Histórias do Mar http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos Fri, 23 Aug 2019 13:19:39 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Até pedido de casamento a bordo: o divertido cruzeiro dos farofeiros do mar http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/23/ate-pedido-de-casamento-a-bordo-o-divertido-cruzeiro-dos-farofeiros-do-mar/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/23/ate-pedido-de-casamento-a-bordo-o-divertido-cruzeiro-dos-farofeiros-do-mar/#respond Fri, 23 Aug 2019 13:19:39 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1313

Três meses atrás, meia dúzia de casais, todos velejadores, resolveram fazer uma viagem em grupo com seus barcos do Rio de Janeiro até Pernambuco com o objetivo de participar da mais famosa regata do Brasil: a Recife-Fernando de Noronha, muito mais conhecida pela sigla Refeno, que acontecerá no início de outubro.

Mas, um amigo foi chamando outro, que convidou mais um, e o grupinho inicial acabou virando um grupão. Ou uma “flotilha”, como é chamado no meio náutico o agrupamento de barcos que seguem na mesma direção.

Atualmente, o grupo já soma 20 veleiros, e ainda está apenas na metade do caminho, em Salvador, na Bahia, onde fizeram uma escala para participar de outra regata famosa, a Aratu-Maragogipe, que acontece neste sábado.

“A ideia era apenas não ir sozinho, mas acabamos virando um cruzeiro de fato”, diz a idealizadora da inesperada viagem coletiva, a gaúcha Bruna Sobé, que mora no próprio barco, junto com o marido, Jairo.

“A gente só queria companhia na viagem, mas acabamos ganhando uma caravana, que já passa de 70 pessoas. E outras 30 ainda vão se juntar a nós, no caminho até Recife”, comemora a gaúcha, que, junto com o resto da turma, já está no mar há dois meses, avançando muito lentamente na direção da capital de Pernambuco.

É que, embora o objetivo do grupo seja chegar a Recife para participar de uma competição de barcos à vela, o que eles vêm fazendo até lá é apenas um grande, preguiçoso e pra lá de divertido passeio, com longas paradas nos pontos mais interessantes do roteiro – onde o grupo se reúne de novo.

“Nosso cruzeiro não tem regras nem obrigações. Cada um parte quando quer, chega quando der e encontra e desencontra com o resto da turma quando estiver a fim. Navegamos juntos, mas separados, entende?”, diverte-se a velejadora Renata Liu, uma das que aderiu ao grupo e que diz que poucas vezes se divertiu tanto numa travessia.

Um dos motivos disso é que, a cada parada, o que não falta é diversão. Quando não são recebidos por algum clube náutico, como já aconteceu no Rio de Janeiro e em Vitória, eles mesmo tratam de transformar o local, muitas vezes ermas praias desertas, em animadas festas improvisadas.

E a comilança come solta. Cada um prepara o que sabe no próprio barco, e leva para uma grande mesa comunitária, em algum boteco na praia. Ou então ficam visitando os outros barcos, onde sempre tem algo sendo preparado. Churrascos são praticamente diários.

“Já teve até rodízio de pizza em um dos barcos”, diz Bruna. “Comida e risada neste cruzeiro é o que não faltam. Somos os ‘farofenos’, os farofeiros da Refeno”, diverte-se.

O nome, de tão apropriado, acabou batizando o próprio cruzeiro, que ganhou até logotipo e camiseta. “Cada um pagou a sua, porque aqui ninguém paga nada para participar do grupo”, explica Bruna, que ainda espera a adesão de mais uns dez barcos, antes de chegar a Recife.

No caminho, até agora, já houve algumas festas de aniversários, feirinha de troca de equipamentos náuticos (batizada de “Feira do Rolo”, já que os interessados só trocavam uma coisa pela outra), e até um inusitado pedido de casamento, em pleno mar.

“Eu ia esperar chegar em Fernando de Noronha para pedir a Priscila em casamento, mas, na parada em Abrolhos, o astral do cruzeiro estava tão legal, que resolvi antecipar”, conta o paulista Claudio Diniz, que mora com a noiva Priscila Silva no próprio barco há oito anos, e vive de levar pessoas para velejar, negócio que é conhecido no meio náutico como “charter” – e que, agora, já cogita seguir viagem com a noiva até o Caribe.

Outro que está aproveitando o improvisado cruzeiro para iniciar uma longa viagem é o aposentado capixaba Renato Silveira, de 53 anos, que pretende, após a chegada em Fernando de Noronha, seguir adiante e dar a volta ao mundo velejando sozinho. “Só vou sentir falta da alegria dessa turma”, diz.

Mas, até agora, nem tudo foi só festa no alegre Cruzeiro Farofeno.

Durante a escala na paradisíaca baía de Camamu, no litoral sul da Bahia, um dos barcos foi invadido por dois bandidos armados, que espancaram barbaramente uma das participantes do cruzeiro – a capixaba Guta Favarato, cujo marido havia desembarcado para um passeio – antes de fugirem levando todo o dinheiro que encontraram – pouco mais de R$ 1 000.

“Foi horrível, um deles me amarrou e me espancou, até que eu desmaiei”, contou a velejadora, que foi socorrida pelos outros barcos do cruzeiro, depois de pedir ajuda pelo rádio. “Imagine se não houvesse ninguém por perto”, disse a velejadora.

A barbárie, no entanto, teve um lado positivo.

Ali mesmo, o grupo começou a colher assinaturas pela internet para um documento que pede a criação de uma guarda costeira brasileira, uma entidade encarregada de fiscalizar efetivamente o nosso litoral, e o reconhecimento dos barcos como algo similar a uma casa, o que daria aos seus proprietários o direito de possuir uma arma, o que hoje é vetado pela legislação.

O documento foi entregue esta semana ao Congresso Brasileiro, enquanto o animado grupo segue em frente rumo a Recife, onde pretende chegar no final do mês que vem após novas escalas em Barra de São Miguel, em Alagoas, e Praia dos Carneiros, em Pernambuco.

“Além da alegria, vamos deixar um legado para a segurança de todos os donos de barcos”, diz a dona da ideia do irreverente cruzeiro dos farofeiros do mar.

Fotos: Divulgação/Farofeno

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Imitando egípcios: pesquisador está navegando com um barco feito de plantas http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/22/imitando-egipcios-pesquisador-esta-navegando-com-um-barco-feito-de-plantas/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/22/imitando-egipcios-pesquisador-esta-navegando-com-um-barco-feito-de-plantas/#respond Thu, 22 Aug 2019 12:26:31 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1295

Neste exato instante, um grupo de aventureiros de oito países europeus liderado por professor alemão está navegando no Estreito de Bósforo, que separa a Europa da Ásia, com um grande e curioso barco. Feito de junco, um tipo de capim, ele é uma réplica dos primitivos barcos usados no Egito Antigo e foi construído por dois indígenas bolivianos, no litoral da Bulgária.

O objetivo desta salada multicultural é comprovar uma teoria: a de que os antigos egípcios já navegavam entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Negro 2 mil anos antes de Cristo, a fim de buscar materiais que não possuíam. Como a magnetita, um minério que eles teriam usado para construir ferramentas a fim de erguer as pirâmides, que só existia em terras distantes.

A teoria é do próprio professor que está por trás do experimento, o pesquisador e arqueólogo experimental alemão Dominique Goerlitz, de 53 anos, que já promoveu outras expedições do gênero, tentando também provar que os egípcios navegavam para muito além do que se imagina, tendo, inclusive, chegado à América muito antes de Cristóvão Colombo.

“Minhas expedições se baseiam em escritos de Heródoto, o Pai da História, e estad mostrarão que já existia um comércio entre os povos destas duas regiões, 4 mil anos atrás”, explicou Goerlitz ao partir de um porto perto de Varna, na costa da Bulgária, na última sexta-feira, com o objetivo de chegar à ilha de Creta, a 1, 3 mil quilômetros de distância, navegando seu exótico barco na companhia de oito voluntários.

“O correto seria usar papiro, como faziam os antigos egípcios, mas esse material não existe mais em abundância, então usamos o junco, que é bem parecido”, explicou o pesquisador.

Para isso, Goerlitz recorreu a dois especialistas no assunto: os índios bolivianos da tribo aimara Fermin Limachi e seu filho, Yuri, que, há décadas, constroem barcos de junco totora no Lago Titicaca, na divisa entre o Peru e a Bolívia.

No passado, o boliviano Fermin ajudou a construir o barco com a qual o famoso pesquisador norueguês Thor Heyderahl realizou a mais conhecida expedição do gênero da História, ao cruzar o Oceano Atlântico com uma jangada feita de junco, para provar a capacidade de navegação dos antigos egípcios.

No caso de Goerlitz, além dos dois especialistas, ele também precisou importar 12 toneladas de junco da Bolívia para a Bulgária, onde o barco foi montado, usando para isso dois quilômetros de cordas, a fim de prender os feixes de totora.

O resultado, contudo, ficou extraordinário.

Batizado de Abora IV, o exótico barco tem 14 metros de comprimento, capacidade para dez pessoas, e – espera-se – resistência suficiente para suportar os mais 1 mil quilômetros de mar aberto que separam os pontos de partida e chegada da expedição, prevista para durar semanas.

Por enquanto, apenas um pequeno trecho de 300 quilômetros, entre a costa da Bulgária e a Turquia, foi cumprido ao longo de três dias (clique aqui para saber onde eles estão, neste instante).

Mas agora virá a parte mais difícil, quando a embarcação cruzar o Estreito de Bósforo e entrar no Mar Egeu, onde os ventos são sempre muito fortes. Sobretudo para um barco feito de simples feixes de plantas amarradas.

“Se ele desmanchar, tudo bem”, comentou bem-humorado um dos tripulantes voluntários da expedição, o holandês Mark Pales, de 42 anos. “O junco totora não afunda e gente pode ser agarrar nele até o resgate chegar”.

Algo parecido aconteceu durante a expedição mais famosa de Goerlitz até hoje, a da travessia do Atlântico, doze anos atrás, com um barco similar. Quando o grupo estava a cerca de 900 quilômetros das Ilhas dos Açores, depois de ter partido de Nova York dois meses antes, o barco virou, encharcou e todos precisaram ser resgatados.

Experiências oceânicas a bordo de embarcações rústicas não são, contudo, nenhuma novidade. Diversas já foram feitas, com os mais variados objetivos.

Uma das mais excêntricas foi a conduzida pelo antropólogo mexicano Santiago Genovés, que, em 1973, confinou cinco homens e seis mulheres, que até então não se conheciam, numa grande balsa no meio do oceano, para analisar o comportamento humano em espaços confinados, estimulando o confronto e o relacionamento livre.

Apelidado de “Balsa do Sexo”, o experimento (cuja polêmica história pode ser conferida aqui) foi uma espécie de precursor dos Big Brothers e acaba de virar o filme-documentário “A Balsa”, que chegará em breve aos cinemas brasileiros.

Já a expedição de Goerlitz precisa, primeiro, dar certo,  antes de virar algo mais do que apenas uma aventura.

 

Fotos: Divulgação

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Do Brasil para o Taiti de barco: como um casal chegou lá com pouco dinheiro http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/19/do-brasil-para-o-taiti-de-barco-como-um-casal-chegou-la-com-pouco-dinheiro/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/19/do-brasil-para-o-taiti-de-barco-como-um-casal-chegou-la-com-pouco-dinheiro/#respond Mon, 19 Aug 2019 14:31:02 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1280

Quatro anos depois de jogar tudo para o alto, largar os empregos, vender o carro, devolver o apartamento alugado, se desfazer de praticamente tudo e, com o dinheiro arrecadado, comprar um veleiro para sair viajando pelo mundo, o jovem casal gaúcho Diego Maio e Georgia Spiandorello – ele com 35 anos de idade, ela com 34 – acabam de realizar o primeiro sonho da jornada: chegar ao Taiti com o próprio barco – que também virou a casa onde eles moram.

“Sempre tivemos o sonho de conhecer a Polinésia e chegar aqui pelos nossos próprios meios, e sem gastar muito dinheiro, foi maravilhoso”, diz Diego, um oceanógrafo ex-funcionário de uma empresa de pesquisas que levava uma típica vida assalariada de classe média em Florianópolis, até que decidiu mudar de vida e, junto com a namorada, foi viver no mar.

“A vida não era ruim, mas não era aquilo que a gente queria para o resto das nossas vidas. Tinha a rotina chata do dia-a-dia, as contas para pagar, os engarrafamentos no trânsito e a má qualidade de vida”, explica Diego, que sempre nutriu o sonho de, um dia, morar num barco e usar o mar para viajar.

Já Georgia era o oposto disso. Nascera na Serra Gaúcha, nada sabia sobre barcos, jamais havia navegado, tinha um emprego burocrático numa empresa de importações e gostava do mar apenas quando ia à praia.

“Até conhecer o Diego, eu jamais havia pensado em viver num barco, embora adorasse viajar. Mas resolvi arriscar. E hoje não consigo me imaginar vivendo mais feliz de outra forma”, diz Georgia, eufórica por estar no Taiti, onde nunca imaginou que pudesse ir.

“Vamos ficar no Taiti até, mais ou menos, abril do ano que vem. Depois, acho que vamos para as Ilhas Fiji, Nova Zelândia e Austrália. Não temos um roteiro, nem um objetivo a ser alcançado. Nosso barco é a nossa casa e a única diferença para uma casa de verdade é que podemos mudá-la de lugar sempre quer der vontade. Não é mais uma viagem. É a nossa nova vida”, explica Georgia.

De onde vem o dinheiro?

Para se manter financeiramente, o casal, que nada tem milionário (muito pelo contrário) aderiu a um site de financiamento coletivo, também chamado de crowdfounding, no qual as pessoas que simpatizam com a proposta de vida deles contribuem voluntariamente com qualquer dinheiro para a produção de vídeos que eles colocam semanalmente num canal que criaram no YouTube.

Nele, o casal conta como é viver num barco, mostra os lugares por onde já passaram, dá dicas realmente práticas para quem quiser fazer o mesmo e inspiram outras pessoas a trocarem a casa por um barco, e curtir a vida todos os dias.

“Começamos fazendo vídeos para a família e para os amigos, mas logo descobrimos que havia mais gente querendo assisti-los. Daí veio a ideia de transformar isso num pequeno negócio e assim financiar a nossa viagem, que virou a nossa própria vida”, explica Diego.

Hoje, eles têm perto de 150 apoiadores, que contribuem como podem, e vivem apenas com os cerca de R$ 3 mil que arrecadam por mês com os vídeos que publicam na internet. “Não dá pra gastar um centavo com restaurantes, ainda mais aqui no Taiti, onde é tudo muito caro. Mas, em compensação, aproveitamos, de graça, a maravilhosa paisagem da Polinésia”, vibra Georgia.

Quem ajuda, também navega

Em troca das colaborações em dinheiro, os apoiadores do projeto, de tempos em tempos, são convidados a fazer um trecho da viagem com o casal, pagando apenas as próprias despesas. “Além de tudo, estamos aumentando barbaramente o nosso círculo de amizades”, diz Georgia, que garante só sentir falta dos amigos e familiares que ficaram no Brasil.

Eles partiram do Brasil com o barco em novembro de 2015, ainda como namorados, e foram subindo lentamente a costa brasileira, enquanto ganharam experiência e segurança para ir mais longe.

Tempos depois, chegaram ao Caribe, onde se casaram numa cerimônia bem simples numa praia de Punta Cana, na República Dominicana, na companhia apenas dos novos amigos que fizeram no mar.

“Não temos família rica, nenhuma renda fixa, nem dinheiro aplicado”, diz Diego. O que ganhamos com os vídeos gastamos com comida e manutenção do barco. É uma vida muito simples, mas deliciosa. Poder mover a nossa casinha de um lugar para o outro e ficar lá o tempo que quiser é sensacional. Temos vivido a vida que sempre quisermos ter. E com pouquíssimo dinheiro”.

O barco-casa do casal é um veleiro de apenas pouco mais de 13 metros de comprimento, batizado de Unforgettable (“Inesquecível”, em português), com três pequenos quartos, sala, cozinha e banheiro, “mas com uma piscina gigantesca”, como costuma brincar o casal, que não tem planos de voltar a viver em terra-firme.

“Talvez, um dia, se a vida tomar outro rumo”, diz Georgia. “Mas estamos conhecendo tanta gente que passa a vida morando em barcos, que, talvez, façamos o mesmo.

Morar num barco? Por que não?

No mundo náutico, sobretudo na Europa, pessoas que trocam a casa por um barco são bem mais comuns do que parece.

Um dos casos mais curiosos de total adaptação a este novo estilo de vida foi dos ingleses Jane e Clive Green, que, um dia, em 1998, partiram para uma curta viagem de férias até a Espanha com seu pequeno veleiro e só voltaram 16 anos depois, após dar a volta completa pelo mundo – uma interessante história que pode ser conferida clicando aqui.

Fotos: Arquivo Pessoal

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Homem que achou Titanic começa a tentar desvendar mistério bem mais difícil http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/12/homem-que-achou-titanic-comeca-a-tentar-desvendar-misterio-bem-mais-dificil/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/12/homem-que-achou-titanic-comeca-a-tentar-desvendar-misterio-bem-mais-dificil/#respond Mon, 12 Aug 2019 12:43:14 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1260

Neste exato instante, um poderoso barco de pesquisa está se aproximando de uma esquecida ilha deserta no meio do oceano Pacífico para tentar desvendar um dos maiores mistérios do último século: até hoje não explicado o desaparecimento da aviadora americana Amelia Earhart, e seu navegador Fred Noonan, durante a primeira tentativa de uma mulher de dar a volta ao mundo voando, em junho de 1937.

Trata-se de uma missão difícil, pois, 80 anos depois e após uma dezena de fracassadas expedições anteriores, quase ninguém acredita que ela possa ser bem sucedida e consiga, finalmente, esclarecer como morreu a mais lendária aviadora da História. O desaparecimento já rendeu um filme de Hollywood, com Richard Gere, diversos livros e a fama de mistério favorito dos americanos.

Mas quem está no comando da operação é um especialista em procurar agulhas em palheiros dentro dos oceanos: o pesquisador americano Robert Ballard, de 77 anos, o homem que achou o Titanic no fundo do Atlântico, 34 anos atrás, e também o mais famoso navio alemão afundado na Segunda Guerra Mundial, o couraçado Bismarck, quatro anos depois.

Agora, Ballard quer por um ponto final na enigmática história de Amelia Earhart, localizando os restos do avião que ela pilotava naquela trágica tentativa de um novo feito inédito.

Se isso acontecer, Ballard também contrariará a tese mais difundida para o desaparecimento da aviadora e seu navegador: a de que eles teriam caído no mar após ficarem sem combustível, nas imediações da ilha Howland, onde deveriam ter pousado para reabastecer durante aquela histórica travessia que acabou em tragédia.

Isso porque, Ballard resolveu concentrar suas buscas em outra ilha, a mais de 600 quilômetros dali: o esquecido atol de Nikumaroro, que hoje pertence às Ilhas Kiribati, onde pesquisas anteriores feitas por uma instituição privada, a Tighar (iniciais, em inglês, de Grupo Internacional para Descoberta de Aviões Históricos) mostrou sinais animadores no passado.

Ossos na ilha

Entre outras possíveis evidências, os sonares dos barcos da Tighar mostraram “uma anomalia no fundo do mar no entorno da ilha”, que bem poderia ser o avião Lockheed Electra pilotado por Amelia, além de um pedaço de alumínio (de sua suposta fuselagem) semi-soterrado na areia da praia, e restos de um antigo acampamento na ilha, o mesmo onde, décadas antes, em 1940, foram encontradas alguns ossos humanos.

Mas, na ocasião, os ossos não foram devidamente analisados, por terem sido considerados como parte do esqueleto de um homem, e não de uma mulher, como os investigadores buscavam. E, com o tempo, os ossos acabaram sumindo num laboratório das Ilhas Fiji.

Até que, décadas depois, com base em fotos da ossada, pesquisadores concluíram que aquela ossada pertencera a uma mulher e que esta mulher bem poderia ter sido Amelia Earhart – que, neste caso, teria sobrevivido a um pouso de emergência no mar (talvez, seu navegador não), mas morrido como náufraga, numa ilha deserta, sem água, nem comida.

“Mulheres náufragas não eram comuns naquela época, muito menos numa parte tão isolada do planeta”, alegou, na ocasião, o responsável pela pesquisa da Tighar, a mesma que, agora, está servindo de base para a expedição de Ballard.

“Vamos vasculhar o fundo do mar no entorno da ilha, com, inclusive, um mini submarino, em busca de vestígios do avião, que, após tanto tempo, certamente já está despedaçado”, diz Ballard, que está a caminho da ilha. “Se encontrarmos algo, talvez seja a prova de que Amelia não morreu na queda do avião, muito menos no local onde sempre se imaginou que isso aconteceu”.

Pela teoria mais aceita até hoje, Amelia Earhart e seu navegador caíram no mar nas proximidades de ilha Howland, onde iriam reabastecer para continuar a travessia do Pacífico, e bem perto do próprio navio na Marinha Americana Itasca, que dava apoio pelo rádio para que a aviadora encontrasse a pequena ilha na imensidão do oceano.

Trágica falha de comunicação

Navio e avião mantiveram contato por um bom tempo, até Amelia deixar de responder aos chamados do operador, talvez por uma falha no equipamento. Desesperada, a tripulação do Itasca chegou a enviar mensagens em código Morse, que foram recebidas, mas não respondidas pelo navegador Fred Noonan, e até acionou das chaminés do navio, para que a fumaça servisse de referência para a aviadora. Mas foi em vão.

Mas, na região de Howland, todas as buscas foram infrutíferas, o que levou a Tighar e Ballard a avançarem suas pesquisas em outro sentido: o de que, o que quer que tenha acontecido, aconteceu longe dali, em Nikumaroro.

“Nikumaroro fica na mesma direção que Amelia seguia, só que bem depois de Howland. Ela pode ter passado reto pela ilha, sem tê-la visto, e seguiu em frente, até ficar sem combustível. Mas, talvez, seu avião não tenha caído e sim feito um pouso de emergência no mar, junto ao atol. Se acharmos o avião, será a prova de que ela não morreu na queda nem afogada”, diz o famoso pesquisador.

E como Ballard chegou a esta conclusão?

“Sou um caçador de naufrágios e, para isso, me ponho no lugar das vítimas. Se eu estivesse no lugar de Amelia, naquela situação aflitiva, seria isso o que eu faria: tentaria pousar perto de uma ilha e sair nadando até ela”, explicou Ballard, antes de partir das Ilhas Samoa rumo ao atol onde fará suas buscas, na quinta-feira passada.

Aviadora mais famosa da História

O que torna o desaparecimento de Amelia Earhart intrigante até hoje é a própria história da aviadora, repleta de feito inéditos.

Mulher muito à frente do seu tempo, ela começou a se interessar pela aviação numa época em que o sonho de praticamente todas as mulheres era apenas casar, ter filhos e se tornar uma exemplar dona de casa.

Em 1920, ela aprendeu a pilotar aviões. E menos de oito anos depois, em junho de 1928, conseguiu que fosse incluída na tripulação (junto com dois homens) da equipe que levaria a primeira mulher a fazer a travessia do Atlântico pelos ares.

A travessia foi um sucesso, mas Amelia saiu do avião irritada, porque não lhe foi permitido fazer praticamente nada durante o voo.

“Fui um mero lastro na viagem. Um saco de batatas teria feito a mesma função que eu tive no avião”, resumiu a audaciosa aviadora, que, por isso, tratou de criar o seu próprio projeto: o de ser a primeira mulher a atravessar o Atlântico pilotando, sozinha, um avião, o que faria quatro anos depois.

O feito transformou Amelia em uma celebridade, sobretudo nos Estados Unidos.

Novo objetivo: dar a volta ao mundo

Em seguida, embalada pela fama e popularidade, ela apresentou um projeto ainda mais ousado: tornar-se a primeira mulher a voar ao redor do mundo pilotando o próprio avião, mas, desta vez, dada a complexidade da viagem, tendo a companhia de um navegador, Fred Noonan.

A dupla partiu da Califórnia em março de 1937, mas não passou da primeira escala, no Havaí, quando uma falha na decolagem causou problemas mecânicos no avião. A travessia for abortada, mas não cancelada.

Três meses depois, Amelia e Fred partiram de novo, com o mesmo Lockheed Electra, mas, desta vez, no rumo oposto, no sentido oeste/leste, a fim de aproveitar os ventos predominantes.

A jornada, que começou em Miami e incluiu até uma escala em Natal, no litoral do Nordeste brasileiro, avançou pela África, Oriente Médio e Ásia, até chegar a Papua Nova Guiné, onde Amelia se preparou para o trecho mais desafiador da viagem: a travessia do Pacífico, o maior oceano do planeta.

Ela nunca chegou lá

Como seu avião não tinha autonomia para tão longa travessia, foi combinado que ela faria uma escala na Ilha Howland, para reabastecer, e que o navio Itasca ficaria nas proximidades, dando apoio pelo rádio e indicando a localização exata da ilha – que, no entanto, jamais foi alcançada pela aviadora.

Nas últimas comunicações via rádio, Amelia, que hoje tem até site na internet com os últimos avanços na sua busca interminável, reportou que estava com pouco combustível, para, em seguida, começar um desencontro geral de informações entre a avião e o navio – que culminou com um angustiante e trágico silêncio por parte da aviadora.

Se o avião de Amelia Earhart caiu ali mesmo, nas proximidades da ilha que deveria atingir, como sempre defenderam as teorias mais populares (embora jamais tenha sido encontrado nenhum vestígio disso no entorno da Ilha Howland), ou se ela voou a esmo sobre o Pacífico até acabar a última gota de combustível, a expedição de Ballard não irá analisar.

Mas se ela teve a sorte de conseguir pousar junto ao atol de Nikumaroro, para depois, no entanto, definhar e morrer como náufraga numa ilha deserta (ao contrário de três aviadores americanos que viveram uma incrível experiência de sobrevivência na Segunda Guerra Mundial – clique aqui para conhecer também essa história), isso Ballard garante que irá provar.

“O desaparecimento de Amelia Earhart é, talvez, o maior enigma não explicado do século passado. E cada vez que uma nova expedição fracassa, aumenta ainda mais o mistério em torno dela”, diz o famoso pesquisador, que espera começar a responder esta semana o que, afinal, aconteceu com a famosa aviadora que sumiu no oceano.

Fotos Nautilus Live/Divulgação e ameliaearhart.com

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Remar canoas havaianas: a nova onda das mulheres de uma ilha bem brasileira http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/07/remar-canoas-havaianas-a-nova-onda-das-mulheres-de-uma-ilha-bem-brasileira/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/07/remar-canoas-havaianas-a-nova-onda-das-mulheres-de-uma-ilha-bem-brasileira/#respond Wed, 07 Aug 2019 16:39:04 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1245

Todos os dias, faça chuva ou sol, um grupo de pacatas mães e donas de casa de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, acorda bem cedo para praticar uma atividade não muito comum entre mulheres: remar canoas no mar.

E o mais curioso é que elas não são atletas. Fazem isso apenas porque gostam, cada vez mais, de remar juntas em grupos de seis em cada barco, grandes, compridas e curiosas canoas, com uma espécie de flutuador numa das laterais, que aqui no Brasil foram batizadas como canoas havaianas – e que viraram a mais nova onda na ilha mais famosa do litoral de São Paulo.

“Nunca me imaginei remando um barco, mas agora não me vejo fazendo outra coisa melhor”, diz uma das mais assíduas praticantes, a aposentada Maria Celeste Barbosa, de 69 anos, mãe de dois filhos e avó de dois netos, que hoje até afirma que deve sua vida à atividade.

“Foi graças ao remo que descobri que estava prestes a ter um infarto, porque certo dia fiquei muito cansada. Daí, fui fazer exames e descobri que minhas artérias estavam quase entupidas. Não fosse o alerta dado pela canoa, talvez eu não estivesse mais aqui”.

Idade não é problema

Prestes a completar 70 anos, Maria Celeste não é nenhuma exceção à regra. Em Ilhabela, a maioria das praticantes do remo em canoa havaiana são mulheres que há muito deixaram a juventude para trás. Mas que nem por isso se aposentaram dentro de casa.

“Só quando alguma nova colega do grupo me chama de ‘senhora’ é que lembro a minha idade”, brinca Maria Celeste, que por conta do prazer que a atividade lhe proporciona até mandou fazer uma pequena tatuagem no braço. “No Havaí, as canoas são sagradas e, para mim, também passaram a ser. É um santo remédio para o corpo e a mente”.

A opinião é compartilhada por dez em cada dez praticantes da atividade, que, embora também seja feita por homens, caiu em cheio no gosto das mulheres – sobretudo em Ilhabela, onde elas já passam de dezenas de remadoras, a maioria delas sem nenhum interesse ou ambição na versão competitiva do esporte.

Depois do câncer, a canoa

“Remamos juntas apenas porque isso é delicioso, estimula o corpo e fomenta novas amizades, além de colocar a gente em contato direto com a natureza, em pleno mar”, explica outra madura praticante assídua, a ex-psicóloga Ivone Waldeck, de 57 anos, que, ao contrário de Maria Celeste, só descobriu os prazeres da atividade após um sério problema de saúde.

“Tive câncer de mama, precisei fazer mastectomia e, deprimida, ficava olhando para o mar. Um dia, lendo um artigo de um conceituado médico canadense, descobri que remar aquele tipo de barco, onde o esforço é dividido com outras pessoas, fazia bem para mulheres mastectomizadas, porque fortalecia a musculatura sem exigir muito esforço. Daí, comecei a remar. E nunca mais parei”, diz Ivone.

“70% dos membros do nosso clube são mulheres”, confirma Marcos Möller, coordenador do Paddle Club Ilhabela, um dos três clubes de canoas havaianas que já existem na ilha, embora o “clube” não passe de uma simples faixa de areia na prainha em frente à marina onde ficam guardados os barcos.

“Elas vêm uma vez para experimentar, gostam e começam a trazer as amigas, até porque remar em grupo é muito divertido e desenvolve a harmonia e a convivência, porque, se não houver total sintonia nas remadas, a canoa não avança”, explica Marcos, que completa: “É preciso espírito coletivo e total interação do grupo para fazer a canoa avançar com ritmo e eficiência. E isso é simplesmente contagiante”.

Seis ao mesmo tempo

Por suas características, as canoas havaianas – criadas na Polinésia há 3 mil anos, mas que só começaram a chegar ao Brasil há menos de 20 anos – não podem ser remadas por apenas uma pessoa. As mais habituais exigem seis remadoras, em total sincronia de movimentos, o que implica na total integração do grupo.

“Entre começar a remar em sintonia e virar uma grande amizade é meio passo”, atesta outra apaixonada praticante das canoas havaianas, a ex-paulistana, hoje moradora de Ilhabela, Mônica Nunes, de 52 anos e mãe de dois filhos.

E é de graça!

“As pessoas podem ser totalmente diferentes, pensar em direções opostas, mas quando entram nas canoas e começam a remar ficam todas absolutamente iguais, porque é a harmonia que faz o barco avançar”, explica Mônica, que pelo menos três vezes por semana acorda bem cedo e sai para remar – não raro, levando junto uma nova amiga que nunca remou na vida.

“Nas canoas, todo mundo é bem-vindo, até porque não há grandes restrições físicas. Daí o sucesso entre as mulheres, mesmo aquelas que nunca praticaram nenhum esporte”, diz Marcos, que só vê aumentar a frequência do clube que criou só para as canoas havaianas e que nada cobra dos associados.

“As canoas são de uso coletivo e ninguém paga nada por isso. É só chegar e se enturmar”, convida.

E cada vez mais mulheres de Ilhabela estão aceitando o convite e criando, com isso, um novo hábito na ilha: o remo feminino, de manhã bem cedo, todos os dias.

Fotos Fabio Mota/Marcos Möller/Arquivos Pessoais

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Nadando no lixo: francês está cruzando, a nado, o maior lixão dos mares http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/05/nadando-no-lixo-frances-esta-cruzando-a-nado-o-maior-lixao-dos-mares/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/08/05/nadando-no-lixo-frances-esta-cruzando-a-nado-o-maior-lixao-dos-mares/#respond Mon, 05 Aug 2019 19:09:50 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1226

Em dezembro do ano passado, o nadador francês naturalizado americano Ben Lecomte, de 51 anos, precisou desistir da inédita travessia que vinha fazendo no Oceano Pacífico a nado por um problema que não teve nada a ver com sua capacidade para encarar aquele desafio monumental: seu barco de apoio quebrou e a travessia teve que ser abortada quando ele já havia cumprido dois terços do caminho e se aproximava do Havaí.

Na ocasião, apesar da decepção, o supernadador não saiu da água totalmente frustrado, porque um novo projeto brotara em sua mente, justamente enquanto ele nadava: voltar a nadar no Pacífico, mas numa área específica, a da maior concentração de lixo plástico do mundo, que fica entre o Havaí e a Califórnia.

“Enquanto eu nadava, vi tanto lixo e plástico no mar que conclui que a melhor maneira de ajudar a chamar a atenção das pessoas para a gravidade desses dois problemas seria nadar no maior lixão oceânico do planeta”, disse o nadador.

E é isso que Lecomte está fazendo neste exato instante.

Em 14 de junho último, ele partiu do mesmo ponto onde terminou precipitadamente sua épica jornada anterior, com o objetivo de atravessar, a nado, a área que é tida como a de maior concentração de lixo e resíduos plásticos de todos os oceanos.

Lecomte quer sentir o problema, literalmente, na pele.

“Na travessia do Pacífico, cansei de esbarrar em peças plásticas na superfície e ver grandes emaranhados de redes de pesca abandonados no meio do mar e é isso que nossa expedição irá registrar e tentar mensurar”, disse Lecomte antes de começar sua bisonha travessia, que é acompanhada de perto por um barco de apoio, onde vão dez voluntários e pesquisadores do projeto, e onde ele descansa após os turnos de horas seguidas nadando.

“Nossa missão não é recolher o lixo, porque para isso seriam necessários navios tal a quantidade de lixo na água, mas sim mensurar o problema, através de medições da quantidade de micropartículas de plásticos a cada captura que fazemos com uma espécie de rede que levamos no barco”, explicou o nadador, que acaba de completar dois terços da travessia, que, no total, terá mais de 550 quilômetros.

Até aqui, entre outros absurdos, Lecomte e equipe já encontraram escovas de dente e tampas de privada no meio do oceano, incontáveis tampinhas de garrafas pet, um cesto de lavanderia coberto de cracas (sinal de que estava no mar há muitos anos), diversas boias marítimas e uma inacreditável quantidade de redes de pesca abandonadas no mar – as chamadas “redes fantasmas” – que mesmo fora de uso continuam capturando e matando peixes e demais seres marinhos que nelas se enroscam.

A equipe também capturou um peixe da espécie dourado, que, ao ser aberto, revelou inúmeros pedacinhos de plástico no estômago.

Este é o maior problema da questão do lixo plástico nos mares: os microplásticos, que geralmente não são visíveis, mas acabam sendo engolidos pelos peixes e tartarugas, que os confundem com comida.

“As peças maiores, como garrafas pet, costumam chocar mais as pessoas, porque mostram a quantidade absurda de lixo que já há nos oceanos, mas são as minúsculas partículas do plástico que já se decompôs na água que representam o verdadeiro risco para a fauna marinha, porque são letais ao serem engolidas”, explica o nadador

Logo no primeiro dia, quando Lecomte ainda nadava em águas havaianas, ele encontrou uma grande rede de pesca abandonada no mar e a captura de amostra da água revelou 95 partículas de microplásticos em apenas meia hora de coleta – número que, depois, subiria para mais de 500 partículas na parte mais crítica do chamado “Lixão do Pacífico”, onde Lecomte se encontra neste momento (veja a posição atual do nadador e o caminho que ele já percorreu).

Segundo pesquisadores, a cada ano, oito milhões de toneladas de lixo plástico vão parar no oceano Pacífico, levados, sobretudo, pelos rios que nele deságuam. Mas o que é visto boiando na superfície representa apenas 1% disso.

“99% dos resíduos plásticos que poluem os mares estão submersos ou transformados em micropartículas, que se tornam fatais para os seres marinhos ao serem ingeridas”, diz o cientista ambiental Markus Eriksen. “O que vemos na superfície é só a pontinha do iceberg”.

Mesmo assim, o pesquisador é otimista.

“Ainda dá tempo de fazer algo e reverter este quadro. Mas é preciso agir rápido e convencer as pessoas de todo o planeta de que sempre que elas descartam lixo fora dos locais apropriados, ele vai parar no mar, levado pelas enchentes, pelas tubulações e pelos rios. Este hábito precisa mudar”.

Os mais pessimistas, no entanto, vêem a questão com outros olhos, bem mais alarmantes.

Segundo eles, em 2050 (portanto, daqui há apenas 31 anos), haverá mais plásticos do que peixes nos oceanos. E é quase isso que o nadador francês já está encontrando no ponto do Pacífico onde ele está nadando.

“Aqui, o mar parece uma sopa de resíduos plásticos, que não dissolvem tão rápido quanto o resto do lixo. Não passo mais de meia hora na água sem esbarrar em sacolinhas plásticas e outras porcarias. E isso a mais de 1000 quilômetros da costa”, diz o nadador, que está nadando há mais de 50 dias e já venceu 350 dos 550 quilômetros previstos.

A razão pela qual essa monumental quantidade de plástico se concentra naquele ponto específico do Pacífico tem a ver com as correntes marítimas.

Ali, diversas correntes se encontram e ficam dando voltas sem parar, no chamado Giro do Pacífico, uma espécie de corrente marítima circular.

Por conta dessa característica, aquela parte do Pacífico virou uma espécie de gigantesco redemoinho, concentrando a maior parte da sujeira do oceano, sobretudo o plástico, que leva décadas para começar a se degradar na água.

Uma garrafa de plástico lançada ao mar na costa da Califórnia irá chegar ao litoral do Japão, do outro lado do Pacífico, num prazo estimado entre três e cinco anos. E após outro período igual a esse, retornará ao mesmo ponto, dando início a um novo giro. E assim indefinidamente.

Por ficar eternamente girando no oceano, o ciclo do lixo no Pacífico não termina nunca. E o plástico, que compõe a grande maioria dele, praticamente também não. “O plástico foi feito para desafiar a natureza”, lamenta um ambientalista da equipe de Lecomte.

Esta perversa característica das correntes marítimas da região foi descoberta, por acaso, em 1990, quando um navio deixou cair um container com 65 000 pares de tênis no meio do Pacífico. Embora o container tenha espalhado sua carga no mar, nenhum tênis jamais chegou à costa, por conta das correntes circulares. E estão lá até hoje.

Segundo a oceanógrafa Sarak Royer, da Universidade do Havaí, plásticos que foram parar no mar quando do início da popularização deste material, na década de 1950, ainda seguem boiando no Pacífico ou (o que é ainda pior) transformados em micropartículas, com efeito fatal para os seres marinhos.

“É como se o ar que respiramos estivesse impregnado de partículas toxicas”, compara a oceanógrafa. “É isso o que a humanidade está fazendo com os peixes, baleias e tartarugas, ao permitir que o lixo plástico chegue ao mar”.

Na semana passada, enquanto nadava, Lecomte viveu uma experiência diferente e algo assustadora. Ao parar para livrar alguns peixes ainda vivos que estavam presos numa rede abandonada, surgiu um tubarão, que abocanhou os animais a pouca distância dele.

“Sempre vejo tubarões quando estou nadando em alto mar, mas jamais fui atacado”, diz o nadador, que explica a razão da inusitada travessia que vem fazendo há quase dois meses:

“Estamos coletando dados para a criação do primeiro levantamento realmente prático da poluição marinha causada pelo plástico”, explica o nadador, cuja equipe também está aplicando sinalizadores de GPS nos objetos maiores que encontra no mar.

“Também queremos saber exatamente como o lixo navega no Pacífico”, diz Lecomte, que tem no currículo outras façanhas incríveis, como a travessia do Atlântico, também a nado, em 1998.

Na ocasião, contudo, seu feito foi bastante questionado, porque, enquanto Lecomte descansava no barco de apoio, a embarcação seguia navegando, o que encurtou barbaramente a distância que ele efetivamente nadou (conheça esta história).

Já na travessia seguinte, a do Pacífico (que, agora, se transformou numa mistura de aventura com experimento científico), isso não mais acontece. Lecomte garante que irá vencer os mais de 550 quilômetros do maior lixão dos mares, literalmente, no braço

A previsão é que a curiosa travessia termine no início do mês que vem.

Até lá, muito lixo ainda irá passar sob os braços do supernadador.

Fotos: Divulgação/The Longest Swim

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Último desejo: mulher que levou 25 anos fazendo um barco terá cinzas no mar http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/07/31/ultimo-desejo-mulher-que-levou-25-anos-fazendo-um-barco-tera-cinzas-no-mar/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/07/31/ultimo-desejo-mulher-que-levou-25-anos-fazendo-um-barco-tera-cinzas-no-mar/#respond Wed, 31 Jul 2019 19:59:23 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1212

A paulista Elfriede Galera, de 64 anos, que passou um quarto de século construindo um pequeno barco no quintal de sua casa, sem dinheiro nem recursos e com a ajuda apenas do marido, morreu nesta terça (30), vítima de câncer generalizado, depois de passar os últimos dez anos enfrentando bravamente a doença.

Esta batalha, no entanto, jamais a fez perder o otimismo pela vida e o prazer de usar o barquinho que ela construiu, ao longo de incansáveis 25 anos.

Agora, seu último desejo será atendido pela família: suas cinzas serão lançadas ao mar, mas de uma maneira muito especial: a partir do mesmo barco que ela construiu com as próprias mãos, durante duas décadas e meia.

Assim que as cinzas forem entregues à família, o viúvo, Jadyr Galera, e os dois filhos do casal, Nicole e Patrick, partirão de Ilhabela, onde o veleirinho de menos de nove metros de comprimento se encontra desde que ficou pronto, para o derradeiro passeio de Elfriede, a “Frida”, como gostava de ser chamada, no barco que tanto ela amava e que considerava “seu filho mais velho”.

O destino será um ponto específico no mar, que ela escolheu, meses atrás.

“Não quero choro nem tristeza. Enquanto o meu barquinho existir, eu, de certa forma, também estarei viva”, disse Elfriede meses atrás, ao escolher como gostaria de se despedir da vida.

Elfriede era dona de uma alegria contagiante e de uma maneira extremamente positiva de encarar a vida. E isso mesmo nos piores momentos, como foram os últimos dez anos de intensas, seguidas e sofridas sessões de quimioterapia.

Por conta desse jeito de encarar a vida ela concedeu várias entrevistas, a última delas para a capa da revista Saúde deste mês, onde estampou, com um largo sorriso, a alegria de estar viva até aquele dia.

A edição de julho da Revista Saúde, com Elfriede na capa (foto: Reprodução)

Ultimamente, Elfriede vinha se dedicando a uma tarefa igualmente nobre: levar outras mulheres também pacientes terminais de câncer para passear no seu pequeno barco ou em outros, cedidos pelo Clube de Vela Flash, na Represa de Guarapiranga, em São Paulo.

“Quero que elas sintam o mesmo prazer que eu sinto todas as vezes que saio com o barco e sinto o vento bater no meu rosto, me fazendo esquecer totalmente a doença”, explicava Elfriede.

Para isso, ela criou, junto com o marido, o Projeto Velejando Contra o Câncer de Mama, que levava mulheres doentes e financeiramente carentes para velejar – não raro pela primeira vez na vida.

Agora, o viúvo Jadyr Galera pretende dar sequência ao projeto, através do Instituto que ele criou, meses atrás, com o nome da ex-esposa.

“Quando ela pisava no barco, ela se transformava, esquecia a doença e sorria ainda mais”, recorda Jadyr.

“Tenho certeza que, esteja onde ela estiver, ela vai gostar de passear, pela última vez, no barco ao qual dedicou quase metade da vida”.

Após passar 25 anos construindo um barco, Elfriede Galera, protagonista de uma admirável história, irá, agora, se despedir da vida dentro dele.

Muito provavelmente, feliz da vida.

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Buscar e recolher lixo plástico no mar: a nova missão da família Schurmann http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/07/30/buscar-e-recolher-lixo-plastico-no-mar-a-nova-missao-da-familia-schurmann/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/07/30/buscar-e-recolher-lixo-plastico-no-mar-a-nova-missao-da-familia-schurmann/#respond Tue, 30 Jul 2019 20:36:04 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1192

Após três voltas ao mundo navegando e mais de 35 anos de mar, os Schurmann, mais famosa família de navegantes do Brasil, se preparam para o maior dos desafios que já enfrentaram: ajudar a livrar os oceanos da absurda quantidade de lixo plástico que vem sendo lançada ao mar pelo homem, desde que este material foi inventado.

Batizado de Voz dos Oceanos, o novo projeto terá início no que vem e levará os Schurmann (pai Vilfredo, mãe Heloisa, filhos David e Wihlen e, agora, também a nora Érica e o neto Emmanuel) a dar uma quarta volta ao redor do mundo, desta vez em busca de… lixo. Isso mesmo. Mais precisamente, resíduos e artefatos feitos de plástico que, cada vez mais, estão sendo descartados ou indo parar acidentalmente no mar – um problema já tão gigantesco quanto os próprios oceanos.

“O problema é realmente sério e, se todos os seres humanos do planeta não começarem a agir já, talvez a previsão dos cientistas de que daqui a 30 anos haverá mais plástico do que peixes no mar se concretize”, diz Vilfredo, comandante do veleiro da família, o Kat, de quase 25 metros de comprimento, que, uma vez mais, será usado na longa viagem.

“Vamos passar um ano e meio navegando pelo planeta para avaliar, na prática, como está a questão do lixo plástico nos oceanos. E os dados que coletarmos servirão para ajudar os pesquisadores. Mas sabemos que teremos muito trabalho, porque os resíduos plásticos já se espalharam por todos os mares”, explica Vilfredo.

“Hoje, esteja onde estiver, você verá objetos feito de plástico boiando no mar”.

Lixo no mar brasileiro

Para dar um exemplo prático disso – e, ao mesmo tempo, conscientizar alguns jovens formadores de opinião na internet sobre a gravidade do problema -, os Schurmann fizeram, na semana passada, uma pequena amostra da viagem que começará em abril do ano que vem.

A família convidou os atores Hugo Bonemer, Priscila Sol e Dani Moreno, o youtuber Maicon Santini e o apresentador Felipe Solari para navegar com eles do Rio de Janeiro à Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, fazendo escalas em praias da Ilha Grande e de Ubatuba, onde foram coletados e avaliados resíduos de material plástico que chegam pelo mar.

Batizado de Projeto Conexão Schurmann #MaresLimpos, o resultado, como a família já esperava, foi assustador: foram encontrados lixos plásticos no mar durante toda a viagem, que durou cinco dias.

“Só na praia da Parnaióca, do lado da fora da Ilha Grande, onde quase nenhum turista vai, nós enchemos três galões com lixo plástico em apenas 15 minutos, e vasculhando não mais do que 20 metros de areia na beira d’água. Tinha de tudo: pedaços de cano de PVC, cabos de náilon, garrafas pet, lâmpadas de LED e muitas, muitas sacolinhas. Foi uma tristeza, mas serviu para ilustrar bem o problema para os jovens comunicadores que estavam com a gente no barco. E eles ficaram chocados”, contou Vilfredo, ao desembarcar em Ilhabela.

“Eu sabia que a questão do lixo no mar era delicada, mas não imaginava que já estivesse neste nível de gravidade”, contou Priscila Sol.

“Encontramos muito mais lixo do que eu esperava. Agora vou passar isso adiante, especialmente para as crianças, que são a única esperança para mudar este quadro no futuro”, disse a atriz, que atou na recente novela Carinha de Anjo, do SBT, e possui mais de 350 mil seguidores, ao desembarcar.

“Se não mudarmos a mentalidade das pessoas e usar a opinião pública para pressionar governos e fabricantes de embalagens, não haverá remédio”, avalia Vilfredo, que explica que a grande maioria do lixo que se está no mar não foi colocado propositalmente lá.

“80% do lixo que está no mar veio dos rios, que nele deságuam. Portanto, quem jogar uma garrafa pet num rio no interior de Minas Gerais tem grande chance de fazê-la ir parar no meio do Atlântico. Mesmo o lixo jogado na rua pode ir parar no mar, levado pelas galerias de águas das cidades. Todo mundo deveria pensar nisso, antes de descartar qualquer coisa”, diz Vilfredo Schurmann.

Esta foi a segunda expedição que a família Schurmann fez com o mesmo objetivo: chamar a atenção pública para a questão do lixo, sobretudo os resíduos plásticos, no mar. A primeira foi meses atrás, na ilha de Fernando de Noronha, um paraíso natural que já sofre com o problema do lixo que chega pelo mar. Quase sempre, de muito longe.

“Alguns países da Ásia ainda lançam o lixo diretamente nos rios ou o descartam no mar. E muito desse lixo vem parar na costa do Brasil, através das correntes marítimas. Mas isso, felizmente, está mudando através da educação das pessoas. Na China, até pouco tempo atrás, ainda havia o costume de cuspir nas ruas. Hoje, ninguém mais faz isso. Ou seja, é possível mudar até os piores hábitos culturais”, analisa Vilfredo, que não acha que sair catando lixo nas praias seja um trabalho inútil, face a monumental quantidade de resíduos que já polui os mares de todo o planeta.

“Se cada pessoa recolher uma latinha de cerveja ou garrafinha de plástico na areia da praia e dar a ela o destino correto, já dará um resultado incrível”, diz Vilfredo.

“Mas se ninguém começar a fazer isso, aí sim estaremos perdidos”.

Na expedição da semana passada, os Schurmann usaram uma espécie de rede fina de arrasto no barco, que eles mesmo desenvolveram, para recolher resíduos no mar, especialmente micro resíduos de plástico, gerados pela deterioração do material após anos de imersão e que nem sempre são visíveis na água.

“O micro plástico é o maior de todos os problemas, porque, por ser pequeno, acaba engolido pelos peixes e seres marinhos. Os mesmos que nós, depois, consumimos como alimento”, acrescenta Heloisa Schurmann.

“O ideal seria que todas as cidades do mundo tivessem coletas seletivas de lixo, para separar o que pode ser reciclado, além de compactadores, para diminuir os volumes de resíduos, como temos no nosso barco”, diz Wihelm Schurmann, que mora no veleiro da família, junto com a mulher Érica, e possui até uma pequena horta a bordo, onde cultiva temperos, ervas e tomates.

“Somos um barco ecosustentável”, diz, orgulhoso. “Mas, infelizmente, ainda somos exceção à regra”.

“O Brasil recicla apenas 6% do lixo que produz, e isso já dá uma boa ideia da dimensão do problema que teremos no futuro, se não começarmos a fazer algo agora. A economia circular, onde tudo o que é descartado vira produto de novo, é a única saída para a questão do lixo. No mar, o rastro e alcance do plástico já é assustador. Com o nosso projeto, queremos deixar um legado: o de mostrar e alertar para o problema”, conclui Vilfredo.

Enquanto isso, neste exato momento, o nadador francês naturalizado americano Ben Lecomte está fazendo algo ainda mais extraordinário no oceano Pacífico: está atravessando, a nado, a área com a maior concentração de lixo no mar do planeta, uma espécie de corrente marítima circular que existe entre o Havaí e a Califórnia.

Escoltado por um barco de apoio, no qual dorme, se alimenta e descansa, Lecomte já nadou metade da distância de 300 milhas náuticas (cerca de 550km) que se propôs a atravessar, “porque representa os 300 milhões de toneladas de plástico que o mundo produz por ano”, e vem encontrando coisas bizarras no meio do oceano, como escovas de dente e inúmeras redes de pesca abandonadas, chamadas de “redes fantasmas”. Mesmo desativadas, elas seguem capturando e matando peixes e seres marinhos.

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“Foi horrível”, diz navegadora espancada por ladrões em pleno mar da Bahia http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/07/25/foi-horrivel-diz-navegadora-espancada-por-ladroes-em-pleno-mar-da-bahia/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/07/25/foi-horrivel-diz-navegadora-espancada-por-ladroes-em-pleno-mar-da-bahia/#respond Thu, 25 Jul 2019 17:16:59 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1179

Uma velejadora capixaba que participava de um alegre cruzeiro coletivo de 15 barcos pela costa brasileira foi atacada por dois bandidos (ou “piratas”, como se diz em caso de ataques no mar) nesta quarta-feira (24), quando descansava em seu barco, ancorado na baía de Camamu, no litoral sul da Bahia.

Maria Augusta Favarato, mais conhecida como Guta, foi dominada com facilidade por dois bandidos que chegaram numa canoa e abordaram o barco. Eles a amordaçaram, amarraram, prenderam seus pés e mãos à uma cadeira. Guta foi espancada durante um bom tempo, até conseguir indicar, através apenas do olhar, já que não podia falar nem se movimentar, onde estava a sua bolsa, com a carteira, que era o que os bandidos queriam.

“Eles só perguntavam por dinheiro, onde estava o dinheiro, achando que a gente, por estar num veleiro, era milionário”.

“Como eu não conseguia me comunicar, porque estava imobilizada, apanhava ainda mais. Apanhei no rosto, nas pernas, na barriga, nas costelas e fiquei com hematomas pelo corpo inteiro”, disse a velejadora.

Guta viajava com o marido, Fausto, e o cachorrinho do casal, o pinscher Xerife, que tem esse nome justamente porque ajuda a proteger o barco e dá alerta sempre que alguém se aproxima. Mas eles não estavam no barco no momento do ataque.

“O Fausto desembarcou para levar nosso cachorrinho até terra firme e eu fiquei na cabine do barco, descansando. Em seguida, ouvi alguém chamando ‘Dona! Dona!’, e saí para ver quem era. Dei de cara com um sujeito subindo no barco, com uma faca na mão, enquanto outro ficou na canoa. Eu corri para a cabine, mas não consegui fechar a porta a tempo. Daí ele entrou e me imobilizou. Acho que eles estavam nos vigiando e sabiam que o meu marido havia saído com o cachorro”, diz Guta, que mora no próprio barco com o marido há 18 anos e já deu a volta ao mundo navegando.

“Antes de sair, o ladrão me espancou ainda mais e eu desmaiei. Quando acordei, meus pés estavam roxos pelo aperto da fita na cadeira. Para pedir socorro, me arrastei pelo chão com a cadeira até o rádio do barco e me machuquei ainda mais. Mas, pelo menos, consegui pedir chamar os outros barcos do cruzeiro e eles vieram me ajudar”, contou a navegadora, que, agora, está tentando ir até uma delegacia de polícia registrar a ocorrência, já que o barco do casal está ancorado numa área erma e remota da baía de Camamu.

“Estou tão machucada e dolorida que não consigo sair do barco, mas vou tentar ir até a polícia, diz Guta, que lamentou não ter uma arma a bordo.

“Se eu tivesse, como todo cidadão brasileiro, o direito de me defender, tenho certeza que não teria sido espancada nem roubada, porque tive tempo para reagir. É um absurdo ser impedida pela lei de me defender”, diz a velejadora.

Ela, junto com o marido, ganha a vida hospedando pessoas no seu barco.

“Somos uma espécie de pousada flutuante e vivemos disso”, diz Guta, que perdeu R$ 1.200 no assalto. “O bandido levou até as moedas que estavam na minha bolsa e ficava o tempo todo me cutucando com o cabo da faca, ameaçando me matar, enquanto me espancava”.

O ataque à velejadora, que acabou de publicar um livro em que fala justamente dos prazeres de viver num barco (ela e o marido moram no próprio veleiro, com o qual já visitaram mais de 30 países, sem nenhum tipo de ocorrência até ontem), gerou indignação nos demais participantes do cruzeiro. Eles, então, decidiram lançar imediatamente um abaixo-assinado pela internet, exigindo mais segurança também para quem está no mar.

“A pirataria está igualmente se espalhando pelo nosso país, com violência e requintes de crueldade”, diz o documento.

“É preciso que o governo crie uma força-tarefa especializada nesse tipo de crime. Não podemos permitir que os bandidos façam o que bem quiserem também no mar” finaliza o abaixo-assinado, que está coletando assinaturas na internet e será entregue às autoridades assim que o cruzeiro chegar a Salvador, na Bahia, onde terminará o cruzeiro.

A agressão à velejadora fez a comunidade náutica e todos os ocupantes dos demais barcos do cruzeiro recordarem da morte do também navegador paranaense Abel Aguilar (amigo de muitos deles, por sinal), dez anos atrás, quando dormia em seu barco na Ilha de Itaparica, também na Bahia.

Abel foi atacado enquanto dormia no barco por dois homens, levou dois tiros à queima-roupa e morreu na hora. Os bandidos fugiram e foram perseguidos por uma escuna. Para escapar, se atiraram ao mar. Mas foram presos no dia seguinte.

O caso mais famoso de pirataria contra navegadores em águas brasileiras, no entanto, aconteceu em dezembro de 2001, quando o velejador neozelandês Peter Blake, na época o mais celebrado navegador do mundo, foi assassinado por bandidos que também invadiram o seu barco quando ele estava ancorado em Macapá, capital do Amapá, durante um intervalo da expedição científica que vinha fazendo pela Amazônia.

A morte estúpida de Blake, que era uma espécie de ídolo nacional na Nova Zelândia e considerado um dos maiores velejadores de todos os tempos, gerou indignação mundial e encheu o Brasil de vergonha.

“Só espero nunca mais passar por nada perto disso”, diz Guta, que, machucada e traumatizada, ainda mal consegue caminhar. “Foi horrível”.

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Por que estão aparecendo tantas baleias no litoral de São Paulo? http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/07/24/por-que-estao-aparecendo-tantas-baleias-no-litoral-de-sao-paulo/ http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/2019/07/24/por-que-estao-aparecendo-tantas-baleias-no-litoral-de-sao-paulo/#respond Wed, 24 Jul 2019 20:39:44 +0000 http://historiasdomar.blogosfera.uol.com.br/?p=1140

“No ano passado, em dois meses e meio de monitoramento, eu avistei e cataloguei 42 baleias jubartes na região de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Este ano, em apenas um mês e meio, já registrei mais que o dobro disso: 91 baleias. Um crescimento de quase 120% e praticamente na metade do tempo!”.

Quem diz isso – e comemora o fato – é um especialista em avistagens de baleias: o ex-executivo paulista Julio Cardoso, criador do Projeto Baleia à Vista, que se dedica a registrar, com dados, informações e sobretudo imagens, as baleias que visitam as águas do litoral norte de São Paulo.

“Nunca vi tantas baleias por aqui. É, sem dúvida, um recorde”, festeja Julio, que monitora bem de perto o surgimento de baleias no litoral norte de São Paulo há 15 anos.

“De 2004 a 2010, eu praticamente não vi baleias da espécie jubarte, uma das maiores do mundo, por aqui. Depois, entre 2011 e 2015, vi apenas quatro. Mas, em 2016, já contei 30. E, no ano passado, 42. Agora, já passei de 90 e a temporada ainda não acabou. É uma ótima notícia”, diz Julio, que passou a se interessar por baleias em 2002, quando um encontro inesperado mudou radicalmente a sua relação com o mar e com este animal em particular.

“Eu estava pescando nas imediações de Ilhabela, quando duas baleias surgiram bem ao lado do meu barco, botaram as cabeças fora d’água e ficaram me olhando fixamente. Era uma coisa intensa, de olho no olho, como se elas me quisessem me dizer que sabiam o que eu estava fazendo”.

Aquilo me marcou tanto que nunca mais pesquei”, recorda Julio.

Em seguida, ele trocou as varas de pesca pelas lentes fotográficas e tornou-se o mais ativo fotógrafo e observador de baleias do litoral paulista.

Hoje, já aposentado, ele se dedica em tempo integral a esta atividade, que se tornou bem mais que um simples passatempo – virou um projeto quase científico.

Profissão: seguidor de baleias

Todos os dias durante a temporada de baleias jubartes, Julio parte com seu barco de Ilhabela em busca de borrifos, ou jatos verticais de água, no horizonte do mar. Eles indicam a presença de baleias na superfície e são seguidos por Julio com extremo cuidado e rigor científico.

No Brasil esta temporada acontece entre os meses de junho e setembro, quando as baleias migram da Antártica para o litoral brasileiro em busca de águas mais quentes e de um local mais tranquilo para procriar.

“Os borrifos, ou jatos de ar quente que elas exalam e que se condensam ao entrar em contato com o ar mais frio do meio ambiente, são os melhores indicativos de que há baleias no mar, embora as corcovas e as caudas fora d’água também sejam visíveis, às vezes”, ensina o especialista.

“Quem estiver no litoral (sobretudo na região de São Sebastião, onde as jubartes costumam se aproximar bastante da costa) e quiser ver baleias deve olhar fixamente para o horizonte, em busca desses esguichos. Às vezes, nem é preciso estar num barco, porque dá para ver de qualquer mirante à beira-mar”, garante.

A paixão que Julio desenvolveu pelas baleias e pelo prazer de monitorá-las o levou a criar um pequeno manual para quem quiser vê-las bem de perto no mar. Nele, entre outras coisas, ele ensina como se aproximar de uma baleia sem molestá-la nem colocar a própria vida em risco.

“A aproximação do barco tem que ser bem lenta e em paralelo ao animal, jamais de encontro a ele”, ensina. “Baleias são seres dóceis, mas com uma força descomunal. Uma simples batida acidental dela no casco pode virar um acidente fatal para quem estiver no barco”, garante.

Segundo Julio, neste instante, há mais de uma centena de baleias no mar do litoral norte de São Paulo.

(foto: Marcio Motta/Arquivo pessoal)

“Elas estão descansando da longa jornada desde a Antártica, antes de seguir viagem para o arquipélago de Abrolhos, no litoral sul da Bahia, onde se concentram. Mas algumas também estão tendo filhotes aqui mesmo, como prova uma imagem aérea que fizemos neste sábado, com uma fêmea nadando ao lado de um pequeno filhote. Ele era tão pequeno que não devia ter mais que dois ou três dias de vida. Ou seja, nasceu aqui mesmo, o que também eu nunca tinha visto”, diz Julio.

No dia 20 de julho, além de jubartes, Julio também documentou a presença de seis orcas, erroneamente chamadas de “baleias assassinas” (primeiro porque não são baleias, e sim parentes dos golfinhos; e, segundo, porque são apenas predadores mais eficientes que a maioria dos demais seres marinhos) na mesma região, nas proximidades de Ilhabela.

As orcas também costumam aparecer por aqui nesta época do ano, mas seis juntas também não é tão comum assim”, diz.

Neste ano, o serviço de monitoramento do Projeto Baleia à Vista também está contando com a ajuda de uma equipe de especialistas em terra firme.

“Eles ficam numa das pontas de Ilhabela, observando o horizonte e registrando as aparições. Já viram mais de 300, mas muitas dessas baleias são as mesmas que eu encontro no mar, então não podemos usar estes dados, porque seria uma duplicidade. Mas os meus registros são feitos sempre com o mesmo padrão e frequência, além de registrar peculiaridades que permitem diferenciar um animal do outro, como marcas na pele e nas nadadeiras”, diz Julio, que banca todo o projeto com dinheiro do próprio bolso.

Não ganho nada com isso. Só gasto. Mas faço com muito prazer”.

De acordo com o especialista, o aumento brutal na quantidade de baleias que este ano estão visitando o litoral de São Paulo tem diretamente a ver com o crescimento (ou, melhor dizendo, recuperação) da população destes mamíferos no mundo inteiro.

“Desde que a caça foi proibida, em 1986, a população de baleias no planeta vem crescendo num ritmo de 10% ao ano, apesar dos japoneses”, diz Julio, numa referência ao fato de que o Japão segue caçando baleias, mas, agora, apenas em suas águas, porque antes eles as caçavam até na Antártica, alegando “pesquisas científicas”.

“Dez por cento de crescimento da população ao ano é bastante, mas ainda estamos longe de atingir a mesma marca do passado, quando, estima-se, havia cerca de 100 mil baleias jubartes nos oceanos. Quando a caça foi proibida, restavam menos de 2 mil. Mas só isso não explica o que está acontecendo no litoral paulista, onde a quantidade de baleias mais que duplicou nesta temporada. É uma maravilhosa surpresa”, resume o especialista.

“As baleias também estão indo bem mais longe na costa brasileira do que antes, o que indica busca de novos territórios, já que a população vem aumentando. E isso também comprova que há bem mais baleias nas nossas águas”.

“Está facílimo ver baleias no litoral norte de São Paulo. Às vezes, dá para vê-las até da balsa que atravessa de São Sebastião para Ilhabela. E deverá ficar assim até o mês que vem”, indica o especialista.

 

Fotos e vídeos: Julio Cardoso/Projeto Baleia à Vista

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