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Do Brasil para o Taiti de barco: como um casal chegou lá com pouco dinheiro

Jorge de Souza

19/08/2019 11h31

Quatro anos depois de jogar tudo para o alto, largar os empregos, vender o carro, devolver o apartamento alugado, se desfazer de praticamente tudo e, com o dinheiro arrecadado, comprar um veleiro para sair viajando pelo mundo, o jovem casal gaúcho Diego Maio e Georgia Spiandorello – ele com 35 anos de idade, ela com 34 – acabam de realizar o primeiro sonho da jornada: chegar ao Taiti com o próprio barco – que também virou a casa onde eles moram.

"Sempre tivemos o sonho de conhecer a Polinésia e chegar aqui pelos nossos próprios meios, e sem gastar muito dinheiro, foi maravilhoso", diz Diego, um oceanógrafo ex-funcionário de uma empresa de pesquisas que levava uma típica vida assalariada de classe média em Florianópolis, até que decidiu mudar de vida e, junto com a namorada, foi viver no mar.

"A vida não era ruim, mas não era aquilo que a gente queria para o resto das nossas vidas. Tinha a rotina chata do dia-a-dia, as contas para pagar, os engarrafamentos no trânsito e a má qualidade de vida", explica Diego, que sempre nutriu o sonho de, um dia, morar num barco e usar o mar para viajar.

Já Georgia era o oposto disso. Nascera na Serra Gaúcha, nada sabia sobre barcos, jamais havia navegado, tinha um emprego burocrático numa empresa de importações e gostava do mar apenas quando ia à praia.

"Até conhecer o Diego, eu jamais havia pensado em viver num barco, embora adorasse viajar. Mas resolvi arriscar. E hoje não consigo me imaginar vivendo mais feliz de outra forma", diz Georgia, eufórica por estar no Taiti, onde nunca imaginou que pudesse ir.

"Vamos ficar no Taiti até, mais ou menos, abril do ano que vem. Depois, acho que vamos para as Ilhas Fiji, Nova Zelândia e Austrália. Não temos um roteiro, nem um objetivo a ser alcançado. Nosso barco é a nossa casa e a única diferença para uma casa de verdade é que podemos mudá-la de lugar sempre quer der vontade. Não é mais uma viagem. É a nossa nova vida", explica Georgia.

De onde vem o dinheiro?

Para se manter financeiramente, o casal, que nada tem milionário (muito pelo contrário) aderiu a um site de financiamento coletivo, também chamado de crowdfounding, no qual as pessoas que simpatizam com a proposta de vida deles contribuem voluntariamente com qualquer dinheiro para a produção de vídeos que eles colocam semanalmente num canal que criaram no YouTube.

Nele, o casal conta como é viver num barco, mostra os lugares por onde já passaram, dá dicas realmente práticas para quem quiser fazer o mesmo e inspiram outras pessoas a trocarem a casa por um barco, e curtir a vida todos os dias.

"Começamos fazendo vídeos para a família e para os amigos, mas logo descobrimos que havia mais gente querendo assisti-los. Daí veio a ideia de transformar isso num pequeno negócio e assim financiar a nossa viagem, que virou a nossa própria vida", explica Diego.

Hoje, eles têm perto de 150 apoiadores, que contribuem como podem, e vivem apenas com os cerca de R$ 3 mil que arrecadam por mês com os vídeos que publicam na internet. "Não dá pra gastar um centavo com restaurantes, ainda mais aqui no Taiti, onde é tudo muito caro. Mas, em compensação, aproveitamos, de graça, a maravilhosa paisagem da Polinésia", vibra Georgia.

Quem ajuda, também navega

Em troca das colaborações em dinheiro, os apoiadores do projeto, de tempos em tempos, são convidados a fazer um trecho da viagem com o casal, pagando apenas as próprias despesas. "Além de tudo, estamos aumentando barbaramente o nosso círculo de amizades", diz Georgia, que garante só sentir falta dos amigos e familiares que ficaram no Brasil.

Eles partiram do Brasil com o barco em novembro de 2015, ainda como namorados, e foram subindo lentamente a costa brasileira, enquanto ganharam experiência e segurança para ir mais longe.

Tempos depois, chegaram ao Caribe, onde se casaram numa cerimônia bem simples numa praia de Punta Cana, na República Dominicana, na companhia apenas dos novos amigos que fizeram no mar.

"Não temos família rica, nenhuma renda fixa, nem dinheiro aplicado", diz Diego. O que ganhamos com os vídeos gastamos com comida e manutenção do barco. É uma vida muito simples, mas deliciosa. Poder mover a nossa casinha de um lugar para o outro e ficar lá o tempo que quiser é sensacional. Temos vivido a vida que sempre quisermos ter. E com pouquíssimo dinheiro".

O barco-casa do casal é um veleiro de apenas pouco mais de 13 metros de comprimento, batizado de Unforgettable ("Inesquecível", em português), com três pequenos quartos, sala, cozinha e banheiro, "mas com uma piscina gigantesca", como costuma brincar o casal, que não tem planos de voltar a viver em terra-firme.

"Talvez, um dia, se a vida tomar outro rumo", diz Georgia. "Mas estamos conhecendo tanta gente que passa a vida morando em barcos, que, talvez, façamos o mesmo.

Morar num barco? Por que não?

No mundo náutico, sobretudo na Europa, pessoas que trocam a casa por um barco são bem mais comuns do que parece.

Um dos casos mais curiosos de total adaptação a este novo estilo de vida foi dos ingleses Jane e Clive Green, que, um dia, em 1998, partiram para uma curta viagem de férias até a Espanha com seu pequeno veleiro e só voltaram 16 anos depois, após dar a volta completa pelo mundo – uma interessante história que pode ser conferida clicando aqui.

Fotos: Arquivo Pessoal

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.