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As três mulheres que fazem a festa para 500 homens no mar de Angra dos Reis

Jorge de Souza

05/04/2019 09h00

No último fim de semana, 114 barcos e mais de 500 velejadores participaram, em Angra dos Reis, de uma das maiores regatas do litoral brasileiro. E quem estava por trás dessa grande competição eram apenas três mulheres: as cariocas Mara Blumer, Renata Liu e Teresa Zanetti, todas também velejadoras, mas que, para organizar este evento, abrem mão até de participar dele.

"Nosso prazer é fazer com que a regata aconteça", diz Mara, que nem foi para o mar participar da competição que ela mesma ajudou a criar.

"Passamos quatro meses cuidando de tudo para que a regata aconteça, buscando empresas que nos ajudem nas despesas, e não ganhamos um centavo por isso, nem queremos", diz Mara. "Só queremos que a regata aconteça".

As três amigas moram na própria marina que sedia e ajuda nas despesas da competição, a JL Bracuhy, em Angra dos Reis, e fazem isso apenas por amor aos barcos à vela.

"Nosso pagamento é ver todos esses barcos reunidos na água e rever os amigos, que só costumamos encontrar uma vez por ano, justamente por causa da regata", explica Renata Liu, uma das criadoras da competição.

Competição entre amigos

Tudo começou três anos atrás, quando as três amigas, mais a também carioca Cristina Amaral (que este ano não pode ajudar porque estava navegando com seu barco no extremo sul da Argentina), se juntaram para tentar criar uma regata usando apenas o esforço pessoal de cada uma delas.

Dividiram funções (uma cuidaria da parte técnica da competição, outra da captação de patrocinadores, a terceira da organização da festa de premiação e por aí afora) e foram à luta, num trabalho totalmente voluntário.

"Queríamos fazer uma regata entre amigos, organizada pelos próprios velejadores, sem muitas regras nem rivalidades entre os competidores", diz Teresa, que mora num barco, na mesma marina onde acontece o evento.

"Mas a regata cresceu tão rápido que, desta vez, tivemos que limitar o número de veleiros inscritos, porque não tínhamos nem camisetas para dar a todo mundo que queria participar".

Este ano, na terceira edição da regata criada e organizada pelas quatro amigas, participaram mais de 500 pessoas – a maioria esmagadora de homens, que, como das vezes anteriores, foram só elogios à dedicação e empenho daquelas mulheres para que tudo aquilo acontecesse.

"Sem o trabalho delas, nós não estaríamos aqui nos divertindo", resumiu um dos participantes, que competiu com mais quatro amigos no barco e, depois, se esbaldou na festança de premiação, que teve até show de música ao vivo e muita cerveja – e tudo conseguido, de graça, pelas quatro amigas.

"A gente sai pedindo apoio das empresas e cada um dá o que pode: os troféus, as camisetas, a cerveja, etc. Depois, fazemos a conta para ver quanto falta para cobrir todas as despesas e dividimos entre os participantes.

O valor da inscrição, que este ano foi de R$ 70 por pessoa, é só para cobrir essa diferença. O objetivo é que o resultado final financeiro seja zero", explica Mara, que cuida da contabilidade da regata e também dos três dias de festas que fazem parte da prova tanto quanto a competição em si.

"O que o pessoal quer é se divertir, e não apenas no mar", explica Teresa, cuja função é cuidar das festas, que são a essência desta regata, acima de tudo, alegre e descontraída.

"A programação começou na sexta-feira, com uma happy hour com uma canoa cheia de gelo e cerveja, continuou no sábado, com a festa da premiação onde também ninguém pagou nada, e só terminou no domingo, com um churrasco que foi feito por uns gaúchos que vieram até aqui correr a regata. Eles trouxeram 45 quilos de carne no avião, para fazer o churrasco", conta Teresa, feliz da vida em ver o que virou aquela simples ação entre quatro amigas apreciadoras de veleiros.

Dessa vez, nem a ausência de ventos desanimou os participantes da regata. "Teve gente que ficou horas boiando no mar, sem sair do lugar, mas nem assim voltou aborrecido", festeja Mara. "Importante nesse tipo de regata não é terminar a prova bem classificado, mas sim participar dela e, sobretudo, das festas", resume.

No mar, a imagem de 114 veleiros juntos encheu os olhos dos participantes. Especialmente os barcos da categoria "Clássicos", ou seja, veleiros antigos que também participaram da regata.

"O mais antigo era de 1940 e tinha uma tripulação quase tão velha quanto o barco", brinca Renata, que participou da regata a bordo de um deles.

"Os barcos antigos, ainda com casco de madeira, são muitos charmosos", ela diz.

Incluir antigos veleiros em corridas de barcos à vela é uma tendência moderna. Quase todas as grandes regatas do Brasil hoje fazem isso. E, não raro, eles acabam roubando o espetáculo, porque o transformam num quase desfile histórico.

Pena que, no Brasil, poucos barcos assim resistiram ao tempo. A maioria virou sucata ou foi abandonada, como aconteceu com um dos mais famosos barcos brasileiros de todos os tempos, o lendário Vendaval, primeiro grande veleiro de passeio que o Brasil teve, cujo triste fim pode ser conferido aqui.

"Adoraríamos ter mais barcos desse tipo na nossa regata", diz Mara, que já começou a trabalhar para a competição do ano que vem. "A primeira providência é aumentar a quantidade de cerveja, porque não é fácil matar a sede de 500 homens durante três dias", brinca.

 

Fotos: Helio Viana e Ricardo Rodrigues

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.