Histórias do Mar http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos Wed, 12 Jun 2019 13:55:00 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Barco histórico: “Lancha dos Presidentes” vai a leilão na Internet http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/06/12/barco-historico-lancha-dos-presidentes-vai-a-leilao-na-internet/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/06/12/barco-historico-lancha-dos-presidentes-vai-a-leilao-na-internet/#respond Wed, 12 Jun 2019 13:53:03 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1047

No final da década de 1950, pouco antes de inaugurar Brasília, o então presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, mandou levar do Rio de Janeiro para a futura capital do país o então iate oficial da Presidência da República, para usá-lo no lago que estava construindo à beira da cidade – e também para deixar claro que, apesar das oposições, não mudaria seus planos de levar o comando do Brasil para o Planalto Central.

Sessenta anos e muitas reviravoltas depois, aquele barco, uma antiga lancha com casco envernizado de madeira de 15 metros de comprimento, ainda existe – apesar de, por muito pouco, não ter sucumbido ao tempo e ao habitual descaso brasileiro quanto ao seu patrimônio histórico.

Agora, ela pode pertencer a qualquer pessoa que esteja disposta a pagar os R$ 400 mil de lance mínimo pedidos num leilão na Internet, que começou na semana passada e irá até o início de julho.

Quem está promovendo o leilão é o atual proprietário do barco, o empresário catarinense Carlos Alberto Oliveira Júnior, dono de um centro cultural com diversos equipamentos náuticos antigos, em São Francisco do Sul, em Santa Catarina. Ele adquiriu a embarcação meses atrás, com a intenção inicial de mantê-la. Mas, ao descobrir que o barco necessitaria de muitos cuidados que não teria como atender, resolveu vender a lancha, através de um leiloeiro oficial na Internet.

“Ainda não há nenhum lance, mas estamos confiantes de que vamos conseguir vender a lancha para algum entusiasta do mundo náutico ou político, dado o caráter histórico deste barco”, diz o leiloeiro catarinense Lúcio Ubialli, encarregado do negócio.

“Não é todo dia que se pode ser dono de algo que pertenceu a diversos presidentes da República”, completa.

O barco em questão é a histórica lancha Gilda, assim batizada pelo próprio ex-presidente Juscelino Kubitschek em homenagem à mais famosa personagem da atriz sensação da década de 1940, Rita Hayworth, “porque era tão bonita quanto ela”. E foi um dos grandes xodós do presidente que construiu Brasília.

“Sempre que queria impressionar alguém, JK convidava a pessoa para passear com ele no lago Paranoá a bordo da Gilda”, diz o ex-proprietário da lancha, o empresário de Brasília Gerard Souza, que passou dez anos restaurando a lancha e não gostou de saber que ela, agora, está indo a leilão.

“Entreguei a lancha por um valor quase simbólico, porque achava que ela iria para um museu, que é o lugar certo para algo histórico, como esse barco”

O brasiliense Gerard é fã incondicional de JK — segundo ele, “o melhor presidente que o Brasil já teve”.

“Agora, com o leilão, vai saber nas mãos de quem ela irá parar, e se o novo comprador vai saber cuidar direito de um barco que, além de exigir cuidados frequentes, porque é antigo e de madeira, faz parte da própria história da nossa República”, aponta. O empresário diz ter gasto mais de R$ 800 mil restaurando o barco, durante o tempo em que a lancha ficou sob seus cuidados.

“Vamos buscar alguém que tenha condições de cuidar da lancha melhor do que nós”, diz o representante do atual proprietário, Roberto Corrêa, que passou os últimos meses colocando a lancha em plenas condições de navegar. Segundo ele, isso foi conseguido, mas gerou despesas. “Agora, a lancha está em perfeito funcionamento”, garante.

“A Gilda é uma lancha que tem história e não deveria ser vendida como um simples barco na Internet”, indigna-se o ex-proprietário, que após uma década restaurando o barco nos seus mínimos detalhes, o pôs de volta nas águas do lago Paranoá, 55 anos depois de JK ter feito o mesmo.

Durante esse tempo, no entanto, a também chamada “Lancha dos Presidentes” (já que, além de JK, serviu também a Getúlio Vargas, Jânio Quadros, João Goulart, e Castelo Branco) esteve à beira de sucumbir de vez ao tempo, ao ser abandonada na beira do lago por anos a fio.

Mas, resgatada a tempo por uma iniciativa privada (confira aqui a rica e curiosa história deste barco), sobreviveu e, agora, busca um novo dono, através da Internet.

 

Fotos: Central Sul de Leilões e Arquivo Pessoal de Gerard Souza

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Vinho que ficou 300 anos no fundo do mar vai a leilão por R$ 130 mil http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/06/05/vinho-que-ficou-300-anos-no-fundo-do-mar-vai-a-leilao-por-r-130-mil/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/06/05/vinho-que-ficou-300-anos-no-fundo-do-mar-vai-a-leilao-por-r-130-mil/#respond Wed, 05 Jun 2019 14:24:04 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1039

Duas garrafas que ficaram 300 anos no fundo do mar serão leiloadas juntas (foto: Divulgação/Christie’s)

Nove anos atrás, um grupo de mergulhadores encontrou, no fundo do mar da Alemanha, os restos de um velho navio naufragado, cuja idade estimada passava dos três séculos.

Mas, mais relevante do que o achado foi o que eles encontraram parcialmente enterrado na lama, a 40 metros de profundidade: uma caixa com 14 antigas garrafas de vinho, que fazia parte da carga do navio.

Levadas para análise, as garrafas revelaram um verdadeiro tesouro: ainda havia vinho dentro delas. E um vinho “poderoso, ainda com teor alcoólico”, como atestaram os especialistas, que provaram e analisaram o conteúdo de uma das garrafas – a única que foi aberta até hoje.

Pelo formato da garrafa, da rolha e das características do navio, eles estimaram que aquele vinho tinha mais de 300 anos de idade e fora produzido em algum período entre os anos de 1670 e 1690. Portanto, uma autêntica raridade.

Não por acaso, duas daquelas centenárias garrafas são as principais estrelas de um leilão de vinhos raros que acontece nos dias 5 e 6 de junho na mais famosa casa de leilões do mundo, a Christie’s, de Londres.

R$ 130 mil por duas garrafas

Apresentadas como “Vinhos do Naufrágio”, já que sua origem é desconhecida, as duas garrafas serão oferecidas juntas por lances mínimos de US$ 33 mil (cerca de R$ 130 mil), mas a expectativa é que ultrapassem este valor, já que se trata do “mais antigo vinho já leiloado pela Christie’s”, como informou a casa, ao anunciar o leilão – que é aberto a qualquer pessoa, através do site.

Se arrematadas, as garrafas virão “em caixas especiais cheias d’água, para manter a ambientação na qual estiveram os últimos três séculos”, informa a tradicional casa de leilões, que, no ano passado, bateu o recorde de venda do vinho mais caro da história ao vender uma garrafa do lendário vinho francês Romanée-Conti pelo equivalente a mais de R$ 2 milhões.

Perto disso, as duas garrafas do Vinho do Naufrágio que estão sendo leiloadas podem se tornar verdadeiras pechinchas, já que se tratam de vinhos do século 17, portanto com caráter até histórico.

A dúvida é se os eventuais compradores terão coragem de consumi-las. Até porque, de acordo com a Christie’s, como se tratam de vinhos muito antigos, sua capacidade de “bebilidade é questionável”. Ou seja, são ítens para um museu, não para a mesa.

Mar melhora o vinho

Esta não foi a primeira vez que os oceanos mostraram a incrível capacidade de preservar as propriedades de garrafas submersas. Diversos outras garrafas de vinhos já foram encontradas intactas em naufrágios, mas nenhuma tão antiga.

Em alguns casos, os mares até ajudaram a melhorar a qualidade das bebidas, como no caso do hoje famoso vinho português da Ilha da Madeira.

No passado, barricas daquele vinho eram levadas como simples lastro nas caravelas, para que elas não balançassem tanto. Mas, ao final da viagem, depois de tanto tempo navegando, a bebida adquiria um sabor único e especial, que acabou trazendo fama mundial àquele tipo vinho, como pode ser conferido clicando aqui.

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O morador de rua que vive no barco-barraco mais bem localizado da Bahia http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/30/o-morador-de-rua-que-vive-no-barco-barraco-mais-bem-localizado-da-bahia/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/30/o-morador-de-rua-que-vive-no-barco-barraco-mais-bem-localizado-da-bahia/#respond Thu, 30 May 2019 12:00:15 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1025

O baiano Alberto Jesus da Conceição tem 34 anos, é solteiro, não vive de emprego, passa os dias de bermuda e sem camisa e mora a bordo de um barco permanentemente ancorado bem diante de um dos principais cartões postais da cidade de Salvador: o Mercado Modelo. Quando sente calor ou apenas vontade, ele dá meio passo para fora da sua casa flutuante e mergulha nas águas da Baía de Todos os Santos, onde, vira e mexe, também pesca, para garantir um almoço fresquinho, pouco importando se é domingo ou segunda-feira.

Dito assim, mais parece que o baiano Alberto leva a vida que pediu a Deus, sem precisar trabalhar e vivendo num barco magnificamente ancorado bem em frente a um dos mais famosos e valorizados pontos da capital baiana. Mas não é nada disso…

O barco-casa de Alberto não passa de uma espécie de barraco flutuante, feito de pedaços de madeira e sacos plásticos. Ele só não pode ser chamado de “morador de rua”, porque, em vez de viver debaixo de uma marquise ou nas calçadas, mora dentro d’água, numa espécie de favela náutica, que ele mesmo construiu.

“Vim pra cá com 10 anos e vivo aqui há 34”, diz Alberto, se atrapalhando todo com as contas, já que, a despeito da sua esperteza e habilidade (“Sou pintor, cantor, mergulhador, auxiliar de serigrafia e o que mais pintar pela frente, porque essas mãos sabem fazer muitas coisas”, garante ele), o raciocínio linear não é o seu ponto forte.

Alberto é usuário de crack, dependente químico até a última pedra e como sempre viveu nas imediações imundas do Mercado Modelo ganhou, ainda pivete, um apelido que carrega até hoje: “Sou o Cara Suja”, diz, orgulhoso.

“Pode botar meu nome na internet que aparece até filme no You Tube. Põe lá, Cara Suja, um cara que sabe viver a vida e que vive aqui há 14 anos”, diz, misturando assuntos, embaralhando os números e falando compulsivamente, como sempre faz.

“A cara é suja, mas o coração é limpo”, recita Alberto.

Ele costuma se dedicar a uma atividade bem curiosa para um morador de rua, quando não está fumando crack nas redondezas do Mercado Modelo, claro: limpar a prainha onde fica o seu barco-barraco.

Sai recolhendo o lixo que chega na areia e, depois, armado com um puçá (tipo de peneira para pegar peixes), ele vai para a amurada da avenida e fica “pescando” o que chega pelo mar – garrafas pets, sacos plásticos, embalagens vazias e todo tipo de porcarias.

“Atrapalha os peixes”, ele explica, já que o lixo interfere na terceira atividade que ele mais pratica: a pesca de minúsculos peixinhos, que são a base do que ele come todos os dias.

Isso quando ele come algo, porque enquanto não acabarem todas as pedras do crack que conseguiu comprar com os trocados que ganha fazendo bicos para os moradores da redondeza, Cara Suja não come nada. Passa dias em jejum, o que explica o corpo esquelético, mas sempre elétrico.

“Eu ajudo ele sempre que posso”, diz o maior anjo da guarda de Alberto, o comerciante Cesar Rezak, responsável por uma loja de passeios náuticos vizinha ao Mercado Modelo e ao barco-favela do mais famoso personagem do pedaço.

“A cabeça dele não é 100%, mas ele é do bem. Não briga, não rouba e gosta de conversar, embora nem sempre dê para entender o que ele diz, ”, conta Cesar, que vive tentando achar uma maneira de ajudar o insólito vizinho de maneira mais consistente.

“Sempre peço pro pessoal doar coisas para ele, mas não dinheiro, porque tudo que ele ganha ele gasta, na mesma hora, com o crack”, diz Cesar, que, sempre que surge uma oportunidade tenta escarafunchar a vida pregressa de Cara Suja, fazendo perguntas que ele responde misturando tudo.

“A cabeça dele é um turbilhão de raciocínios muitas vezes sem sentido, por conta de anos e anos fumando crack, mas já descobri que ele tem quatro irmãos, embora nenhum contato com a família. E que também nunca estudou, embora seja bem inteligente”, diz o amigo Cesar.

O barco no qual Cara Suja vive, um pequeno catamarã originalmente movido a vela, foi um presente de um velejador francês que vivia em Salvador. Ao partir da cidade, ele doou o barco, já caindo aos pedaços, para aquele extrovertido sujeito, que não tinha onde dormir e aparecia todos os dias, falando sem parar.

Cara Suja, então, ergueu uma espécie de engradado entrelaçado com varetas de bambu e revestido de plástico sobre o casco e criou sua exótica casa flutuante, que, para completar a aparência insólita, ainda ostenta uma bandeira do Brasil presa ao teto.

Em seguida, conseguiu que a Marinha fechasse os olhos e permitisse que o seu estranho barco ficasse permanentemente ancorado numa área que pertence à Base Naval de Salvador, bem diante de três dos maiores cartões-postais da cidade: o Mercado Modelo, o monumento à cidade de Salvador e o lendário Elevador Lacerda. Ninguém mais em Salvador tem uma vista tão privilegiada. Muito menos a partir de um barraco.

A opção de morar num barco em vez de uma casa não é nenhuma novidade. Muita gente já fez isso e outros continuam fazendo. Mas ainda são poucos os menos afortunados que já perceberam que uma boa maneira de morar nas melhores áreas das cidades é trocar a terra-firme pela água – como fez o esperto baiano Alberto.

Outro que também descobriu isso foi o aposentado capixaba Jackson da Silva, que, sem recursos para alugar uma casa, viveu numa simples canoa adaptada na melhor praia da capital do Espírito Santo durante anos a fio. Até que, um dia, ele resolveu realizar o sonho de navegar com sua canoa-moradia até a Amazônia e partiu. Mas não foi muito longe, porque a frágil canoa bateu nas pedras e afundou, quase levando o aposentado junto (clique aqui para ler esta história).

Mesmo assim, Jackson não se deu por vencido. Agora, com a ajuda de amigos, está construindo outro barquinho-moradia, para voltar a viver na parte mais nobre de Vitória sem ter que pagar um centavo por isso.

“É por isso que vivo aqui, bem na frente do Mercado Modelo, há 44 anos”, completa o mentalmente atrapalhado (24, 34 ou 44 anos, afinal?), mas mais exótico, folclórico e original morador de Salvador.

 

Fotos: Arquivo pessoal/Cesar Rezak

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Publicação histórica: Brasil tem a revista marítima mais antiga do mundo http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/24/publicacao-historica-brasil-tem-a-revista-maritima-mais-antiga-do-mundo/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/24/publicacao-historica-brasil-tem-a-revista-maritima-mais-antiga-do-mundo/#respond Fri, 24 May 2019 15:07:51 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1011

Se comparada às marinhas dos países mais desenvolvidos, a do Brasil não está entre as maiores – embora seja a número 1 do continente sulamericano. Mas, em pelo menos um aspecto, a Marinha Brasileira ocupa o topo do pódio mundial: ela edita a revista marítima mais antiga do mundo, entre as publicações do gênero que ainda estão em atividade.

Fundada em 1851 (portanto, há 168 anos — ou mais de um século e meio atrás), a Revista Marítima Brasileira, editada ininterruptamente desde então pela própria corporação, é também a revista mais antiga do Brasil e uma das mais longevas do planeta, entre todos os gêneros.

Ela só não foi também a primeira revista marítima do mundo porque a publicação da Marinha Russa, Morskoll Sbornik, veio primeiro: foi criada em 1848, mas já não é mais editada.

“Temos muito orgulho da nossa história e trajetória”, diz o Capitão Marcello Ramos e Silva, que juntamente com o também capitão Miguel Augusto Magaldi, ambos já na reserva da corporação, são os atuais responsáveis pela publicação, que sai a cada três meses, mas com a expressiva quantidade de 320 páginas, sem nenhuma publicidade.

“Quando ela começou, os navios da Marinha do Brasil ainda eram movidos à vela e a pólvora (na versão sem fumaça) nem sequer tinha sido inventada”.

“Nas páginas da Revista Marítima está registrada a própria história da Marinha do Brasil nos últimos 168 anos”, diz o capitão-editor Marcello.

Quem teve a ideia de criar uma revista naval no Brasil, algo até então praticamente inédito no mundo, foi um simples primeiro-tenente, o carioca (mas nascido em Portugal) Sabino Eloy Pessoa, que, na primeira edição, publicada em 1º de março de 1851, escreveu no editorial de primeira página: “Depois de tanta profia, eis, afinal, publicado o primeiro número de uma folha da Marinha”.

Guardada num cofre

O exemplar, histórico, do qual só restou uma unidade, devidamente amarelada e fragilizada pelo tempo, encontra-se guardado num cofre na Biblioteca da Marinha e só raramente pode ser manuseado por pessoas qualificadas e devidamente enluvadas. “Eu mesmo jamais vi o original da primeira edição”, diz Marcello, que edita a revista há 12 anos.

A própria redação da revista exemplifica bem o caráter histórico da publicação. Ela é editada pela Diretoria do Patrimônio Histórico e de Documentação da Marinha, numa austera sala do Museu Naval Brasileiro, no Espaço Cultural da Marinha, no Rio de Janeiro, e decorada com um mobiliário tão antigo quanto a própria publicação.

“Minha mesa tem, certamente, mais de um século e por ela já passaram colaboradores históricos, como generais e almirantes, que sempre fizeram questão de publicar artigos na revista, porque ela dá prestígio”, diz o editor, que, mantém a tradição de publicar, a cada edição, longos artigos sobre questões ligadas ao mar, à história naval, à ações bélicas marítimas, entre outros assuntos de interesse geral.

“Só não abordamos temas políticos, porque isso está no estatuto da revista”, diz o sub-editor Magaldi. “Mesmo nos períodos políticos mais intensos do país, como nos anos de 1960 e 1970, a revista manteve-se politicamente neutra, sem defender um lado nem outro”, garante Magaldi, que, tal qual seu companheiro de trabalho, é um apaixonado pela revista na qual trabalha.

Notícias de 100 anos atrás

“Somos leitores da Revista Marítima desde que entramos na Marinha, como aspirantes”, diz o editor Marcello, que mantém a mesma fórmula editorial até hoje.

Cada edição tem entre 15 e 20 artigos, assinados por colaboradores militares ou não, e diversas seções, entre elas uma bem curiosa, chamada “Aconteceu há 100 anos”, que reproduz notícias que a própria revista publicou, um século atrás. “Poucas publicações no mundo têm o privilégio de poder fazer isso”, diz o capitão.

Atualmente, a Revista Marítima Brasileira possui 7.000 assinantes e é distribuída, gratuitamente, para universidades e bibliotecas públicas de municípios com mais de 90 mil habitantes. Frequentemente, seu conteúdo é usado como material de estudo por aspirantes da Marinha e para provas internas nos cursos da entidade.

“A revista tem, também, uma função educativa e, por isso, é tão procurada e consultada até hoje”, diz o editor, que no momento está trabalhando numa verdadeira revolução na história da publicação: “Disponibilizaremos todo o nosso conteúdo de quase 2.000 edições na internet, para quem quiser consultá-lo de graça”, avisa. A novidade entrará no ar em julho.

Nas páginas das primeiras edições, vendidas a cinco réis, em dinheiro da época, temas hoje históricos, como a Batalha do Riachuelo e a Guerra do Paraguai, foram tratados como simples matérias, uma vez que a revista já existia quando aconteceram os dois conflitos.

Também episódios envolvendo a participação da Marinha Brasileira na Primeira e Segunda Guerra Mundial, como o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães, igualmente rechearam edições da revista, no instante em que aconteceram. Quando a Revista Marítima Brasileira começou, a própria Marinha do Brasil era recém-criada, já que existia há menos de três décadas.

“Não somos uma revista que trata da História da nossa corporação”, diz, orgulhoso, o capitão-editor Marcello. “Somos a própria História, que continua sendo registrada. E isso, nenhuma outra Marinha no mundo tem”.

Fotos: Jorge de Souza

 

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Nos anos 70, um “Big Brother” aconteceu no mar. E um filme mostrará isso http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/18/nos-anos-70-um-big-brother-aconteceu-no-mar-e-um-filme-mostrara-isso/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/18/nos-anos-70-um-big-brother-aconteceu-no-mar-e-um-filme-mostrara-isso/#respond Sat, 18 May 2019 12:00:08 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1002

Em maio de 1973, uma pequena balsa partiu do Porto da Luz, nas Ilhas Canárias, rumo à costa do México, do outro lado do Atlântico, levando 11 pessoas a bordo – cinco homens e seis mulheres, que, até então, não se conheciam.

Mas o objetivo daquela viagem não era propriamente a travessia do oceano e sim a análise de como aquelas pessoas, todas estranhas entre si, se comportariam durante tanto tempo isoladas no meio do mar, dentro de uma pequena balsa, dividindo espaços e convivendo intimamente dia e noite, sem poder sair dali.

Batizada de Experimento Acali, a experiência, um estudo prático sobre o comportamento humano concebido pelo antropólogo mexicano Santiago Genovés, que foi junto na viagem, virou o filme “A Balsa”, que agora está em vias de ser lançado no Brasil (ainda sem data definida), depois de ter sido apresentado na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro do ano passado.

O filme é misto de documentário (com imagens da época, gravadas pelo próprio Santiago ao longo dos 101 dias que o grupo ficou isolado no mar) com entrevistas dos participantes ainda vivos daquela polêmica experiência, que foi uma espécie de precursora dos realities shows e inspiração para a criação do “Big Brother”.

“O objetivo da viagem é ser um laboratório do comportamento humano”, explicou, na época, o antropólago mexicano.

No entanto, ele acabaria sendo acusado de extrapolar limites para conseguir o seu objetivo — a começar por exacerbar a questão sexual , o que rendeu ao experimento o jocoso apelido de “Balsa do Sexo”.

Os participantes, escolhidos pelo próprio Santiago, tinham diferentes culturas, religiões e nacionalidades, mas todos com idades entre 20 e 40 anos, corpos razoavelmente atraentes e boa parte deles era casados, embora fosse proibido a presença de cônjuges a bordo — o que, desde o princípio, deixou claro as fortes conotações sexuais do projeto.

5 homens e 6 mulheres

O grupo era composto por uma capitã sueca (a única do grupo com experiência anterior em barcos), uma médica israelense, um fotógrafo japonês, um restaurador grego, um antropólago uruguaio discípulo de Santiago, uma francesa vaidosa, duas jovens americanas, uma mulher árabe e até um padre católico negro de Angola – além do próprio Santiago, que dizia ter tido a ideia da experiência após ter sido mantido confinado, com outros passageiros, durante dias a fio num avião sequestrado, no México.

O objetivo do antropólogo era fomentar a discórdia entre os participantes, a ponto de fazê-las odiarem umas às outras, e incitar o sexo matrimonialmente condenado.

Para estimular isso, ele mandou construir apenas uma cabine na balsa, ordenou que todos os tripulantes dormissem juntos, intercalou homens e mulheres numa grande cama coletiva, e determinou que o único banheiro a bordo fosse aberto, de forma que não houvesse nenhuma privacidade – todos teriam que fazer suas necessidades diante dos demais, fossem homens ou mulheres.

Também conduzia frequentes “Jogos da Verdade”, nos quais os tripulantes eram obrigados a dizer o que pensavam uns dos outros diante de todos, inclusive sobre com quais gostariam de fazer sexo.

Para fomentar o machismo, Santiago também designou apenas mulheres para as principais funções a bordo, a começar por delegar o comando da balsa à sueca Maria Bjornstam, deixando para os homens apenas as atividades banais, como lavar louça e limpar o barco.

Mas o que Santiago não contava é que ele próprio acabaria se transformando vítima disso.

Vítima do próprio experimento

Em certa ocasião, ao contestar a decisão da comandante que queria aguardar o fim da temporada de furacões no Caribe para prosseguir viagem, Santiago a destituiu do cargo e assumiu o comando da balsa.

Mas logo teve que voltar atrás, quando, no momento mais tenso da viagem, a balsa do grupo por muito pouco não foi atropelada por um navio – o que só não aconteceu porque a sueca demitida manteve a calma e instruiu a equipe para acender tochas de fogo que chamassem a atenção do cargueiro para a presença deles no mar.

O navio desviou a tempo. Mas Santiago teve uma crise nervosa, que comprometeu sua liderança no grupo. Além disso, ele passou a ficar deprimido ao saber das críticas que sua experiência vinha sofrendo na Europa, por conta das notícias sensacionalistas sobre sexo livre, que os jornais vinham publicando.

As conclusões da experiência

Apesar do ambiente mais que propício aos conflitos, ao final da viagem, que durou mais de três meses, a conclusão foi que prevaleceu a tolerância e a boa convivência entre os participantes da experiência.

E apesar das seguidas tentativas de incitação ao sexo (envolvendo, inclusive, o padre angolano), nenhuma orgia foi registrada durante a travessia, embora tenha havido casos esporádicos entre os tripulantes – que, no entanto, ao fim do experimento, retomaram normalmente suas vidas de casados.

A experiência gerou um livro escrito por Santiago e, agora, também um filme, dirigido pelo sueco Marcus Lindeen, que ainda não tem data prevista para estrear no Brasil.

Santiago Genovés morreu seis anos atrás, durante a fase de roteirização do filme, ainda festejado como um dos mais ativos pesquisadores do comportamento humano, apesar dos escorregões na experiência com a balsa.

Mas, para os espectadores de televisão no mundo inteiro, seu maior feito foi ter, indiretamente, inventado o primeiro “Big Brother” da história.

 

Imagens: Divulgação The Raft

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“Foi incrível”, diz francês que atravessou o Atlântico dentro de um barril http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/foi-incrivel-diz-frances-que-atravessou-o-atlantico-dentro-de-um-barril/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/13/foi-incrivel-diz-frances-que-atravessou-o-atlantico-dentro-de-um-barril/#respond Mon, 13 May 2019 17:31:22 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=990

Jean-Jacques ao desembarcar em Martinica, no mar do Caribe (Foto: Lionel Chamoiseau/AFP)

Contrariando expectativas, o aventureiro francês Jean-Jacques Savin conseguiu completar a travessia do oceano Atlântico totalmente à deriva dentro de uma espécie de barril que ele mesmo construiu, sem velas, nem motor e nenhum tipo de propulsão.

Ele havia partido das Ilhas Canárias no dia 26 de dezembro, planejando chegar do outro lado do oceano em cerca de três meses, levado apenas pelos ventos e correntes marítimas, na mais ousada travessia do Atlântico que se tem notícia.

Levou pouco mais de um mês além disso.

Após 122 dias no mar e mais de 5.000 quilômetros percorridos totalmente à deriva, Savin deu por completada a inédita travessia, ao cruzar com seu barril o Meridiano 65 W, usado para delimitar oficialmente o Mar do Caribe dentro do oceano Atlântico.

(Foto: Lionel Chamoiseau/AFP)

Ele, então, fez contato com a Guarda Costeira americana e pediu ajuda, pois temia ser lançado em outras correntes que o levassem na direção norte, para fora do Caribe.

Cinco dias depois, o francês e seu barril foram içados pelo navio petroleiro holandês Kelly Anne e deixado na ilha de St. Eustatios, próxima à Martinica, objetivo final do francês.

De lá, um rebocador conduziu Savin até a possessão francesa, onde ele foi recebido pela mulher, Josiane e por um grupo de amigos, no último fim de semana.

“Foi uma experiência incrível”, resumiu Savin numa entrevista ao jornal americano The New York Times, ao desembarcar e abraçar a mulher e os amigos.

Jean-Jacques Savin é recebido por sua mulher, Josiane, e seu amigo Pierre Glazot (Foto: Lionel Chamoiseau/AFP)

“No meio do oceano, sendo levado por ele, você tem a real sensação do que é liberdade. Não há regras nem ninguém dizendo o que você tem ou não que fazer”.

72 anos de idade

O mais impressionante, no entanto, é que Savin não é nenhum jovem impetuoso e sim um senhor de 72 anos de idade e já avô, embora com um respeitável histórico de aventuras e ousadias no currículo.

O barril no qual ele fez a insólita travessia não passava de uma espécie de rolha, com três metros de comprimento por dois de diâmetro, com uma cama, uma pia (com água extraída do mar e dessalinizada), um fogareiro, um assento e um compartimento para guardar comida desidratada e mais nada.

Além disso, Savin fez a viagem sozinho, sem nenhuma companhia. “Nem caberia outra pessoa no barril”, explicou, bem-humorado, ao partir das Ilhas Canárias, sob a descrença de muitas pessoas.

“Não serei o capitão de um barco e sim um simples passageiro do mar. Ele me levará para onde quiser”, disse Savin, ao partir. E assim ele o fez.

Quatro meses no mar

No navio que resgatou o francês, antes que seu barril errante tomasse outro rumo ou se esborrachasse nas pedras de alguma ilha, Savin tomou o primeiro banho em mais de quatro meses e, quando perguntado sobre o que gostaria de comer, pediu apenas dois ovos fritos.

Na ocasião, ele também comentou que o melhor momento da travessia foi quando, após 62 dias no mar, foi socorrido pelo navio americano Ronald Brown que lhe forneceu comida e frutas, quando Savin percebeu que não conseguiria completar a jornada nos três meses que havia planejado.

“Os primeiros passos no convés do navio foram bem difíceis”, recorda, rindo. “Eu parecia bêbado. Não conseguia andar em linha reta e precisei da ajuda de dois homens para subir as escadas e conversar com o comandante. Eu, praticamente, precisei reaprender a caminhar”.

Apesar da extensão da jornada e da dieta à base apenas de comida desidratada e peixe fresco (quando conseguia capturar algum), Savin perdeu apenas quatro quilos durante a travessia. “Ele chegou bem de saúde, mas, mesmo assim, sugeri que fizesse um checkup completo”, disse um dos amigos que foram recepcioná-lo na Martinica, o médico francês Pierre Galzot.

Quase foi atropelado

Durante a jornada, Savin cruzou com outros navios, mas nem todos de maneira tão tranquila. “Por duas vezes, quase fui atropelado por eles. Um deles só me viu porque eu disparei foguetes sinalizadores quando ele já estava prestes a passar por cima do meu barril”, recorda.

Mesmo assim, Savin garante que em momento algum pensou em desistir da sua louca travessia. Também garante que não sentiu medo nem solidão.

“Eu queria justamente ficar sozinho”, explicou. “A solidão me faz bem, me faz permanecer ativo e jovem”, disse o dono da ideia de cruzar o Atlântico da maneira mais natural possível – ou seja, sendo levado pelo próprio oceano.

“Aproveitei a viagem para escrever um livro sobre a travessia, que sairá em agosto. Também li bastante, incluindo uma versão compacta da Bíblia, porque para lê-la inteira eu precisaria ter atravessado um oceano maior que o Atlântico”, brincou. “Na verdade, o tempo passou bem rápido”, completou.

A inspiração para a insana travessia de Savin veio da ousadia de outro francês, o médico Alain Bombard, que, em 1952, também cruzou o Atlântico sozinho com um bote de borracha, sem água nem comida a bordo. Ele sobreviveu bebendo água do mar e comendo apenas os peixes crus que capturava. A experiência rendeu um livro, chamado Náufrago Voluntário, e fama mundial a Bombard, que, desde então, virou ídolo de Savin.

“Eu era garoto quando li o livro que ele escreveu e aquilo nunca mais saiu da minha cabeça. Virou o meu sonho fazer algo igual, e, agora, eu fiz”, disse, feliz, o septuagenário francês.

Novas ousadias

Sonho realizado? Sim, mas Savin agora tem outros.

Quer atravessar o Canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França, à nado e, se conseguir patrocinadores, também cruzar à deriva, com um barril do mesmo tipo, o maior oceano do mundo, o Pacífico, algo igualmente jamais tentado. “Deve levar uns seis meses”, estima.

Depois de colocar seu barril num navio de volta à Europa, o homem que se deixou ser levado pelo mar embarcou num avião e retornou à França, onde, entre outras atividades, irá participar de estudos sobre o comportamento humano durante longos períodos em espaços reduzidos. Tema no qual ele, agora, se tornou especialista.

Fotos: Divulgação e AFP

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“Achei que não daria”, diz a brasileira que surfou a onda que virou recorde http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/09/achei-que-nao-daria-diz-a-brasileira-que-surfou-a-onda-que-virou-recorde/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/09/achei-que-nao-daria-diz-a-brasileira-que-surfou-a-onda-que-virou-recorde/#respond Thu, 09 May 2019 12:00:49 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=975

Andrea surfando a onda que lhe rendeu o recorde mundial feminino (foto: Fred Pompermayer/Reprodução/Instagram)

Na semana passada, uma brasileira entrou para o Livro dos Recordes por um motivo impressionante: surfou a maior onda já enfrentada por uma mulher, depois de entrar nela remando, o que faz muita diferença.

A façanha aconteceu num lendário ponto de surf na ilha de Maui, no Havaí, conhecido como “Jaws” (“mandíbulas”, em inglês), numa alusão à violência das ondas, ali similares a mordidas de tubarões.

A extraordinária parede de água alcançou 13 metros de altura, o equivalente a um prédio de quatro andares.

“Achei que não daria, mas, naquele dia, a minha autoconfiança foi maior que o receio”, recorda a paulista Andrea Moller, autora da façanha.

O feito rendeu a Andrea não apenas a entrada no Livro dos Recordes como, também, o prêmio de surfista do ano na categoria Ondas Grandes com remada, uma espécie de Oscar para os surfistas das maiores ondas do planeta.

(foto: Fred Pompermayer/Reprodução/Instagram)

Ela estabeleceu o recorde

Não foi, porém, a primeira vez que ela ganhou este prêmio, que também foi vencido pela brasileira Maya Gabeira, em outra modalidade.

Em 2016, Andrea também foi premiada como a melhor surfista de ondas grandes do ano, por sua performance geral. “Mas, agora, foi ainda melhor, porque oficializou o recorde”, diz Andrea.

“Na verdade, eu não bati o recorde. Eu fiz o recorde, porque, daqui em diante, será ele que servirá de referência para quem quiser tentar quebrá-lo”, completa, entusiasmada.

39 anos e mãe

Uma jovem menina maluquinha que arrisca a própria vida para ficar famosa? Pois Andrea Moller não é nada disso.

Ela é o oposto do que se possa imaginar de uma surfista fissurada por ondas com muitas vezes a sua altura. É casada, tem 39 anos, trabalha como paramédica na ilha de Maui, onde vive com o marido, e tem uma filha, de 16 anos – que não é surfista.

“A surfista da casa é a minha mãe”, diz a filha Keala, cujo o máximo que pratica na água são pacatas partidas de polo aquático, e que diz ficar “um pouco nervosa” quando vê a mãe despencar do alto de muralhas d’água capazes de trucidar surfistas desafortunados.

(foto: Richard Hallman/Reprodução/Instagram)

“Ela sempre foi auto-suficiente e destemida”, diz o irmão Marcos Moller, que, junto com o pais, administra uma marina em Ilhabela, no litoral de São Paulo, onde Andrea foi criada.

“Ela é uma ‘casca-grossa’, como dizem os surfistas”, resume o irmão da grande atleta, que, por aqui, poucos conhecem.

“No Havaí, todos os grandes surfistas ajoelham para ela passar. Lá, ela é uma personalidade. Mas, aqui no Brasil, poucos já ouviram falar de Andrea Moler, até porque ela não faz questão de ser famosa. Ela surfa ondas enormes apenas porque gosta”, diz o irmão da recordista.

Andrea concorda. Diz que, para ela, nada se compara à sensação que sente quando começa a remar na direção de uma onda monstruosa.

“Quando entro na onda, nada mais importa. A adrenalina jorra no corpo e o foco passa a ser totalmente na manobra. A cabeça limpa e não penso em mais nada. Só em não cair e não ser engolido por ela”, diz Andrea.

“Já até tentei mudar de modalidade, me dedicar a ondas menores, mas, para mim, não é a mesma coisa”, diz Andrea, que nada tem do esteriótipo padrão dos surfistas – é responsável, não usa muitas gírias e ganha a vida salvando vidas em acidentes de trânsito na ilha de Maui.

Andrea mora no Havaí (foto: Reprodução/Instagram)

“Surfar ondas grandes é, para mim, um estilo de vida e um exercício de autoconfiança e responsabilidade. Só entro numa onda dessas quando tenho certeza de que poderei domá-la”, diz a surfista, que, no entanto, já sofreu alguns acidentes.

No pior deles, também no Havaí, onde vive há 21 anos, teve que passar por cirurgias e ficou três meses de cama, após deslocar toda a musculatura da bacia, ao cair numa grande onda. “Minha filha ficou cuidando de mim, em casa”, diz Andrea, que começou a surfar esse tipo de onda justamente quando a filha havia acabado de nascer.

Pioneira entre as mulheres

Ela foi, também, a primeira mulher do mundo a se especializar em surfar ondas gigantescas, o que acabou por levar à criação da própria modalidade feminina no Campeonato Mundial do gênero, chamado de “XXL” (sigla para tamanho “extra extra-large”, em inglês), numa referência ao tamanho descomunal das ondas no qual é disputado.

“Fui pioneira, mas fiz isso apenas porque gostava de surfar as ondas que só os melhores homens conseguiam. Não tinha intenção de criar nada”, diz Andrea.

“Já que a categoria feminina foi criada, agora luto para que as meninas ganhem os mesmos prêmios em dinheiro que os meninos, já que nós surfamos as mesmas ondas que eles”, completa.

Categoria mais difícil

Dentro do surf em ondas gigantes, a modalidade na qual Andrea se tornou especialista é justamente a mais difícil de todas: a ”paddle inn”, ou “entrada com remada”, quando o surfista usa apenas a força dos próprios braços para se posicionar diante da onda. Na outra modalidade, um jet ski coloca o surfista na melhor posição, o que facilita a vida de quem está na prancha.

“O paddle inn era considerado loucura nesse tipo de onda, mas, para mim, ele apenas exige mais técnica”, diz a brasileira, que hoje é venerada como uma das maiores surfistas da história do Havaí – reconhecimento confirmado com o prêmio pelo recorde na semana passada.

Ondas ainda mais loucas

Ondas gigantescas são fenômenos relativamente comuns no Havaí, a Meca mundial do surf. Mas também acontecem em outros lugares do planeta. Inclusive no mar aberto, longe de qualquer praia.

Batizadas de “Freak Waves”, ou “Ondas Loucas”, porque surgem de repente e sem nenhum motivo aparente, as ondas gigantes no meio do oceano já produziram muitos mistérios e tragédias.

Mas, para a destemida brasileira Andrea, quanto maior for a muralha d’água à sua frente, maior será a sua diversão no mar.

 

Fotos: Fred Pompermayer, Divulgação WSL e Arquivo Pessoal

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“Foi um vento de furacão”, diz ex-secretário de Ilhabela. Veja imagens http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/01/foi-furacao-nao-tempestade-diz-ex-secretario-de-ilhabela-veja-imagens/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/05/01/foi-furacao-nao-tempestade-diz-ex-secretario-de-ilhabela-veja-imagens/#respond Wed, 01 May 2019 20:10:58 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=962

Quatro dias depois da inédita tempestade que atingiu Ilhabela, na tarde de domingo passado, os moradores da ilha e os donos de barcos ainda contabilizam os estragos – que não foram poucos.

Além da trágica morte da modelo Caroline Bittencourt, que se afogou durante a tempestade, nada menos que uma dúzia de barcos foram arremessados de encontro às praias da ilha, pelo menos um deles afundou por completo, e outro, de pequeno porte, invadiu um posto de gasolina, depois de “voar” por cima da principal avenida da ilha, como pode ser visto no vídeo abaixo.

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Também dois navios foram arrancados do porto de São Sebastião, bem em frente à Ilhabela, e ficaram perigosamente à deriva no meio do canal que separa os dois municípios. Um tripulante morreu no episódio.

“Nunca vi nada igual”, disse o ex-secretário de turismo de Ilhabela, Ricardo Fazzini, nascido e criado na ilha, dono de uma escuna que também foi parar na praia, depois de ter os cabos arrebentados. “Já retiramos 300 árvores caídas, só na parte urbanizada da ilha. Foi muito violento e sem precedentes na história da ilha”.

“Foi vento de furacão”

Em Ilhabela, os ventos de domingo à tarde chegaram a 127 km/h, o que supera a categoria de uma simples tempestade. “Acima de 119 km/h, o vento já é igual ao de um furacão grau 1, e foi isso que passou pela ilha”, diz Fazzini.

“Quem achava que não existia isso no mar do Brasil agora vai ter que rever seus conceitos”.

 

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O que contribuiu para que o vendaval fosse ainda mais violento no canal de Ilhabela do que em qualquer outra parte do litoral paulista foi a própria topografia da ilha, que tem picos que passam dos 1.300 metros de altura e próximos dos maciços da Serra do Mar.

“As altas montanhas de Ilhabela canalizam os ventos e potencializam a intensidade deles no canal, que, por ser estreito, vira uma espécie de funil”, explica Marcos Möller, dono da principal marina da ilha, a Porto Ilhabela.

“É por isso que Ilhabela é considerada a Capital da Vela. Aqui, sempre tem mais vento do que nas outras partes do litoral. Só que, neste caso, houve vento demais ”, explica.

“A maioria dos donos de barcos esperava ventos entre 60 e 70 km/h e veio quase o dobro disso”, diz Marcos, que, tal qual todas as marinas da região, também recebeu um alerta da Marinha, na véspera.

“Na nossa marina, nós não deixamos o pessoal sair para passear de barco, porque sabíamos que os ventos seriam fortes. Mas, infelizmente, nem todo mundo leva os alertas à sério”.

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Desespero na tragédia

Dias depois, as versões sobre o acidente que custou a vida da modelo Caroline Bittencourt também se propagam na ilha.

Uma delas prega certa imprudência do casal, ao tentar atravessar o canal com uma pequena lancha, de pouco mais de cinco metros de comprimento, quando os ventos já haviam começado.

“Eles não foram pegos de surpresa pelo vento, como outros barcos foram”, prega um experiente navegador. “Eles devem ter pegado uma onda de través que desequilibrou o barco, ela caiu na água, e ele, em vez de voltar com a lancha para resgatá-la, se atirou no mar para tentar salvá-la. Mas, por causa das ondas, a perdeu de vista”, diz.

Outro vídeo igualmente dramático mostrou o resgate de uma família, incluindo um bebê de nove meses, após a lancha na qual eles estavam ter afundado numa das pontas da ilha. E incluiu o depoimento emocionado do pescador que os resgatou.

No Saco da Capela, tradicional ancoradouro de lanchas de veleiros na ilha, a situação foi assustadora, com vários barcos se soltando das boias e indo dar na praia, nem todos em perfeito estado e alguns depois de colidir com outros barcos.

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Também no Yacht Club de Ilhabela, alguns píeres se soltaram e bateram nos barcos, gerando danos em meia dúzia deles.

“Foi apavorante o que aconteceu na ilha”, resume o ex-secretário Fazzini.

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Únicos habitantes de um paraíso: os porcos nadadores das Bahamas http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/04/27/unicos-habitantes-de-um-paraiso-os-porcos-nadadores-das-bahamas/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/04/27/unicos-habitantes-de-um-paraiso-os-porcos-nadadores-das-bahamas/#respond Sat, 27 Apr 2019 12:00:38 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=949

(foto: iStock)

Os turistas que visitam a maravilhosa praia de Big Major’s Cay, no meio do Caribe, costumam ter uma grande surpresa quando se aproximam da areia: dezenas de porcos correm para o mar e nadam até os barcos, a fim de recepcionar os visitantes e trocar a inusitada experiência de ver porcos nadando em uma água cristalina por um pedaço de pão ou qualquer tipo de comida.

Os porquinhos são os únicos habitantes desta estupenda ilha, no arquipélago Exumas, a cerca de 130 quilômetros de Nassau, capital das Bahamas. Mas viraram o principal motivo para tanta gente querer ir até a “Ilha dos Porcos”, como Big Major’s Cay passou a ser conhecida.

Todos os dias chegam diversos barcos com turistas, ansiosos pelo encontro com os porcos nadadores mais famosos do planeta. E eles estão sempre na areia da praia, à espera das guloseimas que os visitantes trazem.

(foto: iStock)

Quando os barcos surgem no horizonte, os animais entram no mar e começam a nadar, na direção deles. Depois, ficam nadando em torno das lanchas, até que sejam recompensados com algum alimento.

Quando os turistas desembarcam e nadam até a praia, os porcos os seguem e a calorosa recepção continua na areia, com cafunés em troca de qualquer coisa comestível.

(foto: iStock)

 

Vítimas em um paraíso

Os turistas vibram. Mas a verdade é que a cena não é assim tão fofa: os porcos de Major’s Cay passam extremas necessidades, porque não há alimento para eles naquela ilha magnífica, porém deserta.

Nos casos mais extremos, os animais chegam a perseguir (sem, contudo, atacar) os turistas na praia, porque sabem que suas mochilas escondem o único alimento que eles têm para o dia.

(foto: iStock)

A necessidade também os ensinou a nadar, o que não é nada comum entre os porcos, animais que sempre preferiram a lama à água – sobretudo a salgada.

Os porcos desta praia são quase uma evolução da espécie, porque não só aprenderam a nadar no mar como não temem nem os tubarões que costumam habitar as águas das Bahamas.

(foto: iStock)

Ninguém sabe ao certo como aqueles porcos foram parar naquela ilha deserta. O mais provável é que alguns exemplares tenham sido deixados ali por marinheiros no passado, para servirem de alimento em caso de naufrágios. E, apesar das dificuldades, tenham procriado.

Em seguida, passaram a associar os barcos que ali chegavam como fontes de alimentos, e logo descobriram que agradar os turistas é algo que sempre rende dividendos.

(foto: iStock)

Na longa praia deserta, eles seguem os visitantes feito cachorrinhos, permitem todo tipo de carícias e só faltam deitar de barriga para cima para ganhar um pedaço de pão ou salgadinho.

Conhecer os porcos nadadores de Major’s Cay tornou-se um dos programas mais populares das ilhas Exumas. E um motivo a mais para os turistas voltarem para casa abismados com o incrível mar cristalino das Bahamas, onde a última coisa que alguém poderia esperar encontrar seriam porcos nadando num mar com cor de piscina.

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Um mês depois, corpos de pescadores seguem no fundo do mar. E nada acontece http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/04/20/um-mes-depois-corpos-de-pescadores-seguem-no-fundo-do-mar-e-nada-acontece/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/04/20/um-mes-depois-corpos-de-pescadores-seguem-no-fundo-do-mar-e-nada-acontece/#respond Sat, 20 Apr 2019 12:00:39 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=938

Enquanto batalhões de bombeiros buscam, há dias, vítimas do desabamento de dois prédios no Rio de Janeiro, familiares de dois humildes pescadores aguardam, há mais de um mês, que alguém decida resgatar os corpos de Inácio Patriota e Luiz Alves Miranda, mortos no naufrágio do pesqueiro Odelmar II, no final de fevereiro, nas imediações da Ilha Queimada Grande, no litoral sul de São Paulo.

“A Marinha diz que isso é responsabilidade do dono do barco e o dono do barco diz que não tem dinheiro para ir buscar o corpo do meu marido”, diz, resignada, a esposa de uma das vítimas, Lucilene Patriota, que, junto com os dois filhos, Wellington, 23, e Guilherme, 17, vive o tormento de não poder por um fim na história do marido morto, porque lhe falta o corpo.

“Agora, tudo o que eu quero é poder dar um enterro digno ao meu marido, mas para isso dependo que alguém vá lá resgatar o corpo, que ficou preso dentro do barco”.

“Sem o corpo, eu não consigo tirar o atestado de óbito, nem pedir o seguro de vida que ele tinha. E o nosso dinheiro está acabando”, diz a viúva do pescador, que tinha 38 anos e não conseguiu sair do pesqueiro a tempo. Hoje Lucilene vive de vender lanches nas praias do Guarujá, onde vive, agora só com os dois filhos.

“Além disso, meu filho mais novo, que era muito apegado ao pai, vive dizendo que só vai acreditar que ele morreu quando ver o corpo, que todo mundo sabe onde está, mas ninguém vai buscar”, diz, indignada.

Mesmo drama em outra casa

A mesma aflição vive a família da segunda vítima do naufrágio, o mestre Luiz Alves Miranda, de 62 anos, cujo corpo também afundou junto com o barco.

“Eu queria fazer um enterro decente, mas, para o dono do barco, é mais conveniente que o corpo não seja resgatado, porque sem uma prova da morte fica mais difícil pra gente pedir uma indenização”, diz Marli, ex-companheira do pescador, que vive em Navegantes, no litoral de Santa Catarina, com os três filhos do casal, Paolo, André e João Gabriel, com idades entre 13 e 28 anos. Os três outros filhos de Luiz, Daiane, Fabiano e Luiz, vivem no Rio Grande do Sul.

“Quando aconteceu o naufrágio, o dono do barco levou três dias pra avisar e, agora, já está há mais de um mês sem tomar nenhuma providência para resgatar os corpos. É um completo descaso”, diz Marli, revoltada com a demora e o pouco caso também das autoridades.

“Como o dono do barco não quer pagar mergulhadores para ir lá retirar os corpos, nada acontece”.

Pouco mais de um mês atrás, a Marinha localizou o barco naufragado, a 38 metros de profundidade, a cerca de três quilômetros da Ilha Queimada Grande, e avisou o proprietário, a quem cabe a responsabilidade pelo resgate. Mas como se trata de uma operação delicada, dada a profundidade em que o barco se encontra, a Marinha exigiu uma série de procedimentos de segurança, que custam dinheiro. “E aí a coisa pegou”, diz Marli.

Dono do barco, Alex Lopes Diaz desconversa quando perguntado sobre o que pretende fazer para resgatar os ex-funcionários mortos. “Não sei responder”, diz apenas, dando a conversa por encerrada.

Três dias numa ilha selvagem

O naufrágio do pesqueiro Odelmar II aconteceu na noite de 28 de fevereiro, quando duas ondas em sequência fizeram o barco capotar e imediatamente afundar, quando se aproximava da deserta Ilha de Queimada Grande, famosa por abrigar uma quantidade extraordinária de cobras venenosas, de uma espécie que só existe lá.

Foi justamente para a ilha que os quatro sobreviventes do naufrágio, todos também pescadores, seguiram, depois de passarem a noite inteira nadando. Lá, eles ficaram três dias sem água nem comida, abrigados numa espécie de gruta, até que foram avistados por uma lancha que levava mergulhadores para a região.

“A gente via umas bananeiras na ilha, mas, como sabia das cobras, não arriscava ir até elas”, contou, ao ser resgatado, Iranildo Rodrigues, um dos quatro sobreviventes, que também tentou puxar os companheiros para fora do barco, no momento do acidente.

“O Luiz chegou a sair da cabine, mas o barco tombou sobre ele”, recorda. “Eu queria mergulhar e puxá-lo, mas os meus companheiros não deixaram, porque eu teria morrido junto. Foi tudo muito rápido. Agora, todo dia eu oro pelo reconforto dos familiares. Não ter um corpo para enterrar, mesmo sabendo onde ele está, é triste demais”, completa Iranildo, que junto com os demais sobreviventes foi demitido em seguida ao naufrágio.

“O dono do barco disse que não tinha mais um barco pra gente trabalhar e demitiu todo mundo”, diz Elenilson da Silva, outro sobrevivente da tragédia, que, ao contrário do desabamento dos prédios cariocas, até agora não mobilizou ninguém para resgatar os corpos dos dois pescadores.

“Será que não vou poder me despedir do meu marido?”, diz, desconsolada, a viúva Lucilene.

 

Fotos: Reprodução e Paradise Sub/Fábio Drago

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