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Barco histórico apodrece a céu aberto após ser içado do fundo do Rio Paraná

Jorge de Souza

12/12/2018 05h00

O que seria uma ação louvável (retirar do fundo do Rio Paraná dois antigos barcos de ferro usados na histórica Revolta dos Tenentes, quase um século atrás, para expô-los ao público em um local apropriado) acabou se transformando em grande problema para a prefeitura da pequena cidade paranaense de Porto Rico, às margens do rio, para onde os barcos foram levados.

Sem recursos para construir instalações adequadas para abrigar as embarcações e, agora, impedido pelo Patrimônio Histórico da União, a quem os barcos passaram a pertencer, o prefeito da cidade, Evaristo Volpato, não sabe o que fazer com os dois barcos. "O mais correto seria voltar a afundá-los no rio, de onde eles nunca deveriam ter saído", diz. "Mas isso não mais podemos fazer, porque, legalmente, eles não nos pertencem mais. Só que a União também nada faz".

Os dois barcos, cada um com cerca de vinte metros de comprimento e algumas toneladas de peso, já que são de puro ferro, foram achados no fundo do rio dez anos atrás, por um mergulhador, e retirados por um bem-intencionado empresário da região, que pretendia restaurar um deles e deixar o outro em exposicão. Mas não aconteceu nem uma coisa nem outra.

Desde então, as duas embarcações ocupam uma área de mato nos fundos do campo de futebol da cidade, já sem proteção alguma. "No começo, até colocamos os barcos debaixo de uma tenda, mas uma ventania levou tudo pelos ares e eles ficaram a céu aberto, corroendo ainda mais rápido ", diz o ex-secretário de turismo da cidade, José Angelo Santos, que, desgostoso com o descaso, nem está mais no cargo.

Tempos atrás, surgiu a oportunidade de transferir os dois barcos para um museu náutico em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, mas a proposta também não foi adiante – porque não havia dinheiro para o frete dos barcos, e, também, porque a prefeitura da cidade não gostou muito da ideia de enviar algo que pertence a história da região para um local tão distante. "Acho uma pena os barcos estarem estragando, mas eles não cabem numa salinha qualquer", diz o prefeito. "E nós nem podemos fazer nada, porque eles não nos pertencem mais", completa.

A opinião do prefeito de que os barcos não deveriam ter sido retirados do rio, onde repousavam, incógnitos, desde 1924, quando se supõe que tenham afundado, é compartilhada por outras pessoas na cidade, como o mergulhador Fabio Alves Sant'Ana, dono de uma empresa que opera mergulhos recreativos no Rio Paraná. "No fundo do rio, eles durariam bem mais, porque não teriam contato com o ar, e ainda virariam atração para os mergulhadores da região", diz Fábio. "Já, no fundo do campo de futebol onde estão, sem nenhuma proteção, ninguém os visita, nem sabe que existem", acrescenta.

Mas nem todos pensam assim. "Não me arrependo nem um pouco de ter resgatado os barcos do rio", diz o empresário da região Ismael Smanioto, que financiou a operação. "Só lamento não terem deixado eu fazer o que pretendia com os dois barcos, que era restaurar um para fazer passeios turísticos no rio, e outro para colocar em exposição na cidade", diz Ismael, que mantém consigo perto de 1.000 peças da época que encontrou dentro e em torno dos dois barcos naufragados – entre elas, mosquetões e um osso humano, "sinal de que houve ao menos uma vítima naquele episódio", completa.

Enquanto o destino dos dois históricos barcos segue indefinido (o mais provável é que eles acabem sucumbindo à própria ferrugem), outras ações subaquáticas bem menos polêmicas acontecem naquela mesma região do Rio Paraná.

No último fim de semana, mais de 50 mergulhadores voluntários participaram de um mutirão de limpeza do rio num trecho próximo à cidade de Rosana, onde também foram achados os dois barcos que hoje deterioram na cidade vizinha.

Em pouco mais de seis horas de atividades e atuando apenas numa área equivalente ao tamanho de três campos de futebol, eles retiraram mais de meia tonelada de lixo do fundo do rio, incluindo 200 quilos de pneus de automóveis, eletrodomésticos, panelas e incontáveis latinhas de cerveja – algumas delas ainda de aço, o que demonstra que estavam submersas há décadas. "Sem falar em restos de redes de pesca, que mesmo quando são descartadas continuam matando os peixes que se engancham nelas", diz o mergulhador Fabio Sant´Ana. "Tem muita porcaria dentro do rio", lamenta.

O principal objetivo do evento, no entanto, não foi propriamente limpar o rio, o que seria humanamente impossível, dadas as dimensões quase oceânicas do Rio Paraná naquele estupendo trecho, repleto de ilhas e praias de água doce – mas sim chamar a atenção das pessoas e criar um sentimento de preservação do rio.

"Todo mundo fica chocado quando vê quanto lixo sai de dentro d'água, ainda mais num lugar tão lindo", diz Fábio, que, no passado, foi um dos mais contrários à ideia de retirar os dois barcos do fundo do rio, com o objetivo de investigar melhor a origem deles. Mas, até hoje, tudo o que sabe é que fizeram mesmo parte da Revolta dos Tenentes, embora não se saiba como foram parar no fundo do rio, como pode ser conferido clicando aqui.

 

FOTOS: Jorge Souza, Ismael Smanioto e Prodiver

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.