menu
Topo
Histórias do Mar

Histórias do Mar

Categorias

Histórico

O que aconteceu com o capitão argentino? Um ano depois, o mistério continua

Jorge de Souza

2010-04-20T19:09:00

10/04/2019 09h00

No início de abril de ano passado, um veleiro, sugestivamente batizado com o nome Misteriosa, foi encontrado à deriva no litoral de Mangaratiba, a cerca de 50 quilômetros da Ilha Grande, em Angra dos Reis, no litoral sul do Rio de Janeiro, com um aparato explosivo montado na cabine para explodi-lo e nenhum sinal do seu comandante, o velho comandante argentino Erwin Rosenthal, de 83 anos, que viajava sozinho no barco.

Golpe do próprio comandante contra a seguradora do barco? Queda acidental dele no mar? Ataque de bandidos? Todas as primeiras hipóteses logo foram descartadas.

Veja também

O catarinense que faz e navega com barquinhos gigantes de papel 
Francês que cruza o Atlântico dentro de um barril chega à metade do caminho
O curioso Correio do Mar: bar no meio do oceano mantém tradição há 101 anos 

As primeiras investigações comprovaram que barco não tinha seguro e concluíram que tanto um eventual acidente, ou seja, a queda do capitão no mar, quanto um ataque de ladrões não justificaria aquele aparato explosivo montado para explodir o barco – que, ao ser encontrado, ainda continha itens de valor a bordo, como dois computadores portáteis, que jamais seriam desprezados por simples bandidos.

Na ocasião, nenhum corpo foi encontrado no mar e a polícia simplesmente não sabia por onde começar.

Para aumentar ainda mais o mistério, um mês e meio depois, um corpo humano já em adiantado estado de decomposição foi encontrado, boiando, na mesma baía da Ilha Grande de onde o veleiro do argentino havia supostamente partido para a sua derradeira viagem.

O corpo foi identificado como sendo o do capitão argentino desaparecido, mas estava sem os pés, o que poderia ser um sinal de que a vítima eventualmente pudesse ter sido lançada ao mar com algo preso a eles, para afundar – o que também explicaria por que o corpo levou tanto tempo para flutuar.

O fato deixou a polícia de Angra dos Reis ainda mais desorientada e, ao contrário do que se poderia imaginar, a investigação, que até então mal avançava, empacou de vez.

Suspeito ou testemunha?

Nem mesmo a última pessoa que sabidamente esteve com o comandante argentino, o velejador austríaco Johann Dorfbauer, que vinha ajudando a vítima a preparar o barco para a longa viagem que Rosenthal pretendia fazer com o barco, até o Caribe, foi ouvida pela polícia na época.

Também na época, o austríaco garantiu que, logo após partir da enseada da Ilha Grande onde os dois estavam há uma semana, o veleiro do argentino foi seguido por outro barco, cuja existência, no entanto, jamais foi comprovada.

Meses depois, quando a polícia finalmente resolveu convocar o austríaco Dorfbauer para depor, ele sumiu da região com seu barco, muito provavelmente para fora do país.

E assim o caso está até hoje, um ano após a não explicada morte do comandante argentino.

"O inquérito ainda está aberto", diz o atual delegado da Polícia Civil de Angra dos Reis, Celso Gustavo Castello Ribeiro, que assumiu o posto recentemente e herdou o mistério.

"Mas sem ouvir a principal testemunha, que é o austríaco, fica difícil", reconhece.

"Tecnicamente, não podemos sequer afirmar que foi um homicídio, porque a causa da morte não foi identificada pela perícia, já que o corpo estava em adiantado estado de decomposição", diz o delegado – que só agora, três meses depois de assumir o posto, está tomando ciência do caso.

Vai ficar por isso mesmo?

Enquanto isso, segue a angústia dos familiares do comandante argentino, que continuam sem nenhuma informação ou explicação. "Tudo o que eu queria saber é: por que o meu marido morreu?", diz, já resignada com inépcia da polícia, a viúva Monica Depaolini, que vive em Buenos Aires com o filho do casal.

"Não é possível que um estrangeiro seja morto no Brasil e fique por isso mesmo", diz, indignada.

A favor das autoridades brasileiras só existe a complexidade deste caso, que, até hoje, mantém uma série de perguntas sem respostas. Quem, por exemplo, montou o aparato explosivo no barco – e por que ele não foi acionado? Teria o tal barco que supostamente seguiu o veleiro do argentino existido de fato? Por que o veleiro dele foi encontrado num local tão distante de onde apareceu o corpo? Quem teria levado o barco até lá? O sumiço do austríaco após o aparecimento do corpo teria sido uma mera coincidência ou ação intencional?

Livro conta detalhes

As dúvidas são tantas e tão enigmáticas que este caso, mesmo ainda não solucionado, já virou capítulo de um livro que está sendo lançado agora, do mesmo autor desta reportagem.

Nele, muitas outras informações ajudam a compreender melhor (ou tirar conclusões com um pouco mais de propriedade) sobre o enigmático caso do velho comandante argentino que terminou seus dias no mar de Angra dos Reis, sem que, até hoje, um ano depois, ninguém saiba como nem por que ele morreu. Muito menos quem o matou.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.