Histórias do Mar http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos Sat, 04 Jul 2020 22:58:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 O ermitão que passou 15 anos sozinho numa ilha deserta e fez história http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/07/04/o-ermitao-que-passou-15-anos-sozinho-numa-ilha-deserta-e-fez-historia/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/07/04/o-ermitao-que-passou-15-anos-sozinho-numa-ilha-deserta-e-fez-historia/#respond Sat, 04 Jul 2020 07:00:27 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2267

Exatos 50 anos atrás, a vontade de viver uma vida simples e em paz com natureza numa ilha deserta levou o neozelandês Thomas Neale a se transformar, por livre e espontânea vontade, em uma espécie de Robinson Crusoé de carne e osso – um tipo de “náufrago voluntário”, que acabaria se tornando bastante famoso na região do Pacífico Sul, nos anos de 1970.

Tudo começou 30 anos antes, quando Tom Neale conheceu o escritor e aventureiro americano Robert Frisbie, que lhe contou sobre um paraíso que conhecera tempos antes: o deserto atol Suvarov, a noroeste das Ilhas Cook, no sul do Pacífico.

Neale jamais havia ouvido falar daquele lugar, mas ficou fascinado com a descrição minuciosa que o amigo lhe fez do local: “18 ilhotas  com vegetação cor de esmeralda, em torno de uma lagoa incrivelmente azul”, resumiu o escritor, que finalizou com uma frase que soou como música nos ouvidos do neozelandês, já farto da vida sem graça que levava: “É o lugar mais lindo da Terra”.

Objetivo de vida

A partir daquele dia, ir para Suvarov e viver da maneira mais natural possível passou a ser único objetivo na vida de Neale, já então com mais de 40 anos de idade.

Mas foi só em junho de 1945, quando Neale trabalhava em um barco de carga, que ele, finalmente, conheceu Suvarov, depois de convencer o comandante do barco a desviar a rota até lá.

E o que ele viu o convenceu de vez: aquele era o lugar onde queria viver. E sozinho, já que o atol, além de isolado, era desabitado.

A ilha principal tinha apenas um casebre abandonado, onde, no passado, haviam vivido alguns guardas que cuidavam do atol.

Mas ele conclui que aquilo era tudo o que precisava.

Ao retornar, Neale pediu autorização ao governo das Ilhas Cook, a quem o atol pertencia, para viver lá.

Mas teve que esperar sete anos para ter seu pedido aceito.

Quando isso aconteceu, ele convenceu o dono de um barco a levá-lo até Suvarov e por lá ficou – sozinho, como queria, e com o mínimo de recursos, porque o objetivo era viver apenas com o que a ilha oferecia.

Tom Neale chegou a recusar a companhia de uma mulher, que se ofereceu para viver com ele na ilha, porque tudo o que queria era o completo isolamento. Além de realizar o sonho de ter sua própria ilha.

Sempre nu

Quando Neale chegou à Suvarov, sua primeira providência foi tirar toda a roupa e passar a viver nu.

Em seguida, saiu para capturar o almoço, o que ali era fácil.

As águas azuis da lagoa de Suvarov eram um autêntico aquário, repletas de peixes, caranguejos e lagostas – que ele capturava facilmente, com as próprias mãos.

Como não tinha como estocar comida, capturava apenas o que iria comer, com a certeza de que peixes e frutos do mar jamais lhe faltariam.

Em terra-firme, Neale criou uma horta, com algumas sementes que havia trazido, e passou também a se alimentar com ovos de aves marinhas e de algumas galinhas que os antigos guardas haviam deixado na ilha.

Em questão de meses, já estava totalmente adaptado à vida solitária no seu paraíso particular.

Os primeiros visitantes só apareceram dez meses depois.

Era um casal de velejadores americanos, que ficaram surpresos por encontrar aquele ser civilizado em solitário naquela ilha deserta.

Preocupados, tentaram persuadir Neale a voltar à civilização.

Mas ele disse “não!” – aquela ilha era tudo o que ele queria ter na vida, e, agora, ele tinha.

Dias depois, o casal partiu, mas passou a propagar para o resto do mundo a existência do “Eremita de Suvarov”, como Neale passou a ser conhecido.

Todos queriam conhecê-lo

Logo, outras pessoas queriam conhecê-lo.

Mas só meses depois, outro barco, com dois jovens velejadores, parou na ilha. E eles foram a salvação de Neale.

Diz antes, o neozelandês havia trincado uma das vértebras da coluna e estava imobilizado no casebre, sem conseguir sequer sair para buscar comida.

Os velejadores comunicaram o fato às autoridades das Ilhas Cook, que enviou um barco para buscar Neale.

Mas, irritados, cassaram a sua licença de permanência na ilha.

Neale levou mais seis anos para conseguir uma nova autorização.

Jogou o dinheiro fora

Nesse intervalo, conheceu uma mulher, se apaixonou, casou e teve dois filhos.

Mas não era isso o que Neale queria para sua vida – e sim voltar para a ilha.

Em março de 1960, ele conseguiu nova autorização para viver em Suvarov e partiu de novo, deixando para trás, sem maiores remorsos, a família.

Lá chegando, encontrou um bilhete, deixado por um navegador que passara pela ilha, juntamente com uma cédula de 20 dólares.

Era o pagamento pelas verduras e galinhas que o visitante havia consumido.

Neale jogou o dinheiro fora. Ali, ele nada valia.

Escreveu um livro

A segunda permanência de Neale em Suvarov durou três anos e terminou quando o movimento no atol começou a crescer, por conta da própria fama que ele ganhara mundo afora.

Todos queriam visita-lo. Sobretudo repórteres.

Além disso, outras ilhotas de Suvarov passaram a ser freqüentadas por pescadores e caçadores de pérolas, o que roubou de vez a paz do neozelandês.

Desgostoso, Neale decidiu ir embora.

Embarcou em um dos barcos que passou pela ilha e foi viver na capital das Ilhas Cook, onde decidiu escrever um livro sobre sua experiência solitária.

Mas, enquanto escrevia, começou a sentir saudades da vida que levava.

E decidiu retornar à Suvarov, pela terceira vez, novamente sozinho.

Cartas do mundo inteiro

Desta vez, apesar da idade já avançada, Neale ficou dez anos isolado na ilha, recebendo apenas uma ou outra visita esporádica.

Mas passou a receber cartas do mundo inteiro, que, duas vezes por ano, eram deixadas na ilha por um barco do governo, que trazia de volta as respostas das cartas anteriores, que Neale escrevia, uma a uma.

Neale tornou-se um daqueles seres exóticos do planeta.

E tamanha popularidade acabou de vez com a sua privacidade.

Tom Neale só queria paz e sossego quando decidiu viver naquela ilha deserta. Mas a fama que isso lhe trouxe acabou com o seu sonho

Nunca mais voltou

Para completar o cenário, no início de 1977, Neale passou a sofrer de frequentes dores no estômago e pediu ajuda, quando já somava 75 anos de idade.

Um barco, então, o levou para um hospital, de onde ele nunca mais saiu.

Tom Neale morreu em 30 de novembro daquele ano, e seu corpo, contrariando o bom senso, foi sepultado em um banal cemitério da capital das Ilhas Cook – e não na ilha que tanto amava e onde passou 15 anos de sua vida em solitário.

Anos depois, em Suvarov, foi colocada apenas uma placa, dizendo que ali ele “vivera o seu sonho”.

Inspirou outros a fazerem o mesmo

A história de Tom Neale, no entanto, serviu de inspiração para outros aventureiros fazerem o mesmo, mundo afora.

Um deles, o japonês Masafumi Nagasaki, foi ainda mais longe e passou 30 anos sozinho em uma ilha deserta, na costa do Japão, até ser retirado, à força, dois anos atrás, quando já somava 82 anos de idade, e enviado para uma espécie de asilo, na cidade de Ishigaki – onde, amargurado, está até hoje, ainda sonhando em voltar para sua ilha e morrer em paz (clique aqui para conhecer este outro caso de um quase náufrago voluntário).

Meio século depois, a ousadia de Tom Neale fez História.

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77 anos depois, lancha de Kennedy reaparece soterrada na lama em Nova York http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/27/77-anos-depois-lancha-de-kennedy-reaparece-soterrada-na-lama-em-nova-york/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/27/77-anos-depois-lancha-de-kennedy-reaparece-soterrada-na-lama-em-nova-york/#respond Sat, 27 Jun 2020 07:00:54 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2251

Fotos: John F. Kennedy Library

Quase cinco décadas após ter sido abandonado nas margens do Rio Harlem (na parte norte da ilha de Manhattan, onde fica Nova York), e 77 anos depois ter protagonizado ações militares sob o comando de um jovem tenente, os restos de um velho barco emergiram da lama durante uma obra de contenção contra enchentes, conduzida pela empresa de metrô da maior cidade dos Estados Unidos.

Teria sido apenas um inconveniente contratempo no serviço, caso o apodrecido barco não fosse o que restou de uma lancha de patrulha militar usada pela Marinha dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, logo identificada como sendo a PT59.

E não haveria nada demais nisso, não fosse o nome de quem havia comandado aquele barco, naquela época: o então tenente John Fitzgerald Kennedy, que, anos depois, se tornaria o mais carismático presidente dos Estados Unidos de todos os tempos.

Havia sido abandonada

A identificação do barco foi feita através de um número de registro gravado no que restou do casco de aço carcomido pelo tempo, e também pela garantia do biógrafo americano William Doyle — autor de um livro sobre a participação de Kennedy na Guerra –, que, tão logo viu os destroços, disse ter 99,99% de certeza de que se tratava dos escombros da histórica lancha.

E era ela mesmo, embora estivesse abandonada e soterrada pela lama do imundo canal desde de, pelo menos, meados da década de 1970, quando foi abandonada pelo seu último dono — um modesto professor que não tinha onde morar e transformara o velho barco em sua casa.

Nem a Marinha sabia

Antes disso, sem saber o relevante detalhe do passado histórico do barco, a ex-lancha comandada por Kennedy, que fora vendida pela Marinha Americana como simples resto de guerra, nos anos 50, já havia virado barco de aluguel para pesca.

Além disso, foi vítima de vandalismo, quando foi quase destruída por um incêndio provocado por arruaceiros do então perigoso bairro nova-iorquino do Harlem, onde, por fim, seus restos foram descobertos acidentalmente por um guindaste há duas semanas.

Destino será um museu

Agora, depois de recolhidas todas as partes que puderam ser resgatadas da lama, o futuro da “Lancha de Kennedy”, como passou a ser chamada, ainda é incerto.

O mais provável é que vá para um museu, talvez o Battleship Cove, em Fall River, Massachusetts, ou o John F. Kennedy Presidential Library and Museum, em Boston, que já guarda boa parte do acervo do icônico presidente americano.

Foto: John F. Kennedy Library

A lancha encontrada soterrada na parte norte do Rio Harlem, bem ao lado das ruas do bairro, foi usada por Kennedy na região das Ilhas Salomão, entre agosto e outubro de 1943.

Em uma das missões, Kennedy, que comandava o barco, chegou a resgatar dez fuzileiros navais americanos, que estavam acuados pelos inimigos japoneses numa ilha.

Mas, logo em seguida, diagnosticado com exaustão física e mental, ele foi mandado de volta aos Estados Unidos, para tratamento.

Um herói de guerra

Antes disso, porém, quando ainda estava no comando de outra lancha torpedeira, a PT-109, Kennedy protagonizou um feito bem mais relevante, que o içou a categoria de herói, e lhe valeu a medalha do mérito da Marinha Americana.

Foi quando, após sua lancha ser atropelada por um navio japonês em alto mar e afundado, Kennedy liderou seus homens com bravura, tanto no mar quanto na ilha deserta onde o grupo se abrigou, até a salvação de todos eles.

Como em um roteiro de filme de aventura, Kennedy precisou até escrever um pedido de socorro na casca de um coco para conseguir tirar seus homens da ilha onde ficaram abrigados, depois de passarem um dia e uma noite boiando no mar (clique aqui para conhecer essa história, que, mais tarde, acabaria sendo decisiva para Kennedy se eleger presidente)

Com o fim da guerra, Kennedy entrou para a política e, amparado pelos seus feitos heroicos no comando dos dois barcos, foi eleito com facilidade – até ser assassinado, por um fanático, em 1963.

Ali terminou a vida de John Fitzgerald Kennedy. Mas não a sua história, como comprovou a descoberta do seu antigo barco, num esquecido lamaçal em plena Nova York, quase oito décadas depois.

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Resgate do rádio do Titanic revolta famílias de vítimas e arqueólogos http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/20/resgate-do-radio-do-titanic-revolta-familias-de-vitimas-e-arqueologos/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/20/resgate-do-radio-do-titanic-revolta-familias-de-vitimas-e-arqueologos/#respond Sat, 20 Jun 2020 07:00:03 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2232

Em recente decisão, uma juíza americana permitiu, pela primeira vez, que a empresa dona dos direitos de resgate de objetos do Titanic remova o aparelho de rádio do lendário transatlântico. O fato acaba de desencadear uma nova e intensa polêmica.

Inconformados com a sentença de Rebecca Smith, arqueólogos, parentes das vítimas do naufrágio mais famoso da História, entidades preservacionistas e o próprio governo dos Estados Unidos se uniram contra a medida.

“Os escombros do Titanic são protegidos como bens culturais por convenções internacionais e não podem ser violados”, diz o advogado Kent Porter, que defende o governo americano e é autor de um recurso que acaba de ser feito contra a decisão da juíza. “Isso só poderia ser feito com a aprovação do Secretário de Comércio dos Estados Unidos”, alega.

Motivação comercial

Já os arqueólogos defendem outros pontos bem mais relevantes do que meros procedimentos jurídicos para condenar a operação de retirada do aparelho de rádio do navio, afundado na madrugada de 15 de abril de 1912 depois de colidir com um iceberg no Atlântico Norte.

“O mundo já sabe tudo o que precisa saber sobre aquele tipo de rádio, bem como o conteúdo das mensagens com os pedidos de socorro que foram enviados durante o naufrágio. Então, a única motivação para o resgate do aparelho seria o interesse comercial, para exibir o rádio como atração turística, e, mais tarde, vendê-lo para algum colecionador de raridades”, diz um especialista em arqueologia submarina. “E isso pode encorajar outras pessoas a extrair ainda mais coisas do interior do Titanic”.

“Violação de sepultura”

Os descendentes das vítimas do naufrágio, por sua vez, são contra a remoção do aparelho porque veem nisso a violação de algo que deve ser encarado como sagrado.

Para eles, os restos do Titanic são como um cemitério – e, portanto, não pode ser violado.

 “É preciso tratar com respeito o local onde mais de 1 500 almas descansam”, diz o parente de uma das vítimas do naufrágio. “Não é certo abrir uma sepultura para remover algo de dentro dela”.

A mensagem final

O que torna o rádio do Titanic tão icônico – e valioso, sob todos os aspectos – é que foi graças a ele que o mundo ficou sabendo do naufrágio do navio e as circunstâncias que o levaram para o fundo do mar, causando a morte de 1 517 pessoas.

Foi daquele aparelho que partiram os desesperados pedidos de socorro do transatlântico naquela trágica noite, cuja última mensagem foi um dramático pedido feito aos outros navios pelo operador do rádio que, agora, está no centro de intensa polêmica: “Venham rápido!”.

Em seguida, a casa de máquinas do Titanic inundou, o navio ficou sem energia, o rádio emudeceu e os infelizes ocupantes do luxuoso transatlântico condenado perderam o único contato que tinham com o restante do mundo.

A última voz do Titanic

Esta é a razão da relevância daquele rádio (hoje batizado de “A última voz do Titanic”) que, agora, uma empresa particular garante que irá resgatar do fundo do mar, embora até o governo dos Estados Unidos seja contra isso.

“Estamos dependendo da questão da pandemia, mas é bem provável que o resgate do rádio aconteça já no final de agosto ou início de setembro”, diz Bretton Hunchak, diretor da empresa que detém os direitos sobre itens do naufrágio, mas que, até hoje, só tinha tido autorização para coletar o que estava espalhado ao redor do navio afundado – mesmo assim, mais de 5 000 objetos, que passaram a fazer parte de exposições itinerantes promovidas mundo afora.

“Vamos usar alguns buracos que já existem no casco deteriorado pelo tempo para penetrar no navio com um mini-robô equipado com ferramentas especiais. E chegar à sala de rádio, onde extrairemos o aparelho numa operação cirúrgica, sem danos às demais partes do Titanic. Já temos tudo simulado em imagens de 3D” explica o empresário, que recorreu à justiça americana alegando que o estado de deterioração do navio já estava colocando em risco o famoso aparelho.

Está desmoronando

O resgate do rádio do Titanic só se tornou tecnicamente possível depois que uma parte da estrutura do navio, que ficava imediatamente acima da sala de rádio, desabou, de maneira natural, 15 anos atrás.

Com isso, abriram-se buracos que permitiriam a entrada de um mini-submarino na sala de rádio a fim de recolher o equipamento, que, segundo Hunchak, corre sério risco de ser destruído pelo desmantelamento do próprio navio.

“Se o aparelho não for removido rapidamente, talvez não haja uma segunda chance de fazer isso, porque a sala de rádio é a que corre maior risco de desabamento”, explicou o empresário ao fazer o pedido de resgate à Corte.

A juíza, então, aceitou o pedido, baseada nos argumentos de que “o rádio do Titanic possui valor histórico, científico e cultural suficiente para justificar o seu resgate”, e que “leis internacionais permitem a recuperação de artefatos históricos que estejam em risco de desaparecimento”.

Resgate pode afetar navio

Mas até a questão do real estado de conservação dos restos dos Titanic agora está sendo questionada.

Alguns especialistas dizem que, a despeito de estar mais de um século debaixo d´água, a deterioração do navio é mais ou menos estável, porque ele se encontra em grande profundidade, onde não há muitas alterações no ambiente marinho.

Mas alertam que a interferência humana pode acelerar barbaramente esse processo, numa referência direta aos planos da RMS Titanic Inc. de resgatar o rádio do navio.

Uma peça histórica

“O rádio do Titanic é uma peça histórica e merece ser preservada”, defende-se Hunchak. “Se não fosse por ele, bem mais pessoas teriam morrido naquele naufrágio, porque nenhum navio receberia o pedido de socorro nem viria resgatar os sobreviventes. Nem mesmo a localização dos restos do Titanic seriam conhecidos até hoje, porque ninguém saberia exatamente onde ele afundou”.

“Queremos resgatar o aparelho para exibi-lo às pessoas porque, do contrário, só os afortunados que podem pagar milhões para visitar os restos do navio com um submarino no fundo do mar poderão fazer isso”, argumenta o empresário.

E completa: “Muitos historiadores também sempre sonharam em ver este rádio de perto”.

Mas não é o que pensam as outras partes.

3 800 metros de profundidade

“Um aparelho desse tamanho não é o tipo de coisa que se possa remover de um naufrágio, a 3 800 metros de profundidade, sem causar estragos nos destroços, ainda mais um século depois”, argumenta a entidade governamental americana NOAA, sigla, em inglês, do departamento de Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera, que, com base em um acordo firmado meses atrás entre Estados Unidos, Inglaterra, França e Canadá, de restringir as visitações ao naufrágio e não permitir que nenhum país o explore, é radicalmente contra qualquer interferência nos escombros do famoso navio.

“Se permitirmos isso, imagine o que pode acontecer com outros sítios arqueológicos submersos bem menos famosos que o Titanic?”, questionam também os arqueólogos, que consideram os bens culturais submersos bem mais vulneráveis que os terrestres “porque, como ele não estão visíveis, podem ser saqueados sem a fiscalização das pessoas e autoridades”.

“Segunda tragédia do navio”

“O resgate do rádio do Titanic pode ser a segunda tragédia do navio”, dizem os arqueólogos envolvidos no caso.

“A operação de retirada do rádio do Titanic pode até ser legal, mas jamais será ética”, defendem os arqueólogos.

Outra tragédia pior ainda

Embora seja o naufrágio mais famoso da História, o afundamento do Titanic não foi a pior tragédia que já aconteceu nos mares.

Das 2 223 pessoas que havia no navio, apenas 706 sobreviveram.

Mesmo assim, em número de mortes, já aconteceram desastres bem piores.

O recordista em vítimas fatais foi o afundamento do navio alemão Wilhelm Gustloff, que matou seis vezes mais que o Titanic (inacreditáveis 9 300 pessoas morreram naquele naufrágio – clique aqui para conhecer esta trágica história) ao ser torpedeado por um submarino russo, nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial.

Mas, ao contrário do Titanic, quase ninguém ficou sabendo disso.

Já o Titanic ainda dá o que falar, mesmo após 108 anos no fundo do mar.

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O bebê do mar: ela acabou de nascer, mas já navega no barco onde irá morar http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/13/com-duas-semanas-de-vida-bebe-ja-vai-navegar-no-barco-onde-a-familia-mora/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/13/com-duas-semanas-de-vida-bebe-ja-vai-navegar-no-barco-onde-a-familia-mora/#respond Sat, 13 Jun 2020 07:00:37 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2209

Apenas duas semanas depois de nascer, a pequena Renata já vai encarar algo que a maioria esmagadora dos adultos jamais fez: uma longa travessia no mar.

Neste fim de semana, a bordo do veleirinho de apenas nove metros de comprimento que serve de casa para a sua família há dois anos, a bebê enfrentará cerca de 12 horas de navegação, entre Niterói — onde nasceu na semana passada em uma maternidade– e a Ilha Grande, no litoral sul do Rio de Janeiro, onde viverá os próximos meses.

Sempre a bordo do barco-casa ao lado dos pais, o casal argentino Juan Dorda e Constanza Coll, e o irmão Ulisses, de 4 anos.

Foto Renata Rocha/@rocharenatafotografia

“Não vai ter nenhum problema”, garante o pai da bebê navegadora. “A Renata nasceu tão bem e saudável que só ficou dois dias na maternidade. No terceiro, já veio para o barco, que será a casa dela daqui em diante. E não estranhou nada”.

Praia todos os dias

Desde que o bebê nasceu, nem a rotina desta curiosa família que mora no mar (clique aqui para conhecer melhor a história deles) foi alterada.

Eles seguem morando em um barco com pouco mais de 30 metros quadrados e desembarcando quase todos os dias para curtir as praias da região – mesmo com o bebê recém-nascido.

“O único incômodo é fazer caber tudo no botinho que usamos para ir do barco até a praia. Inclusive o cachorro e o bebê-conforto”, diz o pai, que é um ex-psicólogo de Buenos Aires, que, junto com a mulher, uma ex-jornalista, abandonou tudo para viver uma vida diferente no Brasil. E com pouquíssimo dinheiro.

Vivem com um salário mínimo

Desde que decidiram largar os empregos que tinham na Argentina e mudar radicalmente de vida, a família, que nunca teve muitos recursos, vive exclusivamente do que recebe do aluguel do apartamento onde antes viviam, em Buenos Aires – o que equivale a pouco mais de um salário mínimo no Brasil.

“A vida num barco é extremamente barata”, diz o pai da bebê que acaba de nascer. “E, para ajudar nas refeições, eu pesco”.

“Levamos uma vida simples, mas maravilhosa”, reforça a mãe da bebê, que, desde o terceiro dia de vida, também já vive sobre a água.

Covid alterou os planos

O plano original do casal era que a bebê nascesse na própria Ilha Grande, onde o barco da família costuma ficar ancorado, ou na cidade de Angra dos Reis, que fica em frente.

Mas a ilha não tem maternidade e o hospital de Angra dos Reis foi tomado por pacientes de Covid-19.

“Daí navegamos até Niterói, dias antes de a Renata nascer, e conseguimos uma maternidade que topou parcelar o pagamento do parto. Foi ótimo. E eles ainda deixaram a gente dormir no quarto. Foi a primeira vez que dormimos em terra-firme desde que viemos para o Brasil. O Ulisses até estranhou a cama não estar balançando”, conta Juan, feliz da vida com o crescimento da família.

O berço é uma rede

Agora, para abrigar bem o bebê no barco, Juan planeja transformar uma pequena rede numa espécie de berço. “Veleiros balançam naturalmente. Então, bebês se sentem bem à vontade a bordo”, analisa.

Foto Renata Rocha/@rocharenatafotografia

Por ter nascido aqui, Renata é única brasileira da família – os demais, todos argentinos, tem apenas autorização temporária de residência.

Mas seu nascimento pode ajudar o restante da família a conseguir a tão desejada dupla nacionalidade.

“Adoramos o Brasil e gostaríamos muito de ficar aqui, embora a gente não faça muitos planos para o futuro. Talvez, um dia, a gente parta com o barco para outros países, o que no nosso caso é fácil, porque a casa sempre vai junto”, brinca.

Foto Renata Rocha/@rocharenatafotografia

Sem chuveiro nem geladeira

Como todo veleiro, no entanto, a “casa” da família argentina e seu bebê é um pouco diferente das outras. Não tem, por exemplo, chuveiro nem geladeira.

Mas nem isso preocupa a família.

“Bebê só precisa de leite materno, e isso não depende de refrigeração”, diz Juan.

O primeiro banho de Renata no barco foi na pia da cozinha, sob extremo cuidado e carinho dos pais, como mostraram em suas redes sociais, no Instagram e Facebook.

Felizes da vida

“Tudo o que um bebê precisa é de atenção integral dos pais, e tempo para isso é o que nós mais temos hoje em dia”, diz Juan, que também considera um barco como sendo o espaço ideal para uma criança, porque, “como o espaço é limitado, a família está sempre junta e unida”, explica.

“Hoje, acompanho bem de perto cada passinho do desenvolvimento do Ulisses, e o mesmo acontecerá com a Renata”, diz Juan.

Foto Renata Rocha/@rocharenatafotografia

“Curtimos cada momento do crescimento deles e isso é o que importa”, diz o pai da bebê, feliz da vida com o crescimento da família, apesar do acanhado barco onde os quatro agora vivem.

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Mar doce lar: eles moram em um barco e só veem vantagens nisso http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/06/mar-doce-lar-eles-moram-em-um-barco-e-so-veem-vantagens-nisso/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/06/mar-doce-lar-eles-moram-em-um-barco-e-so-veem-vantagens-nisso/#respond Sat, 06 Jun 2020 07:00:27 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2192

Os Silveira — pai Fabio, mãe Ana Taís, filha Maria Eduarda, a Duda, o cachorro Frank e o gato Joaquim –, de Itajaí (Santa Catarina) são uma típica família classe média brasileira.

O casal, assalariado, trabalha fora, enquanto a filha, de 7 anos, passa o dia na escola. E todos vivem em um espaço com cerca de 45 m², com três pequenos quartos, sala, cozinha, banheiro e área externa.

Aos fins de semana, quando o tempo permite, saem para passear pela região, mas sem descuidar do orçamento. Tanto que, mesmo durante os passeios, todas as refeições são sempre feitas em casa, já que eles levam a casa junto com eles… um barco.

Apartamento pelo barco

Em vez morarem em uma típica moradia de classe média, como a que viviam antes, os Silveira hoje vivem em um veleiro, que fica parado praticamente o tempo inteiro na Marina de Itajaí.

“Trocamos o aluguel do apartamento pelo parcelamento do barco, e o dinheiro do condomínio pela mensalidade na marina. E foi a melhor decisão das nossas vidas”, diz Fábio, de 50 anos, que trabalha como gerente de operações na Penitenciária de Itajaí, ao lado mulher, que está em outra área.

Foto: Karine Bosse

“Passamos o dia fora, trabalhando, mas quando voltamos para casa, a tempo de ver o pôr-do-sol na marina, é só alegria. E é assim todos os dias”, comemora o catarinense.

“Somos uma família como outra qualquer. A única diferença é que moramos num barco, o que para a grande maioria das pessoas soa como algo absurdo, mas não é”.

Vizinhos mais interessantes

O que para a maioria das pessoas soaria como uma maluquice (morar em um barco, balançando dia e noite sobre a água), para os Silveira foi uma escolha mais que acertada.

“De outra forma, talvez, não conseguíssemos morar de frente para o mar, nem ter tamanha qualidade de vida. Hoje, moramos no próprio mar e o quintal para a nossa filha é enorme. A única coisa que nos arrependemos é de não ter feito isso antes”.

A barco-casa dos Silveira, batizado por eles de NovvuEu (“Porque, com o barco, começamos a viver uma nova vida”, explica Fábio), é um veleiro de pouco mais de dez metros de comprimento, que compraram ainda na construção e terminaram sozinhos, trabalhando nas folgas e fins de semana.

“Levou dois anos, mas valeu muito a pena. Já moramos no barco há quatro anos e nem de longe pensamos em voltar a viver em um apartamento”, diz Fábio, que também adora os vizinhos que tem na marina – alguns também moradores de barcos.

 “No prédio onde morávamos, nós nem conhecíamos os vizinhos. Já aqui na marina, aparecem barcos vindos do mundo inteiro, com pessoas interessantes, receptivas, solidárias e sempre dispostas a ajudar, especialmente quem ainda está aprendendo a navegar, como é o nosso caso”, diz Fábio.

Nenhuma experiência com barcos

O mais curioso é que, antes de decidirem trocar o apartamento por um veleiro, o casal Ana Taís e Fabio não tinha nenhuma experiência com barcos.

Ela jamais havia pisado em um veleiro, até que o marido confessou que gostaria de ter um, e que havia encontrado uma boa oferta: o barco custaria o mesmo que o apartamento onde eles moravam.

“Daí eu pensei: por que não? No mínimo, a Duda vai gostar morar num barco”, conta Ana Taís, de 28 anos, que tampouco sente saudades do apartamento onde viviam.

A adaptação à vida no barco foi rápida. Até cãozinho Frank e o gato Joaquim se acostumaram — embora, no começo, ambos tenham caído na água.

Até quarto de hóspedes

Hoje, até os aniversários de Maria Eduarda passaram a ser comemorados dentro do barco, com decoração de festa e tudo mais.

 “O mar virou o nosso lar. Mar doce lar. E a Duda, agora, acorda vendo peixinhos quase ao lado da cama, o que seria impossível numa casa convencional”, avalia Ana Taís.

“Vendemos tudo, porque, num barco, o espaço é limitado. Mas isso é bom, porque você aprende a viver com pouco e não fica acumulando coisas. Hoje, na nossa ´casa flutuante`, temos tudo o que precisamos para viver bem. Até quarto de hóspedes, para quando alguém da família vem nos visitar”, diz.

Em busca de outra “casa”

Mesmo assim, de tempos para cá, o casal vem pensando em se mudar. Mas para outro barco.

“Com a Duda crescendo, a ‘casa’ ficou um pouco pequena”, brinca Fábio, que, por isso, decidiu colocar o NovvuEu à venda, mas para comprar outro veleiro, “um pouco maior”.

“Como ficamos o tempo todo no barco, às vezes, sentimos falta de um pouquinho mais de espaço. Mas não temos pressa. Quando surgir uma oportunidade, a gente muda. Mas não mais de vida”, garante.

“Nossa casa não tem mais CEP”, brinca. “Quando a gente diz que está indo ‘pra casa’ é porque estamos indo ‘pro barco’, e ninguém entende”.

Vantagens até na quarentena

Como, porém, todas as famílias brasileiras nesse momento, os Silveira também estão de quarentena, e só saem de casa para trabalhar, já que tanto Fabio quanto Ana Taís atuam em atividades essenciais.

Mas, até nisso, veem vantagens em morar num barco, em vez de uma casa convencional.

“Nos fins de semana, a gente sai para passear no mar sem sair de casa, porque ela vai junto com a gente. E mesmo quando saímos não quebramos a quarentena, porque continuamos na nossa casa”, analisa. “Somos como caramujos; sempre levamos a casa junto”, diverte-se Fabio.

Sonho de sair navegando

Por ora, os Silveira não têm planos de alterar a rotina da vida – seguem trabalhando, de segunda a sexta, e a filha estudando.

Mas, quando adquirirem mais experiência na vida no mar e uma vida financeira mais estável, sonham em levantar âncora e sair para viajar com sua casa móvel.

“Morando num barco, podemos ir para onde quisermos, sem abrir mão da nossa casa”, comemora Fábio. “E a Duda pode continuar estudando à distância, no próprio barco, como fazem outras famílias com crianças que moram em veleiros, viajando pelo mundo”.

O veleiro que virou escola

No Brasil, famílias com filhos em idade escolar que optam por viver em um barco navegando ainda são poucas. Mas já existem.

Uma delas são os Gandelman, que, neste momento, estão no Caribe, aguardando passar a temporada de furacões – e a reabertura de todos os portos, por conta da Covid-19 – para seguir viagem.

Como eles têm um filho em idade escolar, e a mãe é professora, decidiram transformar o barco-casa da família também em sala de aula, com até quadro negro – clique aqui para conhecer a curiosa história desta outra família, que também trocou a vida convencional por um barco no mar, e não quer mais saber de voltar.

Mais ou menos como também estão fazendo os Silveira, que levam uma vida absolutamente normal, exceto pelo fato de que a casa deles fica boiando na água e não tem endereço fixo.

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Iraniano quer tentar de novo atravessar o mar dentro de uma bolha plástica http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/02/iraniano-quer-tentar-de-novo-atravessar-o-mar-dentro-de-uma-bolha-plastica/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/06/02/iraniano-quer-tentar-de-novo-atravessar-o-mar-dentro-de-uma-bolha-plastica/#respond Tue, 02 Jun 2020 07:00:36 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2175

Imagem: Vice/Divulgação

Desde que botou na cabeça que iria “correr sobre o mar” dentro de uma espécie de bolha plástica (dessas usadas para divertir crianças em piscinas e laguinhos), o iraniano Reza Baluchi já tentou por três vezes atravessar da Flórida para as ilhas Bermudas dessa forma.

E nas três vezes foi detido pela Guarda Costeira americana, por “colocar em risco a própria vida” – além de gerar despesas com operações montadas para resgatá-lo no mar.

Só que Reza não se deu por vencido e já planeja uma nova tentativa, tão logo consiga arrecadar dinheiro para construir uma nova bolha, já que a anterior foi afundada pela polícia para que ele não tentasse de novo.

Mas nem isso o fez mudar de ideia.

“Penso que todo mundo deveria ir atrás do seu sonho e o meu é chegar às Bermudas correndo sobre a água”, diz Reza, que é um peculiar corredor de ultra-maratonas, especializado em longas jornadas em solitário.

Como Forrest Gump

Ele garante já ter atravessado duas vezes os Estados Unidos correndo de costa a costa, e feito em mesmo em todo o perímetro do país, bordeando as fronteiras com o México e o Canadá — sempre para arrecadar fundos para missões filantrópicas e, ao mesmo tempo, angariar publicidade para si mesmo.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

A prática começou quando ele ainda era pequeno, no Irã, porque não havia meio de transporte para ir à escola. A obsessão em correr longas distâncias por dias a fio já rendeu ao iraniano o apelido de “Forrest Gump”, o icônico personagem vivido por Tom Hanks no cinema, que corria sem parar e, embora simplório, era adorado por todos.

As três tentativas do Capitão Bolha

Mas, de tempos para cá, Reza passou a ser mais conhecido como o “Capitão Bolha”, por causa da ousadia de querer correr sobre o mar dentro de uma espécie de roda giratória, o que ele já tentou três vezes.

Hoje com 48 anos, é dono de certa popularidade nos Estados Unidos por conta justamente de seus feitos folclóricos — o vídeo da sua tentativa de travessia já teve mais de 1 milhão de visualizações.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

A primeira vez foi em 2014, quando Reza partiu de uma praia da Flórida e, dias depois, foi resgatado com visíveis sinais de esgotamento físico após ter pedido orientação a um barco, no meio do mar, sobre “qual direção seguir para chegar às Bermudas?”.

Foto: US Coast Guard

Alertada pelo tal barco, a Guarda Costeira enviou embarcações e até um helicóptero para resgatá-lo em alto-mar, o que, segundo a entidade, gerou um custo de 140 000 dólares na operação.

Multa, se voltasse a tentar

Na volta, frente a determinação do iraniano, que não queria ser resgatado, Reza foi alertado de que, caso tentasse novamente aquela insana travessia, seria multado em 40 000 dólares, “por navegar em embarcação considerada inadequada”.

Na ocasião, o chefe da Guarda Costeira da Florida resumiu a ousadia de Reza Baluchi da seguinte forma: “É mais fácil ganhar na loteria do que aquela maluquice dar certo”.

Mesmo assim, dois anos depois, Reza tentou de novo realizar o trajeto com sua bolha de plástico. E, mais uma vez, foi detido e trazido de volta para a terra firme.

Mas não por muito tempo.

Partiu do alto mar

Apenas quatro meses depois, Reza partiu novamente. Mas, desta vez, tomou a precaução de partir de outro ponto, para não infringir as leis americanas.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

Ele convenceu um amigo, dono de um barco, a levá-lo até além dos limites do mar territorial americano, e de lá tomou o rumo das Bermudas, com sua bolha navegadora.

Mas, de novo, não foi longe.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

Alertada uma vez mais, a Guarda Costeira foi novamente em busca do iraniano e o abordou quando ele “navegava” a cerca de 150 quilômetros da costa americana.

Nas extenuantes sessões de corridas dentro daquela engenhoca revestida de plástico, o calor interno beirava os 45 graus.

Mandado para o hospital psiquiátrico

Como de hábito, Reza, a princípio, não quis desistir da travessia.

Mas acabou sendo removido a força, algemado e levado para exames em um hospital psiquiátrico – de onde saiu dias depois, após convencer os médicos de que não era louco, mas apenas um sujeito com uma ideia maluca na cabeça.

Já a sua bolha, para que não pudesse mais ser usada, foi furada e afundada.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

“Talvez eu leve uns três ou quatro anos para conseguir o dinheiro, mas isso só aumenta a vontade de realizar o meu sonho. Não vou desistir dele”, avisa o destemido aventureiro.

Tudo dentro da bolha

Maluquices a parte, a bolha do iraniano, projetada por ele mesmo, era um primor de engenharia criativa.

Continha, entre outras coisas, painéis solares que alimentavam baterias que o permitiam assistir até filmes no computador portátil (seu filme preferido era “O Náufrago”, que assistia enquanto descansava), e um dessalinizador, que transformava água do mar em potável.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

Para dormir, Reza montava uma rede dentro da bolha e passava as noites boiando à deriva no mar, sendo rolado pelas ondas, feito uma rolha.

E para comer, servia-se – apenas – de barrinhas de cereais, que ele mesmo produzia.

Por dia, Reza conseguia avançar cerca de dez quilômetros, correndo sobre o mar feito um hamster dentro de sua bolha giratória.

Sua previsão é que levaria cerca de cinco meses para chegar às Bermudas, que ficam a mais de 1 600 quilômetros da costa da Florida.

De lá, ele ainda pretendia descer até Cuba, antes de retornar aos Estados Unidos, completando assim toda a região conhecida como Triangulo das Bermudas, famosa pelos desaparecimentos misteriosos de aviões e embarcações.

Pior que o homem-boia

Apesar da originalidade do seu meio de propulsão, Reza Baluchi não foi o primeiro aventureiro a se lançar ao mar de maneira bizarra.

No final do século 19, um irlandês chamado Paul Boyton ficou famoso tanto nos Estados Unidos, quanto na Europa por navegar usado apenas o próprio corpo, graças a uma roupa inflável que o fazia flutuar feito uma boia humana

Com a tal roupa, ele chegou a fazer longas travessias no oceano – clique aqui para conhecer a história deste outro aventureiro nato.

Mas nada que se compare a ideia do iraniano Reza de correr sobre o mar durante meses a fio, dentro de uma cápsula na qual ninguém aguentaria ficar mais do que míseros minutos.

“Assim que der, eu tento de novo”, avisa o desmiolado Capitão Bolha.

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Morre milionário que comprou segundo naufrágio mais relevante do mundo http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/05/27/morre-milionario-que-comprou-navio-de-2o-naufragio-mais-relevante-do-mundo/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/05/27/morre-milionario-que-comprou-navio-de-2o-naufragio-mais-relevante-do-mundo/#respond Wed, 27 May 2020 07:00:56 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2161

Foto: Divulgação Gregg Bemis

No ano passado, o milionário americano Gregg Bemis, então com 90 anos, fez a doação do seu bem mais precioso.

Durante uma cerimônia no condado de Cork, na Irlanda, ele cedeu os direitos sobre os restos do naufrágio do transatlântico inglês “Lusitânia”.

Afundado por um torpedo alemão na Primeira Guerra Mundial, o navio foi adquirido em 1982 por um mísero um dólar – mas, depois, fez com que Gregg gastasse milhões para ter os direitos legais reconhecidos pelo governo irlandês.

Ele doou o naufrágio

Já doente e sem condições de continuar à frente das pesquisas que patrocinava, Bemis decidiu doar todos os objetos que tinha, além dos direitos legais sobre os restos do navio, com o intuito de reconstituir a história do famoso transatlântico.

Este, que é considerado o segundo naufrágio mais relevante do mundo (depois do Titanic), foi doado ao Museu do Lusitânia montado no promontório de Old Head, em Kinsale, bem em frente do local onde o navio afundou em 7 de maio de 1915.

Foto: The Old Head of Kinsale Signal Tower

Em seguida, Bemis recolheu-se a sua mansão no estado americano do Novo México. E foi lá onde morreu vítima de um câncer, na semana passada aos 91 anos, sem ter realizado o seu grande desejo: descobrir por que o luxuoso transatlântico afundou tão rapidamente, 105 anos atrás.

Uma história nebulosa

O Lusitânia terminava uma travessia entre os Estados Unidos e a Inglaterra, naqueles primórdios da Primeira Guerra Mundial, quando foi atingido por um torpedo disparado pelo submarino alemão U-20, afundando em menos de 20 minutos – rápido demais para um navio tão grande.

Mas, como contaram os sobreviventes (poucos, porque das 1 959 pessoas que havia a bordo do navio, 1 195 morreram no naufrágio), houve uma segunda explosão, gerada, possivelmente, pelas munições que o transatlântico transportava secretamente.

Elas teriam sido doadas pelo governo americano — então ainda oficialmente neutro no conflito — para ajudar os ingleses nos esforços de guerra.

E o torpedo do submarino alemão teria feito explodir, também, a carga secreta do Lusitânia, acelerando o seu naufrágio.

Em busca da verdade

Era isso que o milionário americano tentava provar há quase quatro décadas, desde comprara os direitos sobre os restos do naufrágio. Uma forma preservar a história e evitar que saqueadores mutilassem os restos do navio, que repousam a cerca de 90 metros de profundidade.

Foto: The Old Head of Kinsale Signal Tower

Bemis financiava expedições científicas ao naufrágio e chegou a mergulhar no local, em 2004, quando já somava 76 anos de idade – um feito notável, dada a grande profundidade.

Tesouro mais valioso

“Eu queria ver o Lusitânia com os meus próprios olhos e poder tocá-lo”, explicou na ocasião o milionário, que era fascinado pela nebulosa história do transatlântico, que até hoje desperta suspeitas de traição pelo então chefe do Almirantado Britânico, Winston Churchill, que teria deliberadamente “entregue” o navio aos inimigos para forçar os Estados Unidos a aderirem a guerra, ao mesmo tempo em que protegia algo mais valioso – clique aqui para conhecer esta história.

“Agora, cabe ao museu de Old Head proteger dos restos do Lusitânia”, disse o milionário benfeitor, ao doar o seu bem mais precioso: um navio afundado há mais de 100 anos.

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O que explica tantos tubarões no mar de Angra dos Reis durante a quarentena http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/05/23/o-que-explica-tantos-tubaroes-no-mar-de-angra-dos-reis-durante-a-quarentena/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/05/23/o-que-explica-tantos-tubaroes-no-mar-de-angra-dos-reis-durante-a-quarentena/#respond Sat, 23 May 2020 07:00:24 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2139

Imagem: Cesar Duarte/Luxx Boat

As imagens de mais de uma dúzia de tubarões nadando bem próximos à Praia do Laboratório, em Angra dos Reis, no litoral sul do Rio de Janeiro, na semana passada, gerou uma série de comentários.

Haveria relação entre a quarentena decretada às pessoas pela pandemia da Covid-19 e o aumento na quantidade desses animais no mar de uma das regiões mais bonitas do litoral brasileiro?

Imagem: Cesar Duarte/Luxx Boat

A alegação era que, por conta do isolamento social, o movimento de pessoas e barcos na região havia diminuído tanto que os tubarões estariam se sentido “mais à vontade” para aparecerem em locais que não frequentavam – e em números cada vez mais maiores.

Isso, a princípio, não fazia muito sentido, já que uma coisa não parecia ter a ver com a outra. Mas, em parte, sim…

O que há de verdade nisso?

A parte verdadeira da história é que, sim, a diminuição acentuada no vai e vem de barcos no principal polo náutico do Brasil teria, de fato, parado de afugentar os tubarões do mar da região.

Com isso, eles teriam se sentido menos ameaçados e mais propensos a frequentar locais que costumeiramente evitam, por conta da habitual movimentação de pessoas.

Imagem: Cesar Duarte/Luxx Boat

Isso explicaria porque ficou bem mais fácil avistar tubarões nas proximidades do local de águas especialmente claras e bem mais quentes do que nas demais partes da Baía de Ilha Grande, por conta do despejo no mar de efluentes termais da Usina Nuclear de Angra dos Reis, que fica ali em frente.

A quantidade de tubarões não aumentou

A parte falsa da história é que, não, a quantidade de tubarões no mar de Angra dos Reis não vem aumentando – muito menos isso tem a ver com a quarentena.

Ficou apenas mais fácil ver os tubarões na água, porque, com a diminuição na movimentação dos barcos, eles voltaram a frequentar locais que vinham evitando.

Além disso, nesta época do ano, os tubarões galhas-pretas costumam mesmo se aproximar daquele trecho do litoral de Angra dos Reis, atraídos pela mar mais quente na região da Praia do Laboratório

“A quantidade de tubarões no mar de Angra não aumentou. O que aumentou foi a quantidade de avistamentos deles na água, porque os tubarões se tornaram mais visíveis no mar”, explica o biólogo e especialista em peixes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Leonardo Neves, desmistificando o suposto enxame.

“Entre maio e agosto, os tubarões galhas-pretas costumam mesmo aparecer naquela praia. O único fato novo é que, este ano, estão aparecendo mais indivíduos do que nos outros anos, provavelmente por conta da menor atividade humana na região, já que os tubarões são seres tímidos, que temem e evitam a proximidade com os homens. Mas a população deles, infelizmente, não aumentou”, diz o biólogo.

“Ainda bem que tubarões estão aparecendo”

A mesma opinião é compartilhada pelo também biólogo Fábio Motta, do Instituto do Mar, da Universidade Federal de São Paulo, que igualmente comemora o fato de os tubarões voltarem a frequentar o mar de Angra dos Reis com a mesma tranquilidade do passado.

“O avistamento de mais tubarões na Praia do Laboratório é uma boa notícia. Significa que eles estão retomando um antigo hábito e um sinal de que o equilíbrio ambiental da região está sendo mantido”, diz.

E completa: “Ver tubarões no mar não é nenhum risco. Ao contrário, é sinal de boa qualidade ambiental, porque eles fazem parte do ecossistema marinho. Preocupante seria se eles não estivessem mais aparecendo”.

Imagem: Cesar Duarte/Luxx Boat

Águas aquecidas pela usina nuclear

A região da Piraquara, onde está a praia mencionada, fica próxima a uma grande área de preservação ambiental, a ESEC Tamoios (a mesma onde, na época em que ainda era deputado, Jair Bolsonaro foi flagrado e multado por pescar em área proibida – e, mais tarde, ao tomar posse, mandou demitir o fiscal que o autuara), o que favorece os tubarões, pela fartura de alimento.

Já a Praia do Laboratório, assim chamada por conta da Usina Nuclear que a abrange, tem como principal característica a temperatura do mar, sempre alguns graus mais quente do que as das demais praias da região, já que fica ao lado do vertedouro da água usada para resfriar os reatores nucleares – algo que sempre incomodou os ambientalistas, mas, aparentemente, nem tanto os tubarões galhas-pretas.

“Todo ano, nessa época, os tubarões aparecem na praia, bem pertinho da areia. Mas nunca vi tantos juntos quanto agora. Eles chegam a saltar fora d’água”, diz o empresário Cesar Duarte, dono da empresa Luxx, de aluguel e uso compartilhado de lanchas na região, autor das imagens que viralizaram, na semana passada.

“E eles continuam aparecendo. Ontem mesmo vi outros dez tubarões na praia, e alguns eram maiores do que o meu jet ski. Estou até pensando em levar clientes para ver os tubarões de perto”.

Imagem: Cesar Duarte/Luxx Boat

O tubarão que desvendou um assassinato

Embora os especialistas garantam que há nenhum perigo, a relação entre homens e tubarões sempre foi uma mistura de terror e fascínio.

Na década de 1930, ficou famoso, na Austrália, um caso de assassinato que só foi desvendado graças a um tubarão.

O animal havia engolido o braço da vítima, quando ela já estava morta, mas não por ter sido atacada e sim assassinada.

E foi esse detalhe que fez com que a Polícia conseguisse chegar até o culpado – clique aqui e conheça essa história, tão curiosa quanto a imagem de uma dúzia de tubarões nadando tranquilamente, bem pertinho da praia, no paradisíaco mar de Angra dos Reis.

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Barco voador: o incrível veleiro que navega no ar http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/05/16/barco-voador-o-incrivel-veleiro-que-navega-no-ar/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/05/16/barco-voador-o-incrivel-veleiro-que-navega-no-ar/#respond Sat, 16 May 2020 07:00:53 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2119

Foto: Amory Ross / NYYC American Magic

Barcos são feitos para navegar.

Mas, se depender dos veleiros que competirão na próxima edição da mais tradicional regata do mundo, a America’s Cup, esta máxima terá que mudar.

Porque, agora, eles também podem voar.

Foto: Amory Ross / NYYC American Magic

Graças a uma espécie de par de “asas” (que mais parecem garras) nas laterais do casco, chamadas de hidrofólios, os barcos da próxima America’s Cup “voarão” a cerca de dois metros da superfície, ligados à água apenas pelas pontas das tais asas tortas.

Apenas a parte inferior delas fica em contato com o mar – não o barco em si, que flutua inteiro no ar. Como um avião. Como pode ser visto neste vídeo:

Qual a vantagem disso?

A grande vantagem é o desempenho que o barco alcança.

Sem o atrito do casco com a água, a velocidade aumenta barbaramente, o que é fundamental para uma corrida de barcos — onde vence quem for o mais rápido.

A previsão é que os veleiros “alados” da próxima America’s Cup consigam passar dos 100 km/h de velocidade na água, o que é impressionante para barcos que são movidos apenas pelo vento.

Foto: Amory Ross / NYYC American Magic

Nunca houve veleiros tão velozes.

Barco inteiro no ar

Hidrofólios, contudo, são nenhuma novidade.

Até grandes barcos de transporte de passageiros costumam usá-los, há tempos, para aumentar a velocidade e diminuir o consumo de combustível.

A diferença é que, no caso destes veleiros, os hidrofólios fazem bem mais do que apenas erguer a parte da frente dos cascos, a fim de diminuir o arrastro na água.

Foto: Amory Ross / NYYC American Magic

Os hidrofólios erguem o barco inteiro e o deixam totalmente suspenso no ar – uma visão que ninguém está habituado a ver.

Nem mesmo os velejadores profissionais.

“O barco decola – e voa – feito um avião de verdade”, resumiu, impressionado, o americano Dan Morris, que comandará o veleiro da equipe American Magic, na próxima America’s Cup, ao final do primeiro teste prático que fez com o barco, na Florida, no final do ano passado.

Mas isso tem uma explicação.

Tecnologia de aviação

Ao criarem o veleiro que usarão na competição, os projetistas do barco americano buscaram a ajuda de engenheiros da segunda maior fabricante de aviões do mundo, a Airbus, já que os hidrofólios que serão usados na próxima America’s Cup estão muito próximos das asas de um avião do que de componentes habituais de um veleiro.

Têm, por exemplo, flaps, como as asas de aviões, para controlar a “altitude” da navegação – se mais alto ou mais baixo, em relação à superfície do mar.

E a função dos flaps, além de erguer o barco no ar, é estabilizá-lo durante a navegação.

As asas também atuam como substitutos da quilha, componente submerso que todo barco a vela possui, para dar sustentação ao casco e contrabalançar a inclinação gerada pela ação do vento nas velas. Os novos veleiros da America’s Cup não têm quilhas.

Foto: Amory Ross / NYYC American Magic

Asas que parecem garras

Nos barcos da classe AC 75, como são chamados os veleiros que participarão da próxima America’s Cup (todos iguais, mas de cinco equipes diferentes), as quilhas não existem, porque são as próprias pontas das asas que fazem esse papel, ao penetrarem no mar.

A inclinação das asas, que também são móveis, é controlada pela tripulação, em busca da melhor performance.

Foto: Amory Ross / NYYC American Magic

Estes veleiros aplicam, na prática, as leis da física. Nunca se viu nada igual.

Competição mais antiga do mundo

A America’s Cup, que acontece a cada três ou quatro anos, em média, também não é uma regata como outra qualquer.

Trata-se da mais lendária, famosa e tradicional corrida de barcos à vela do planeta.

Foto: Gilles Martin Raget / Divulgação America´s Cup

A America’s Cup é a mais antiga competição ainda em disputa no mundo, entre todos os esportes. Existe há mais tempo do que as Olimpíadas modernas.

Quando começou a ser disputada, em 1851, a America’s Cup tinha um significado também político.

Os Estados Unidos haviam se tornado independentes da Inglaterra apenas 75 anos antes, e os americanos queriam mostrar que eram melhores que os ingleses justamente em um dos esportes mais populares entre os britânicos: o iatismo.

Para isso, construíram um veleiro, o America, e o levaram para a Inglaterra, para uma disputa contra barcos ingleses, que terminou com um resultado surpreendente (clique aqui para conhecer essa história).

Não existe segundo colocado

Consta que a própria Rainha Victoria, da Inglaterra, presente ao evento, acabaria definindo, involuntariamente, o espírito da competição, ao perguntar a um dos seus súditos qual barco havia chegado em segundo lugar.

Ao que ele respondeu que, “não havia segundo colocado, porque, naquela competição, só o vencedor importava”.

Desde então, há 169 anos, a America’s Cup é disputada na forma de um barco contra o outro apenas, numa série de regatas.

Será no ano que vem

Foto: Amory Ross / NYYC American Magic

Quem vence o duelo fica, temporariamente, com a taça, até que outro barco o desafie – o que irá acontecer em março do ano que vem, quando o atual detentor do título, a equipe Emirates Team New Zewland, da Nova Zelândia, irá enfrentar o barco desafiante, que sairá de uma eliminatória entre quatro veleiros, de três países, em janeiro.

Foto: Amory Ross / NYYC American Magic

Mesmo restando oito meses até lá, o barco da equipe favorita a se tornar a desafiante dos neozelandeses, o veleiro americano Defiant (“Desafiador”, em inglês), da equipe American Magic, já está a bordo de um navio, a caminho da Nova Zelândia, onde será disputada a competição, em março do ano que vem.

“Queremos ser os primeiros a chegar, para treinar bastante e extravasar nossa vontade de competir com esse barco espetacular”, diz o comandante do time, Dan Morris, preocupado apenas se os integrantes da equipe poderão entrar na Nova Zelândia, por conta das restrições à entrada de estrangeiros causada pela pandemia do Covid-19. “Numa escala de zero a dez, nossa equipe está com 11 de preparação e entusiasmo”.

Foto: Amory Ross / NYYC American Magic

“Não é todo dia que se tem a oportunidade de navegar com um barco que, literalmente, pode voar”.

 

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Governos e índios brigam pelo tesouro do naufrágio mais valioso da História http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/05/09/governos-e-indios-brigam-pelo-tesouro-do-naufragio-mais-valioso-da-historia/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2020/05/09/governos-e-indios-brigam-pelo-tesouro-do-naufragio-mais-valioso-da-historia/#respond Sat, 09 May 2020 13:14:47 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=2107

Cinco anos atrás, o arqueólogo americano Roger Dooley confirmou o que tanto se buscava no fundo do mar da Colômbia – e que já havia sido detectado pela empresa Sea Search Armada 30 anos antes: os restos do galeão espanhol San José, que naufragou em 1708 com uma fabulosa quantidade de riquezas extraídas das então colônias da Espanha na América do Sul e Central.

Na ocasião, de tão relevante, a confirmação do achado foi anunciada pelo então próprio presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos. Ele vinha apoiando oficialmente as buscas e cedendo, inclusive, um navio de pesquisa da Marinha Colombiana para o rastreamento do leito submarino na região de Cartagena.

Divulgação Governo Colômbia

Mas havia um bom motivo para todo aquele entusiasmo com a descoberta de um simples naufrágio.

Dois países disputam o naufrágio

Segundo registros, quando foi a pique vítima dos canhões de uma esquadra inglesa que patrulhava o Caribe em busca de galeões espanhóis (clique aqui para saber como aconteceu o naufrágio do galeão San José), seus porões estavam abarrotados de lingotes de ouro, barras de prata, esmeraldas e muitas outras preciosidades, extraídas das minas da América do Sul e Central e que estavam sendo levadas para a Espanha.

E este detalhe encheu os olhos de todo mundo.

A começar pelo próprio governo colombiano, que, da lá para cá, passou a decretar uma série de normas para “proteger o naufrágio” e garantir que o quer que seja extraído dele não saia da Colômbia.

Instituto Colombiano de Antropología e Historia

Com isso, o direito de exploração e resgate daquele que é considerado o mais valioso naufrágio de todos os tempos se transformou em uma pendenga jurídica que já dura meia década, e envolve os governos de dois países: a Colômbia, que garante ter direito ao naufrágio já que ele ocorreu em suas águas, e a Espanha, que, por ser dona do galeão, diz ter direito ao seu resgate, baseada numa recomendação da Unesco de que restos de naufrágios pertencem ao país de origem da embarcação – tratado o qual a Colômbia não é signatária.

Mas também a empresa americana Sea Search Armada, a primeira a achar o naufrágio na década de 1980, pleiteia o direito a uma parte do que for retirado dele. Esta alega que este era o acordo que tinha com o governo colombiano, antes de o navio ser encontrado. E recorreu à Justiça – tanto na Colômbia quanto nos Estados Unidos.

Índios querem sua parte

E a confusão não para por aí.

Mais recentemente, até descendentes de índios sul-americanos –sobretudo peruanos e bolivianos da nação Qhara Qhara — entraram com uma ação na Justiça colombiana, alegando que o ouro, a prata e as pedras preciosas que afundaram junto com o galeão foram extraídas do território de seus ancestrais, e, portanto, cabe também a eles uma parte do que for resgatado.

Mas reside aí o outro problema deste caso tão tentador quanto complexo: ninguém sabe como o resgate da valiosa carga do galeão San José poderia ser feito.

Como resgatar o ouro?

Os restos do galeão, que hoje não passam de alguns canhões e potes visíveis no fundo do mar, estão 600 metros debaixo d’água, profundidade impossível aos mergulhadores e só viável aos robôs submarinos mais modernos do mundo, equipamentos que a Colômbia não possui.

Além disso, os arqueólogos estimam que o que restou do casco de madeira do galeão, onde estaria a sua carga preciosa, se encontram soterrados debaixo de uma camada de seis metros de lama, o que dificultaria ainda mais os trabalhos.

Por isso, dois anos atrás, o governo colombiano anunciou que criaria uma parceria público-privada para “coletar apenas algumas peças do galeão” (sobre o ouro, nenhuma palavra) a fim de criar um museu em Cartagena. E abriu uma licitação para especialistas em explorações submarinas.

Três empresas, uma sueca e duas americanas, se inscreveram – a Sea Search Armada se recusou a participar, porque alega que já tem direito adquirido no caso.

Mas, em seguida, a história do regaste do galeão espanhol tomou outro rumo e mudou tudo de novo.

Virou Patrimônio Histórico

Numa decisão tão polêmica quanto festejada pelos historiadores, o Conselho Nacional do Patrimônio Histórico da Colômbia decidiu transformar os restos do galeão San José em “bens de interesse cultural”, o que colocou por água abaixo não só os planos de usar parte do ouro que ele transportava para financiar o seu o próprio resgate — ideia que horrorizava os cientistas porque parte da carga teria que ser vendida –, como passou a proibir que qualquer coisa que venha a ser retirada do navio possa ser comercializada.

Instituto Colombiano de Antropologia e História

Em dinheiro de hoje, estima-se que a estupenda carga do galeão San José vale cerca de 15 bilhões (bilhões; não milhões) de dólares. Só em lingotes de ouro seriam cerca de 200 toneladas, sem contar o que transportado sem registros, como era hábito na época.

E isso explica tudo. Embora muitos camuflem o real interesse no naufrágio.

“O verdadeiro tesouro do galeão San José não é o ouro que ele transportava e sim a riqueza histórica, cultural e científica que a Colômbia dará para o mundo, quando alguns artefatos forem resgatados e exibidos em local apropriado”, resumiu o arqueólogo que confirmou o achado do navio, cinco anos atrás.

Mas é difícil acreditar nisso quando se está falando do naufrágio mais valioso da História.

Deve ficar no fundo do mar

No entanto, com a recente decisão do Patrimônio Histórico colombiano de transformar o naufrágio em uma espécie de monumento e com a profusão de ações que correm na Justiça — tanto da Colombia quanto nos Estados Unidos e na Espanha, que tendem a tornarem-se uma eterna sucessão de recursos jurídicos — , o mais provável é que o destino do tesouro mais cobiçado do mundo no momento seja permanecer intocado no fundo do mar, onde repousa há mais de 300 anos.

Como, aliás, recomenda a Unesco, por considerar que naufrágios históricos não pertencem a nenhum país, mas sim ao patrimônio da humanidade.

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