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Vai afundar: Salvador irá transformar velho ferry boat em atração submarina

Jorge de Souza

2026-06-20T19:13:23

26/06/2019 13h23

Um velho e enferrujado navio de aço, que durante 45 anos transportou pessoas e automóveis entre Salvador e a Ilha de Itaparica, está prestes a virar a mais nova atração turística da Bahia.

O ferry-boat Agenor Gordilho, velho conhecido dos habitantes da capital baiana e dos moradores da maior ilha da Baía de Todos os Santos, desativado há dois anos, será propositalmente afundado bem diante da cidade para virar atrativo submarino para visitantes mergulhadores, juntamente com um antigo rebocador do porto baiano, o Vega.

Navios naufragados são um ponto de interesse para praticantes de mergulho (foto: iStock)

Parque dos naufrágios

O objetivo é aumentar o chamado Parque dos Naufrágios Artificiais da Baía de Todos os Santos, que já abriga outras embarcações também propositalmente afundadas para incrementar o turismo subaquático e fomentar a vida marinha, já que, após um tempo debaixo d'água, os naufrágios se transformam em recifes artificiais e fonte de atração e alimentação para peixes e demais seres marinhos.

(foto: iStock)

Mas, apesar do esforço do secretário de Turismo da Bahia, Fausto Franco, que vem tentando afundar os dois barcos desde que o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – Inema concedeu autorização para que os naufrágios sejam feitos numa área específica da baía meses atrás, ainda não há uma data definida, embora ele pretenda que isso aconteça agora no mês de julho. Provavelmente, no final do mês.

Isso porque a Capitania dos Portos de Salvador alega que ainda não recebeu a autorização das diretorias de Portos e Costa e de Hidrografia e Navegação, ambas no Rio de Janeiro, para acompanhar a operação, como determina a lei.

Quem teve a ideia dos naufrágios propositais foi o também instrutor de mergulho Igor Carneiro, dono da maior operadora de mergulho de Salvador, a Shark Dive, que, depois, procurou a Capitania dos Portos e a Secretaria de Turismo. "Eu comprei a sucata do rebocador e consegui a doação do ferry boat, mas não conseguiria afundá-los sem o apoio do governo", avalia.

Quando for finalmente autorizado, o duplo afundamento promete se transformar em (mais um) motivo de festa na capital baiana.

"Vamos convidar as pessoas, as escolas de mergulho e os clubes de barcos para uma espécie de congraçamento náutico, acompanhando a operação a uma distância segura no mar ou mesmo em terra-firme, já que os naufrágios acontecerão bem perto da cidade, na altura do Corredor da Vitória", diz o secretário de Turismo Fausto Franco, que de festa entende um bocado, já que trabalhou muito tempo com o músico Bell Marques, da famosa banda Chiclete com Banana.

"Será uma atração e tanto para Salvador e vamos transformar o afundamento do ferry boat em um evento alegre, em vez de trágico, como quase sempre são os naufrágios", diz o secretário.

Para isso, as duas embarcações foram devidamente limpas e "depenadas" de tudo o que possa causar danos ao meio ambiente marinho e, agora, aguardam apenas o momento em que serão rebocadas até o ponto autorizado para os naufrágios – que serão feitos através da abertura de válvulas no casco.

Vai demorar uma hora

"O afundamento de uma embarcação de grande porte, como o ferry boat Agenor Gordilho, não é imediato, leva cerca de uma hora e acontece na medida em que os compartimentos internos forem enchendo de água", explica o responsável pela operação, Rodrigo Melo, da empresa especializada Engesub, contratada pela secretaria para operacionalizar os naufrágios.

"O naufrágio do ferry boat será controlado para que o barco afunde em 'posição de navegação', ou seja, que fique apoiado no fundo do mar como se estivesse navegando, o que sempre encanta os mergulhadores", diz o especialista Rodrigo.

"O Agenor Gordilho já era para estar no fundo do mar há muito tempo, mas, mesmo assim, vai ser emocionante", diz o mergulhador baiano Bruno Souza. "Cansei de atravessar para Itaparica nesse ferry boat e, agora, vou poder revisitá-lo debaixo d'água".

As duas embarcações serão afundadas perto uma da outra, formando uma espécie de corredor, para que os mergulhadores possam visitá-las com mais facilidade. Mas a profundidade no local variará entre 30 e 35 metros, para que os naufrágios não atrapalhem a movimentação dos barcos na superfície.

"O turismo submarino atrai um público específico, mas expressivo e de bom poder aquisitivo", diz Igor, da Shark Dive.

"Quem mergulha sempre quer novidades debaixo d'água e nada melhor do que novos naufrágios para atrair estas pessoas para a nossa cidade, fazendo girar a cadeia inteira do turismo, das companhias aéreas aos hotéis e restaurantes, como acontece no mundo inteiro".

Com 70 metros de comprimento, quatro pisos e capacidade para mais de 300 passageiros e 32 automóveis, o ferry boat Agenor Gordilho só não será o maior navio naufragado da costa baiana porque, em setembro de 1980, ali afundou o cargueiro grego Cavo Artemidi, depois de encalhar num banco de areia.

Mas enquanto o cargueiro já se encontra parcialmente soterrado pela areia e desmantelado pela ação da correnteza, o famoso ferry boat ficará inteiro por muitos anos, mesmo estando submerso.

Naufrágios também históricos

Em Salvador, os mergulhos acontecem praticamente dentro da cidade (nenhuma outra capital oferece tal praticidade) e, além dos naufrágios artificiais, a Baía de Todos os Santos abriga a maior coleção de naufrágios históricos do país, já que era o principal porto da época do Descobrimento. Tem até um autêntico sítio arqueológico submerso, o Banco da Panela (assim batizado em razão da quantidade de objetos antigos ali já encontrados), que abriga uma quantidade incerta de antigas naus e mais de 20 âncoras à mostra no fundo do mar.

"Com os dois novos naufrágios, vamos aumentar ainda mais o apelo do mar em Salvador", completa Igor.

Fotos: Ulgo Oliveira/Setur e Rodrigo Melo

* Diferentemente do informado na primeira versão deste texto, o navio cargueiro Cavo Artemidi naufragou na costa baiana.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.