. A galinha mudou isso. "A gente se dá muito bem e ela não reclama de nada. Nem da falta de poleiros no barco", explica.

Segundo Guirec, Monique tem cerca de sete anos de idade e, como toda galinha, pode viver até os 15, "se ninguém devorá-la antes disso, claro". Mas não será ele que irá fazer isso. "Ainda temos muito o que explorar juntos. Adoro aventuras e ela, também", diz.

Juntos, Guirec e sua galinha já lançaram três livros sobre as travessias marítimas da improvável dupla ("O mundo segundo Monique", "A fabulosa história de Guirec e Monique", e o infantil "A galinha que deu a volta ao mundo"), e alimentam, diariamente, uma legião de fãs nas redes sociais.

Os dois têm mais de 130 mil seguidores no Facebook, outra metade disso no Instagram, vídeos que, vira e mexe, viralizam no Youtube, e tornaram-se famosos no mundo inteiro, o que levou o francês a vislumbrar um meio de ganhar dinheiro com palestras – nas quais, obviamente, a galinha vai junto. "Quem me conhece, sabe que eu nunca fui totalmente normal", diz.

Dividindo tudo com um gato

Desde os tempos dos papagaios de piratas, ter animais a bordo de barcos é algo tão comum quanto a própria navegação. Mas, galinhas, não!

Muito menos como animal de estimação, como Guirec transformou a galinha Monique.

Mas não há como negar que a estreita convivência (estreita mesmo, porque o espaço num veleiro é sempre mínimo) aproxima ainda mais humanos e animais, quando ambos estão a bordo de um barco.

Um caso emblemático disso aconteceu dois anos atrás, quando um navegador polonês passou sete meses perdido no mar na companhia apenas de um gato, sem praticamente comida alguma a bordo. Apesar da fome constante e insuportável, o pouco que ele tinha para comer (meio pacote macarrão instantâneo por dia) foi dividido em partes iguais, com o animal durante todo o tempo.

É o mesmo amor que, hoje, Guirec nutre por Monique.

"Ela foi a escolha perfeita", diz o francês. "A galinha é um animal fácil de cuidar e eu ainda consigo ter ovos sempre frescos no meio do mar. É ou não é a companhia ideal?", brinca.

Fotos: Guirec Soudée/Divulgação

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.