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Barco com uma tonelada de coca: pais de brasileiros presos estão indignados

Jorge de Souza

24/10/2018 04h00

Os familiares dos três velejadores brasileiros que estão presos em Cabo Verde há mais de um ano, acusados de tráfico internacional de drogas, depois que mais de uma tonelada de cocaína foi encontrada no barco no qual eles viajavam, como tripulantes contratados, estão mais indignados do que nunca.

O recurso que eles impetraram na Justiça de Cabo Verde pedindo um segundo julgamento, por uma série de falhas no primeiro, está parado no Ministério Público daquele país há mais de seis meses, quando o prazo legal para o pronunciamento do órgão seria de, no máximo, oito dias.

"O Ministério Público de Cabo Verde não tem interesse na verdade e demonstra extrema má vontade, além de pura maldade no caso", desabafa João Dantas, pai do baiano Rodrigo Dantas, um dos três jovens brasileiros que estão presos na ilha desde agosto do ano passado.

"Quando o nosso advogado questionou a Procuradoria Geral da República de Cabo Verde sobre a absurda e ilegal retenção do documento, eles disseram que não têm obrigação de mandar o processo adiante", revolta-se Dantas, que junto com a mulher, Aniete, passou a viver praticamente em Cabo Verde, desde que o filho foi preso.

"Nossa vida está parada há mais de um ano", resume. "Minha mulher largou o emprego em Salvador para poder ficar perto do nosso filho, já está tendo problemas de saúde por conta do nervosismo, e eu não faço outra coisa senão tentar que ele possa, ao menos, aguardar o novo julgamento em liberdade, mas nem isso estamos conseguindo", lamenta.

Além da explícita lentidão no processo, o que não mudou nem mesmo quando o presidente Michel Temer esteve em Cabo Verde meses atrás e pediu a colaboração do governo local, já que o processo conduzido pele Polícia Federal brasileira, de onde partiu a droga, concluiu que os três jovens são inocentes (para saber por quê, clique aqui e leia um resumo deste caso), outros fatos têm deixado os parentes dos brasileiros presos revoltados.

"Eles dizem que a conclusão do inquérito da Polícia Federal brasileira que inocentou os rapazes foi ´encomendada`, o que é um sério desrespeito à instituição e ao próprio governo brasileiro", indigna-se Dantas. "O povo de Cabo Verde é fantástico, mas a Justiça daqui prefere divulgar o país como sendo injusto e maldoso, ao usar métodos sórdidos, como reter o processo, para prolongar a prisão dos rapazes", diz. "Difícil imaginar tanta maldade", desabafa Dantas.

Além dos pais de Rodrigo Dantas, também a irmã de Daniel Dantas (que não é parente de Rodrigo) e os pais de Daniel Guerra, os outros dois brasileiros que estão presos, passaram a viver em Cabo Verde desde então, para acompanhar de perto o avanço do processo. Que, no entanto, não avança.

Mas não é só a Justiça de Cabo Verde que tem colocado pedras no caminho da defesa dos brasileiros. A própria Justiça Brasileira também fez o caso andar para trás ao não enviar a tempo para a Itália o pedido de extradição de um dos donos do barco, o inglês George Saul, mais conhecido como "Fox" ("Raposa", em inglês), que havia contratado os brasileiros para aquela viagem, sem que eles soubessem da droga escondida no fundo do barco. O prazo da prisão temporária do inglês, pedida pelo governo brasileiro, era de 40 dias. Mas o documento que saiu de Brasília só chegou lá depois disso, obrigado a Justiça Italiana a soltar o inglês, que, agora, terá que ser novamente procurado.

Já outro dono do barco, o também inglês Robert Delbos, está preso na Espanha e deve ser extraditado para o Brasil assim que solucionados os procedimentos burocráticos – no caso dele, o pedido chegou a tempo, porque era de 80 dias.

No Brasil, Delbos será interrogado, mas, caso não haja uma queixa crime formal contra ele (que, até agora, não foi feita pela Justiça Brasileira), pode ser apenas ouvido e liberado. "É inacreditável", revolta-se Dantas. "Cada minuto de espera é uma eternidade de sofrimento para os familiares".

 

Fotos: Arquivo de Família

 

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.