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O herói que salvou 31 pessoas na tragédia de Réveillon do Bateau Mouche

Jorge de Souza

31/12/2018 09h27

Mesmo hoje, 30 anos depois, o pescador Jorge Souza Viana, de 58 anos, tem dificuldade em falar sobre certos detalhes da noite que marcaria sua vida para sempre: a do Réveillon de 1988, quando, a bordo de seu pequeno barco de pesca, foi o primeiro a socorrer as vítimas do mais famoso naufrágio da história brasileira, o do Bateau Mouche IV, que virou e afundou com 142 pessoas na saída da Baía de Guanabara, matando 55 delas, no último dia do ano, 30 anos atrás.

"Tem coisas que vi naquela noite que não gosto de lembrar", diz Jorge, tentando desviar a conversa. "Prefiro lembrar das pessoas que ajudei a trazer para o meu barco", diz, com modéstia – porque, naquela trágica noite de tantos absurdos, ele foi o principal herói.

O mar estava revolto, mas, habituado a isso, Jorge, mais conhecido como "Jorginho" na comunidade de pescadores de Jurujuba, em Niterói, onde sempre viveu, resolveu levar a mulher, Sandra, os dois filhos pequenos, Evelyn e Maurício (que, inclusive, batizavam a pequena traineira de madeira com a qual ele tirava o seu sustento no mar) e mais meia dúzia de parentes para ver o show de fogos de artifício na praia de Copacabana.

O barco era pequeno, modesto e já estava com sua capacidade praticamente tomada pelos seus familiares. Mas nada disso fez com que Jorginho pensasse duas vezes na hora de se tornar a primeira pessoa a socorrer as vítimas do Bateau Mouche, abarrotando seu frágil barquinho com 31 sobreviventes.

 

"Eu vi uma mancha branca no mar, estranhei e me aproximei. Quando vi que era um barco virado e que havia pessoas na água, gritei para a família ajudar e comecei a jogar cordas no mar, para eles se segurarem, enquanto puxava os que estavam mais perto", recorda, meio a contragosto, porque nunca apreciou a fama de herói que a tragédia lhe trouxe. "Fiz o que qualquer um faria naquela situação", tenta desconversar, visivelmente incomodado.

Mas o curioso fato de possuir o mesmo nome e sobrenome do repórter ajuda a quebrar o gelo da conversa, e ele, mesmo sem nenhum entusiasmo, passa a responder mais algumas perguntas, antes de pedir desculpas porque havia acabado de voltar do mar e precisava descansar.

Recompensa? "Ganhei algumas medalhas e um casal que nós salvamos me deu um terreno em Araruama", recorda. "Depois, eu pedi pra eles se podia vender o terreno pra comprar um telefone lá pra casa e eles deixaram. Foram bons, porque, naquela época, um telefone valia muito, e a gente jamais teria dinheiro para comprar um", explica Jorginho, com uma humildade inversamente proporcional ao tamanho do seu gesto na noite daquele Réveillon, três décadas atrás.

Depois de encher seu barco com sobreviventes ("fiquei com medo da Marinha me multar por excesso de peso, mas era uma questão de vida ou morte", explica, como se alguém em sã consciência pensasse em recriminá-lo por aquele gesto), Jorginho alocou boa parte das vítimas no porão onde costumava guardar os peixes ("porque, do lado de fora, não cabia mais ninguém"), jogou no mar tudo o que pudesse descartar, a fim de aliviar o peso do barco, e, mesmo correndo o risco de afundar por sobrepeso com sua família dentro, seguiu para o píer de onde o Bateau Mouche havia partido.

"Eu sempre via aquele barco passando enquanto pescava e sabia onde era a sua base. Aliás, quem no Rio não conhecia o Bateau Mouche?", indaga, resumindo a relevância daquele barco no turismo da Cidade Maravilhosa no final da década de 1980 – embora a realidade tenha mostrado que, por uma série de fatores, aquela era uma tragédia mais que anunciada (clique aqui para conhecer os dez absurdos que culminaram no naufrágio do Bateau Mouche IV).

"Daí, eu desembarquei as pessoas, levei a família para casa depois que vi que já estavam chegando outros barcos para ajudar no resgate, mas, durante um bom tempo, não consegui dormir direito", recorda, sem nenhuma gota de convencimento. "Mas tem coisas que eu não gosto de lembrar", reforça.

Vinte e cinco anos depois, Jorginho voltaria a viver outra situação parecida, quando o seu próprio barco afundou, depois que o motor pifou, perto da costa de Piratininga, também em Niterói – e ele, mais uma vez, salvou quem estava a bordo. "Nós éramos 12 pescadores no barco, mas dois deles não sabiam nadar", conta, quase sob pressão do repórter. "Então, eu agarrei os dois e fui levando, aos poucos, até a praia. Foi quando eu vi como devem ter sofrido aquelas pessoas que estavam no Bateau Mouche", diz. "Ficar no mar sem um barco é muito difícil".

Após a tragédia do Bateau Mouche, Jorginho nunca mais teve vontade de ir ver a festa no mar de Copacabana, apesar de um de seus amigos em Jurujuba ser dono de uma empresa de passeios, a Ulysses Navegações, que, inclusive, levará muitas pessoas para lá hoje à noite "O Jorginho chega a ser rude de tão humilde, mas tem um coração gigantesco", diz o próprio Ulysses.

Mas Jorginho abriu uma exceção quatro anos atrás, quando lhe ofereceram um trabalho para conduzir uma lancha até Copacabana, no dia de Réveillon. "Minha única condição ao patrão foi que eu pudesse levar minha esposa junto. Ele concordou e ela foi. Mas, no caminho, eu não parava de lembrar daquela noite. E lembrava coisas que não queria lembrar", diz, um tanto incomodado – com as lembranças e com a extensão da nossa conversa, que ele, educadamente, pediu que terminasse por ali. "Não tenho muito mais que isso pra lhe contar. Fiz o que qualquer um faria no meu lugar".

 

Fotos: Arquivo Pessoal – Homero Sergio – Memória Globo – Otavio Magalhães

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.