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O advogado paulista que ganhou um navio e um problema maior ainda

Jorge de Souza

17/07/2019 14h07

Pouco mais de um mês atrás, o advogado paulista Fernando Liberalli, criador da ONG Instituto do Mar, teve uma grande alegria: após anos de disputa, recebeu, como doação, o que tanto queria: o histórico navio Professor W. Besnard.

A embarcação é considerada uma espécie de símbolo da presença brasileira na Antártica, para onde viajou algumas vezes, levando e trazendo pesquisadores da Universidade de São Paulo.

Só que junto com o velho navio, construído em 1969 e desativado em 2016 — quando foi esquecido num canto do porto de Santos, vieram também os problemas.

Muitos problemas. E quase tão grandes quanto o próprio navio, que tem 55 metros de comprimento e algumas centenas de toneladas de peso.

Um deles é a obrigação imediata de tirar o navio do porto onde ele se encontra há três anos, sem que, até agora, Liberalli tenha para onde levá-lo. Outro é recuperar o velho navio, que, desde que foi aposentado, só faz apodrecer a céu aberto.

Mas os problemas do advogado não param por aí.

No início de julho ele recebeu um comunicado da Capitania dos Portos de Santos informando que precisa apresentar laudos técnicos que comprovem a estanqueidade do casco (ou seja, a capacidade do navio de continuar flutuando quando for retirado do porto). Ele tem apenas dois meses para fazer isso.

"Até o capitão dos portos me chamou para conversar, porque queria ter certeza de que eu não era um desequilibrado ao aceitar receber o Professor W. Besnard", diz o advogado.

No entanto, ele não se arrepende nem um pouco de ter aceito a doação de um navio já sem condições de navegar e com custos astronômicos para ser reformado.

"O Professor W. Besnard não é um simples navio", explica Liberalli. "É um monumento histórico, tanto que está sendo tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo). E é isso que estou tentando preservar, mesmo ao preço de assumir despesas altíssimas, que, a princípio, ninguém teria como pagar", diz o advogado, cuja ONG que preside não tem fins lucrativos.

Só para retirá-lo da água a fim de poder ser reformado custará cerca de R$ 3 milhões", revela.

O objetivo de Liberalli é transformar o navio — que navegou durante 23 anos fazendo pesquisas marinhas e foi o pioneiro das incursões brasileiras na Antártica, para onde foi seis vezes — em um museu flutuante, permanentemente atracado no próprio porto de Santos.

Mas para isso é preciso primeiro recuperá-lo, já que o navio está em estado para lá de precário — seu casco está coberto de ferrugem e limo e muitos dos seus equipamentos foram retirados pelo próprio Instituto Oceanográfico, da Universidade de São Paulo, para decorar a entrada da entidade.

Além disso, nos últimos tempos, abandonado no porto de Santos, o navio virou abrigo de mendigos e desocupados, que, inclusive, saquearam seu interior, para roubar fios e outros acessórios.

"Há muito trabalho a ser feito e isso exige uma grande quantidade de dinheiro, que não temos", diz o responsável pela ONG que herdou o navio.

"Mas tenho certeza que vamos conseguir sensibilizar empresas patrocinadoras a nos ajudar a transformar o Professor W. Besnard num museu vivo sobre a relevância das pesquisas marinhas e das expedições brasileiras à Antártica", diz o advogado, talvez ainda sem imaginar tudo o que lhe espera pela frente, até que possa ver o seu sonho se tornar realidade – se é que isso um dia irá acontecer.

"Não sou pesquisador da Universidade de São Paulo, nem nunca naveguei no Professor W. Besnard, mas tenho a maior admiração por este navio, que é lendário entre os cientistas brasileiros e histórico sob todos os aspectos", diz Liberalli. Ele garante já ter muitos voluntários para ajudar nos trabalhos de restauração do navio.

"Vou recorrer até ao governo da Noruega, onde o Professor W. Besnard foi construído, para ver se eles ajudam na reforma, mas faço questão de que o Ministério Público brasileiro acompanhe o processo, porque não quero nenhuma insinuação de que eu esteja tirando proveito pessoal disso. Eu apenas amo esse navio", conta Liberalli, que diz contar com o apoio integral do próprio Instituto Oceanográfico, a quem o navio sempre pertenceu.

"Eles devolverão tudo o que foi retirado do navio, assim que ele for restaurado", garante.

Por que ele está fazendo tudo isso?

"Já tenho 63 anos e, em vez de me aposentar, quero deixar algo relevante para o futuro", explica. "Pode parecer atrevimento, mas acredito de fato que conseguirei transformar o Professor W. Besnard num museu, em vez de ver este carismático navio acabar como sucata ou afundado pelo descaso", completa.

"O Brasil é um país sem memória, que não faz nenhuma questão de preservar o seu passado. Não quero que isso aconteça também com o Professor W. Besnard, que ainda pode ser salvo", acrescenta.

Sob este ponto de vista, a doação do navio à ONG presidida pelo advogado Liberalli foi uma vitória.

Até então, o destino do navio pioneiro nas pesquisas marinhas brasileiras era duplamente sombrio: ou viraria sucata e seria desmontado e vendido a um ferro-velho, ou seria propositalmente afundado em Ilhabela, no litoral de São Paulo, para servir de atração submarina para mergulhadores. Essa última ação inclusive já estava acertada com a prefeitura daquela ilha, que recebera o navio em doação do Instituto Oceanográfico — que não queria assumir os R$ 300 mil que custaria para desmontá-lo.

"Quando eu soube que o navio seria afundado, fiquei indignado", recorda Liberalli. "Então, fui ao Condephaat e consegui que fosse iniciado um processo de tombamento histórico, o que inviabilizou o naufrágio e forçou a Prefeitura de Ilhabela a desistir de afundá-lo. Daí, no final de maio, a atual prefeita substituta da ilha repassou a doação do Professor W. Besnard para o instituto que eu presido, e só assim eu consegui salvar o navio".

Com isso ele herdou, também, uma grande encrenca: o que fazer com o velho navio, se não há dinheiro para recuperá-lo?

"No começo dessa história, eu até tinha empresas interessadas em patrocinar a reforma do navio. Agora, vou ter que começar tudo de novo, mas tenho certeza que consigo".

O projeto inicial do advogado era transformar o navio em um museu itinerante, que ficaria visitando diferentes portos da costa brasileira.

Mas, ao ser informado sobre os custos que isso implicaria, porque exigiria recuperação também do motor do navio e necessidade de uma tripulação fixa e permanente, Liberalli mudou de ideia e passou a sonhar apenas com um museu fixo flutuante. No entanto, nem ele sabe onde poderá ficar ancorado.

"Isso veremos depois que o navio estiver recuperado, o que, agora, é a nossa prioridade. Um navio com tamanha história não pode acabar desse jeito".

No passado, quase 30 anos atrás, o Professor W. Besnard quase naufragou de verdade na volta de uma de suas expedições à Antártica, após perder o motor e ficar à deriva, com 37 pessoas a bordo, num tenso episódio que virou notícia em todo o País. E, recentemente, graças a ação de Liberalli, escapou, de novo, de ir para o fundo do mar.

Agora, torce-se para que o advogado consiga levar adiante o projeto de transformar um navio já condenado em um museu sobre as águas, ainda que ao preço de problemas ainda maiores que o bem que ele herdou.

"Todo mundo diz que sou louco, que ganhei um presente de grego, mas não vou desistir", avisa o determinado advogado. "O Professor W. Besnard ainda vai voltar a brilhar".

 

Fotos: Arquivo Pessoal Fernando Liberalli

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.