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Saíram para velejar, voltaram 16 anos depois. A incrível viagem deste casal

Jorge de Souza

2017-07-20T18:04:00

17/07/2018 04h00

 

 

Exatos 20 anos atrás, em julho de 1998, o casal inglês Jane e Clive Green, ela uma ex-técnica em microbiologia, então com 46 anos, ele um ex-engenheiro, de 44, ambos precocemente aposentados e sem filhos para criar, resolveram pegar o pequeno barco que possuíam, um velho veleiro de 35 pés (ou pouco mais de dez metros de comprimento), para fazer uma rápida viagem de férias, da Inglaterra até a Espanha.

O objetivo era apenas curtir uma semana de navegação no ensolarado verão do Mediterrâneo. Mas os dois gostaram tanto da experiência que resolveram "esticá-la". E só retornaram à Inglaterra incríveis 16 anos depois!

Durante esse tempo todo, o casal viveu no barco, mas parando em milhares de lugares. No total, visitaram mais de 50 países, navegaram o equivalente a 100.000 quilômetros e deram a volta completa ao mundo, saindo da Europa, cruzando até o Caribe, de lá para o Pacífico, a Austrália e o Índico, antes de retornar ao Mediterrâneo e a Inglaterra (leia mais sobre o roteiro do casal clicando aqui).

"Nós não tínhamos um roteiro fixo nem pré-determinado", recorda Jane, cujo nome batizou o próprio barco, chamado "Jane G". "Em cada parada, conhecíamos outras pessoas, que iam nos falando sobre lugares interessantes mais adiante e nós seguíamos em frente, com as dicas delas".

Em vários locais, no entanto, o casal passou longas temporadas, como na Nova Zelândia e Austrália, onde chegaram a ficar dois anos inteiros. Mas sempre morando no próprio barco, que tinha apenas dois quartos, uma sala-cozinha e um pequeno banheiro. "Acostumamos a viver com pouco", contou Clive, ao retornar ao seu país natal, quase duas décadas depois.

Para se manterem durante esse tempo todo, Jane e Clive, depois que decidiram seguir em frente mundo afora, mandaram a família alugar o único bem que possuíam, uma pequena casa na cidade de Pembrokeshire, e viveram disso e da pensão que recebiam como aposentados.

"Não podíamos gastar mais do que 130 libras esterlinas por semana (o equivalente a pouco mais de R$ 2.500 por mês), porque tínhamos que guardar algum dinheiro para a manutenção do barco, nossa maior despesa", contou Jane, que, quando terminou a viagem, já somava 62 anos. "Mas dava perfeitamente, porque só precisávamos de dinheiro para comprar alguns mantimentos, já que um veleiro se move pelo vento e o vento é de graça", explicou aos incrédulos vizinhos, quando, finalmente, retornou a sua cidade.

"Só não foi uma perfeita viagem de férias porque tínhamos que controlar o orçamento", completou Clive. "Mas tivemos a sorte de poder conhecer o mundo inteiro dessa forma e não passamos nenhuma necessidade".

Não escaparam, no entanto, de alguns sustos, como quando foram seguidos por um suspeito barco de pesca na costa da Somália, o mais perigoso trecho de pirataria do mundo. "Mas, quando o barco se aproximou, era para pedir ajuda para um tripulante que havia se ferido durante a pescaria", recordou Jane, aliviada.

Em outra ocasião, o casal teve que passar 23 dias bebendo água do mar dessalinizada, através de um aparelho que tinham no próprio barco, durante a travessia do oceano Pacífico, das Ilhas Galápagos, na costa do Equador, às Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. "Naquela travessia, levamos também um cacho com 80 bananas verdes a bordo, que íamos comendo — e racionando –, na medida em que ficavam maduras", recorda Clive, rindo. "Era a nossa única sobremesa".

"Mesmo assim", acrescentou Jane, "nós nunca brigávamos. Tínhamos um acordo de que, quando um ficasse cheio do outro, devia ir lá para fora e ficar sentado junto ao mastro do barco, até passar a raiva. Mas nunca precisamos fazer isso, até porque, lá fora, às vezes, era bem frio e molhado", completou, também rindo.

Ao contrário, durante a longa e imprevista viagem do casal, eles presenciaram diversos espetáculos da natureza, como um vulcão cuspindo lava no mar do Pacífico, e o encontro com um tubarão-baleia maior até que o próprio barco deles.

Também viveram situações engraçadas, como quando Jane trocou um velho sutiã por um monte de frutas, numa remota ilha do arquipélago de Fiji. "A mulher se aproximou do nosso veleiro com uma canoa cheia de frutas e começou a apontar para mim", recorda a inglesa. "Como ela não entendia inglês e eu não compreendia o que ela queria, ela ergueu blusa e mostrou os seios nus. Daí eu entendi a proposta e aceitei na hora".

Apesar dos quase 6 000 dias no mar e dos muitos episódios vividos, Jane e Clive optaram por não escrever nenhum livro sobre a viagem. "Livros desse tipo só vendem quando narram desastres e, com a gente, felizmente, não aconteceu nada desse tipo", explicou o casal, que hoje vive na Inglaterra, mas, vira e mexe, pega o barco e sai para velejar pela Europa.

E, quando isso acontece, os vizinhos já ficam de alerta: será que eles voltam?

 

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.