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Último desejo: mulher que levou 25 anos fazendo um barco terá cinzas no mar

Jorge de Souza

31/07/2019 16h59

A paulista Elfriede Galera, de 64 anos, que passou um quarto de século construindo um pequeno barco no quintal de sua casa, sem dinheiro nem recursos e com a ajuda apenas do marido, morreu nesta terça (30), vítima de câncer generalizado, depois de passar os últimos dez anos enfrentando bravamente a doença.

Esta batalha, no entanto, jamais a fez perder o otimismo pela vida e o prazer de usar o barquinho que ela construiu, ao longo de incansáveis 25 anos.

Agora, seu último desejo será atendido pela família: suas cinzas serão lançadas ao mar, mas de uma maneira muito especial: a partir do mesmo barco que ela construiu com as próprias mãos, durante duas décadas e meia.

Assim que as cinzas forem entregues à família, o viúvo, Jadyr Galera, e os dois filhos do casal, Nicole e Patrick, partirão de Ilhabela, onde o veleirinho de menos de nove metros de comprimento se encontra desde que ficou pronto, para o derradeiro passeio de Elfriede, a "Frida", como gostava de ser chamada, no barco que tanto ela amava e que considerava "seu filho mais velho".

O destino será um ponto específico no mar, que ela escolheu, meses atrás.

"Não quero choro nem tristeza. Enquanto o meu barquinho existir, eu, de certa forma, também estarei viva", disse Elfriede meses atrás, ao escolher como gostaria de se despedir da vida.

Elfriede era dona de uma alegria contagiante e de uma maneira extremamente positiva de encarar a vida. E isso mesmo nos piores momentos, como foram os últimos dez anos de intensas, seguidas e sofridas sessões de quimioterapia.

Por conta desse jeito de encarar a vida ela concedeu várias entrevistas, a última delas para a capa da revista Saúde deste mês, onde estampou, com um largo sorriso, a alegria de estar viva até aquele dia.

A edição de julho da Revista Saúde, com Elfriede na capa (foto: Reprodução)

Ultimamente, Elfriede vinha se dedicando a uma tarefa igualmente nobre: levar outras mulheres também pacientes terminais de câncer para passear no seu pequeno barco ou em outros, cedidos pelo Clube de Vela Flash, na Represa de Guarapiranga, em São Paulo.

"Quero que elas sintam o mesmo prazer que eu sinto todas as vezes que saio com o barco e sinto o vento bater no meu rosto, me fazendo esquecer totalmente a doença", explicava Elfriede.

Para isso, ela criou, junto com o marido, o Projeto Velejando Contra o Câncer de Mama, que levava mulheres doentes e financeiramente carentes para velejar – não raro pela primeira vez na vida.

Agora, o viúvo Jadyr Galera pretende dar sequência ao projeto, através do Instituto que ele criou, meses atrás, com o nome da ex-esposa.

"Quando ela pisava no barco, ela se transformava, esquecia a doença e sorria ainda mais", recorda Jadyr.

"Tenho certeza que, esteja onde ela estiver, ela vai gostar de passear, pela última vez, no barco ao qual dedicou quase metade da vida".

Após passar 25 anos construindo um barco, Elfriede Galera, protagonista de uma admirável história, irá, agora, se despedir da vida dentro dele.

Muito provavelmente, feliz da vida.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.