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O que há para ver no mar da ilha paulista que só agora pode ser visitada

Jorge de Souza

28/12/2018 04h00

Apenas duas semanas depois de ser finalmente aberto para visitação, após décadas de proibição, o arquipélago de Alcatrazes, um conglomerado de ilhas a cerca de 45 quilômetros das praias do Litoral Norte de São Paulo, já contabiliza até lista de espera de interessados em conhecê-lo.

Todos, porém, são mergulhadores, já que a única parte do arquipélago que teve a visitação liberada foi o mar em torno da sua ilha principal – o restante, sobretudo o desembarque nas ilhas, continua proibido, já que se trata de uma área de conservação ambiental, controlada pela Estação Ecológica Tupinambás. Ou seja, uma área de preservação da natureza, onde a presença humana é altamente indesejável. Mas não mais dentro d´água.

"Nossa saída semanal já está lotada até abril", comemora João Andreolli, dono de uma das duas empresas de mergulhos já autorizadas a levar visitantes para mergulhar nas águas do arquipélago. "Nós já esperávamos isso, porque há décadas que os mergulhadores sonham em poder mergulhar em Alcatrazes, o que, agora é possível. E todo mundo quer ver o há naquele pedaço de mar onde, até aqui, ninguém podia entrar".

A procura pelos passeios de barco até Alcatrazes com mergulhos incluídos (tanto com cilindros quanto com simples máscaras e nadadeiras) tem sido bem intensa nos últimos dias, apesar dos preços um tanto salgados: R$ 650 para mergulhadores que queiram fazer dois mergulhos com cilindros de ar-comprimido e só um pouco menos que isso para quem quiser apenas ir no barco e mergulhar com máscara e snorkel.

"O preço é alto, porque as despesas também são", explica Andreolli. "Alcatrazes fica a mais de três horas de barco da costa e, pelas regras da visitação, cada grupo de quatro mergulhadores precisa ter a companhia de um guia credenciado, para que haja certeza de que o meio ambiente marinho do arquipélago não seja afetado", diz.

Tamanho cuidado, para muitos exagerado, tem a ver com o grau de preservação que ainda existe no fundo do mar que banha Alcatrazes, já que até duas semanas atrás era proibido entrar lá.

Por dois motivos. Primeiro, porque durante muito tempo o arquipélago foi usado pela Marinha para exercícios de tiro – sim, alvo de disparos de canhões de navios. Depois, porque a maior parte do arquipélago foi transformada em área de preservação ambiental, com visitação igualmente proibida.

Essa situação só começou a mudar em 2013, quando a Marinha finalmente concordou em parar de usar a ilha principal como alvo para seus disparos. E mudou de vez em agosto do ano passado, quando o arquipélago foi reclassificado como "Refúgio da Vida Silvestre", categoria ambiental que, mesmo com severas restrições, já permite o acesso de visitantes.

O arquipélago, que fica entre Bertioga e Ilhabela, é formado por cinco ilhas e quatro ilhotas. A ilha principal é bem grande e alta, com um pico que passa dos 300 metros de altura e lembra vagamente o Pão de Açúcar.

Não há nenhuma praia, mas enormes paredões despencam do topo da ilha principal, intercalados com densas árvores e palmeiras, que servem de abrigo para as aves marinhas que habitam a ilha. Milhares delas. Sem nenhum exagero.

Alcatrazes é o maior berçário de aves marinhas da região Sudeste do Brasil e tem revoadas densas e constantes. Não há árvore que não esteja coalhada de ninhos e filhotes. É um espetáculo da natureza.


No entanto, ainda melhor é o que acontece dentro d´água. Como sempre esteve fechado ao público, mergulhar em Alcatrazes tem um quê de descoberta. Não deixa de ser empolgante bater os olhos em paisagens submarinas que pouquíssimos já puderam ver.

Debaixo d´água, há muitos peixes e variedades de espécies marinhas, consequência direta do longo isolamento do arquipélago. Pesquisadores já listaram 186 tipos de peixes em Alcatrazes, 25% deles raros, sendo nove ameaçados de extinção, como o peixe neon e a enguia-de-jardim.

Outros, como a garoupa-verdadeira (aquela da nota de R$ 100), que já virou raridade no litoral brasileiro, ali ainda pode ser vista, bem como arraias e muitas tartarugas, estas em quantidades extraordinárias. É preciso ser muito azarado para fazer um mergulho no arquipélago e não dar de cara com uma dezena (ou mais) de tartarugas.


Também é praticamente impossível mergulhar no entorno da pequena Ilha do Farol, bem diante da ilha principal, e não topar com grandes cardumes de parus, peixes com tamanhos, colorações e formatos interessante, que ficam bailando o tempo todo em torno dos mergulhadores.


Eventualmente, podem surgir até golfinhos, embora eles sejam bem mais fáceis de serem vistos nos deslocamentos de barco até Alcatrazes. "Os golfinhos são como um bônus na maioria das travessias até a ilha", diz Andreolli, que espera levar mais de 100 visitantes para Alcatrazes só agora em janeiro.

Para os mergulhadores, além da variedade de espécies marinhas, outro grande atrativo do arquipélago é a visibilidade dentro d´água. Mesmo nos piores dias, ela costuma passar dos dez metros, podendo chegar ao dobro disso.

"E ainda tem o visual da ilha principal, que os barcos estão autorizados a contornar, para que as pessoas admirem o seu tamanho e beleza, porque a gente só protege o que conhece", completa Andreolli.

A visitação, no entanto, só é permitida através das duas únicas empresas credenciadas até agora: a Universo Marinho, de Andreolli, que fica em São Sebastião, e a Colonial Divers, de Ilhabela. O acesso de barcos particulares continua proibido, sem previsão de alteração disso.

Segundo os fiscais, a restrição visa limitar a fiscalização a poucos barcos e diminuir o risco de "acidentes ambientais" no preservado arquipélago. Como o que atingiu a ilha principal em 2004, depois que um desastrado exercício de tiro da Marinha pôs fogo na mata, num episódio que foi decisivo para o fim daquela absurda atividade, que pode ser relembrado clicando aqui. 

 

Fotos: Cristian Dimitrius

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.