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Vem aí um novo Titanic, 110 anos após naufrágio; será mesmo?

Jorge de Souza

30/10/2018 04h00

Quando o mundo imaginava que a ideia de recriar o mais famoso transatlântico da História (e que também gerou o mais lendário naufrágio de todos os tempos) havia igualmente naufragado, depois de ter sido apresentada com estardalhaço pelo político e milionário australiano Clive Palmer em 2012, com previsão de o navio ficar pronto em 2016, o que nunca aconteceu, eis que o próprio Palmer retorna a cena, anunciando que o projeto, agora, será retomado. E que a réplica do mais icônico de todos os navios ficará pronta daqui a quatro anos, em 2022.

O anúncio foi feito no mês passado, após Palmer explicar que o primeiro projeto teve que ser abortado por questões comerciais com o governo chinês, mas que isso está superado e o que Titanic II será construído num estaleiro na própria China.

Palmer completou o anúncio dizendo que, quando estiver pronto, a réplica operará na mesma rota do Titanic original, entre os portos de Southampton, na Inglaterra, e Nova York — onde, no entanto, o navio original jamais chegou, já que afundou na viagem inaugural, em 1912, depois de bater num iceberg, matando mais de 1.500 pessoas.

Segundo ele, o novo navio será uma cópia fiel do original (exceto, obviamente, nas questões de segurança), tanto no tamanho quanto na decoração dos ambientes — inclusive a imponente escada central do salão principal, imortalizada no filme sobre o navio, até hoje a segunda maior bilheteria da história do cinema.


De acordo com Palmer, o novo navio terá as mesmas 835 cabines do original, algumas tidas como as mais luxuosas da época, e capacidade para os exatos 2.435 passageiros e 832 tripulantes que estavam na fatídica primeira — e única — viagem do lendário transatlântico. O objetivo da réplica, ainda segundo Palmer, será o de oferecer aos passageiros uma "autêntica experiência Titanic", naturalmente, sem o naufrágio, 110 anos depois da única viagem que ele fez. Por sinal, a partir do ano que vem, de acordo com a empresa americana de exploração marítima OceanGate, o primeiro Titanic poderá ser visitado no fundo do mar, a bordo de um mini-submarino, ao custo de quase 400 mil reais por pessoa.

Mas, talvez, nada disso aconteça — de novo. Quem conhece bem o controverso político duvida que ele consiga recriar o lendário navio, embora seja um milionário. "A primeira réplica, anunciada em 2012, nem chegou a ser iniciada, depois mudou para 2016, para 2018 e, agora, para 2022", criticam os céticos do gigantesco projeto, que não são poucos. "Se o Titanic era o navio 'inafundável', o Titanic II irá afundar antes mesmo de existir", diz um deles.

Contribui para esta opinião o fato de que, na mesma época em que anunciou que faria uma réplica do Titanic, Palmer iniciou a construção de um parque temático, na Austrália, dedicado a dinossauros animados eletronicamente e batizado de Palmersaurus, que, uma vez pronto, em 2013, revelou-se uma das mais patéticas atrações turísticas do estado de Queensland.

Por essas e outras, o novo anúncio de Palmer foi recebido com extrema cautela no mundo dos negócios marítimos, embora tenha virado notícia instantânea no planeta inteiro. Muito mais provável é que outra réplica do icônico transatlântico, bem mais simples na proposta, já que não se trata de um navio de fato, se torne realidade antes mesmo que o projeto do australiano comece sequer a ser executado.

Desde 2016, uma cópia em tamanho real do Titanic vem sendo construída num reservatório às margens do Rio Qijang, a mais de 1.000 quilômetros do mar e a um custo de cerca de 500 milhões de reais. Mas, ao contrário do projeto de Palmer, o Titanic chinês não irá navegar.

Será apenas uma atração turística, já que, desde o filme de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, os chineses se tornaram obcecados pela história do infame transatlântico, que gerou a mais famosa tragédia marítima da história, mas não a pior de todas, triste mérito que coube ao naufrágio de outro transatlântico, o navio alemão Wilhelm Gustloff. Embora praticamente desconhecido, este último matou seis vezes mais pessoas do que o do Titanic. E sua história pode ser conferida aqui.

Imagens: Blue Star Line

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.