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Navegar no Tietê: programa de férias da família que ama o rio mais poluído

Jorge de Souza

01/07/2019 10h35

No último sábado (29), três pequenos barcos levando uma família (pai, mãe e filho pequeno) e dois amigos partiram da cidade de Barra Bonita, no interior de São Paulo, para uma viagem, no mínimo, curiosa: navegar, durante uma semana, no rio que é nacionalmente conhecido como o mais poluído do Brasil, o Tietê.

No trecho que atravessa a cidade de São Paulo, o Tietê é sinônimo de pura nojeira. Só que no trecho que eles escolheram para navegar, de Barra Bonita (a cerca de 270km da capital paulista) em diante, o Tietê nada tem de sujo.

Pelo contrário, ainda é lindo e limpo – para surpresa geral dos moradores da capital paulista, onde o rio que cruza quase todo o estado de São Paulo é um esgoto a céu aberto.

"Quando eu disse para os amigos paulistanos que ia passar férias navegando no Rio Tietê todos me chamaram de maluco", conta, rindo, Fabio Ribeiro, um dos participantes do grupo.

"Não se pode generalizar", diz Fabio. "O Tietê é um rio enorme e só é imundo na parte que atravessa a cidade de São Paulo. Depois, ele vai mudando e, quando chega na metade do seu curso, já é outro rio, com muitos peixes e água limpa. Eu também não imaginava que fosse assim".

A ideia dos amigos de navegar no rio que, para o restante do país, é um símbolo de poluição, veio de uma quase tradição.

Há mais de uma década que uma entidade, a Associação Brasileira de Velejadores de Cruzeiro, promove um passeio anual coletivo de barcos no famoso rio paulista, com uma semana de duração.

Este ano, no entanto, o cruzeiro não aconteceu. Mas um dos participantes mais assíduos, o industriário Edson Matei, que sempre navega com a mulher e o filho num pequeno veleiro, resolveu fazer o passeio do mesmo jeito.

Ele, então, chamou Fábio e outro amigo, e montou uma flotilha de três barquinhos para descer o rio até a represa de Promissão, 200 quilômetros adiante, onde, por conta dos represamentos gerados pelas barragens que produzem energia elétrica, o Tietê alarga tanto que de uma margem não dá para ver a outra.

"Vamos levar uma semana para chegar lá, mas não temos pressa", diz Edson.

Ao longo do percurso, ele ganhará a companhia de outros quatro barcos de moradores das cidades às margens do rio.

"O objetivo é justamente curtir a beleza das paisagens do rio, coisa que quem vive em São Paulo considera impossível".

No caminho, eles cruzarão meia dúzia de municípios, margearão lindas plantações de girassóis que avançam até a beira do rio e viverão uma experiência rara nos rios do Brasil: a travessia de eclusas, uma espécie de elevador de barcos, para que possam seguir viagem atravessando as barragens que represam o rio Tietê em diversos pontos ao longo do seu curso. Em algumas eclusas, os barcos chegam a subir ou descer 20 metros de altura.

"Quando me chamaram pela primeira vez para navegar no Tietê também achei aquele convite um absurdo", recorda.

Edson agora está fazendo a viagem pela quinta vez. "E quando falei pra família que íamos 'navegar no rio' eles pensaram que iríamos de barco até o Rio de Janeiro".

Depois que descobriu o lado mais surpreendente do Tietê, aquele onde o rio é tudo, menos poluído, Edson não quer mais saber de outro passeio.

"Agora, todos os anos tiro férias sempre em julho, para fazer essa viagem com a família. Eles também adoram, tomam banho de rio e dormem no próprio barco", conta Edson.

"É o Tietê que só quem vive no interior conhece, e que os paulistanos nem sonham que possa existir", resume.

Surge outro rio

Exagero? Nem um pouco. De Barra Bonita em diante, justamente onde os três amigos estão navegando nesse instante, o Tietê vira outro rio, já sem nenhum vestígio da imundície que atravessa a capital paulista. E vai ficando cada vez mais limpo, na medida em que avança interior adentro, sem que seja preciso nenhuma intervenção humana – uma prova de que, contra a poluição dos rios, basta parar de sujá-los.

Um bom exemplo disso é o Rio Tâmisa, o principal da Inglaterra, que, até o final do século 19, era o mais poluído da Europa, porque recebia todo o esgoto gerado pelos habitantes de Londres – fato que, inclusive, gerou uma tragédia em 1878 e forçou a adoção das primeiras medidas ambientais na Europa (clique aqui para conhecer esta história). Hoje, o Tâmisa é um rio saudável, com uma qualidade invejável para um curso d'água que atravessa uma metrópole.

"Meu sonho é que o Tietê também fosse assim em toda a sua extensão", diz Edson.

Para enfatizar seu amor pelo rio, ele leva uma grande faixa no seu barco apelando para a conscientização das pessoas. "O Tietê precisa ser amado e preservado por todos", diz. "Até pelos paulistanos".

 

Fotos: Rafael Siguin e Jorge de Souza

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.